“Brics é prioridade na política externa brasileira”, diz Dilma

Dilma: "Estou pronta para falar ao presidente Pútin sobre as possibilidades que o Programa de Investimentos Infraestruturais abrem aos investidores russos" Foto: Photoshot/Vostock-Photo

Dilma: "Estou pronta para falar ao presidente Pútin sobre as possibilidades que o Programa de Investimentos Infraestruturais abrem aos investidores russos" Foto: Photoshot/Vostock-Photo

Presidente concedeu entrevista exclusiva à agência Tass às vésperas de viajar à Rússia para cúpula do grupo, que se inicia nesta quarta-feira (8) em Ufá, na região central do país.

Na véspera de sua viagem à Rússia para a Cúpula do Brics em Ufá, que se inicia nesta quarta-feira (8), a presidente brasileira Dilma Roussef concedeu entrevista à agência de notícias russa Tass. Dilma falou sobre as iniciativas do Brics que considera prioritárias e em quais esferas a cooperação bilateral Brasil-Rússia tem maiores perspectivas.

Senhora presidente, que posição a participação do Brasil no Brics ocupa em sua estratégia de política e economia externa?

O Brics é um "sustentáculo" prioritário da política externa brasileira. Desde o momento de sua criação, em 2009 em Ekaterimburgo, o Brics representa tanto um símbolo, como a personificação das mudanças no sistema das relações internacionais rumo à multipolaridade.

Graças a sua ampla representatividade, sobretudo após a inclusão da África do Sul, em 2011, o grupo Brics ampliou sua coordenação na esfera econômico-financeira, no âmbito do G-20 e nas discussões em torno das reformas do Banco Mundial e do FMI (Fundo Monetário Internacional).

Somos a favor do aprofundamento da representatividade dos países em desenvolvimento em instituições financeiras internacionais como FMI e o Banco Mundial. Defendemos o fortalecimento do sistema multilateral de comércio sob a liderança da OMC (Organização Mundial de Comércio) e apoiamos o esforço pelo remate da Rodada de Doha de negociações multilaterais, assim como a ampliação e diversificação da participação do Brics no comércio mundial.

Trabalhamos juntos com o objetivo de reforçar o papel do G-20 como principal fórum de parcerias econômicas internacionais, com vista a um crescimento e um desenvolvimento que sejam sustentáveis e equilibrados.

Hoje, a cooperação intergovernamental entre os países do Brics no âmbito dos departamentos setoriais correspondentes abrange quase 30 áreas, como a agricultura, saúde, ciência, tecnologia e inovação, empregos. Além disso, graças aos esforços realizados durante a presidência da Rússia no Brics, a lista se amplia.

Da mesma maneira, é necessário dizer que o Brics não é limitado a iniciativas de nível intergorvernamental. Também somos a favor da inclusão da sociedade civil por meio do Fórum Acadêmico e do Fórum de Negócios do grupo. Graças a iniciativas tais quais o Fórum da Juventude e o Fórum da Sociedade Civil do Brics, fortalecemos laços que saem do escopo da iniciativa governamental.

No campo da política, o Brasil realiza coordenação, com seus parceiros do Brics, para reforçar a multipolaridade e o direito internacional por meio da manutenção do papel central da ONU e de seu Conselho de Segurança, que devem ser reformados para responder às realidades do século 21.

Com quais iniciativas e propostas a delegação do Brasil chegará à Cúpula do Brics em Ufá?

De todas as iniciativas do Brics, gostaria de ressaltar nossa cooperação na criação de institutos financeiros. Na Cúpula de Fortaleza, que o Brasil conduziu em julho do ano passado, foram assinados acordos sobre a criação do Novo Banco de Desenvolvimento e do Fundo de Reservas Monetárias.

Para o Brics, a criação do Novo Banco de Desenvolvimento significa um salto de qualidade, uma importante contribuição para a satisfação das exigências em investimentos na esfera da infraestrutura, que põem à prova os países em desenvolvimento. Além disso, o Fundo de Reservas Monetárias mostra a possibilidade dos membros do Brics de prestar auxílio mútuo em caso de dificuldades com os balanços de pagamentos.

Graças às instituições criadas, o Brics alcançou um novo patamar. Abrem-se novos canais para nossa parceria com o melhor entendimento das prioridades de desenvolvimento em diferentes regiões e com o aprofundamento da consciência dos desafios do desenvolvimento sustentável no importante momento atual de discussão da agenda nesse campo para o período pós-2015.

Espera-se que na Cúpula de Ufá se fale da elaboração de um "roteiro estratégico" para o Brics. Quais perspectivas e impedimentos nesse "roteiro" lhe parecem mais importantes? Ou seja, quais são as prioridades do Brics em curto prazo, a seu ver?

Considero que entre as prioridades em curto prazo do grupo esteja o aprofundamento do desenvolvimento. Além do Novo Banco de Desenvolvimento e do Fundo de Reservas Monetárias, é importante [para nossas relações] a "Estratégia de Parceria Econômica do Brics" [para um período que se estende até o ano 2020], que abre novas perspectivas de fortalecimento das relações dos cinco países na esfera da economia, do comércio e das finanças. 

Nesse documento, são analisados temas como o aumento e a diversificação dos fluxos comerciais, o abastecimento do comércio, o crescimento dos investimentos, assim como a realização de diferentes projetos na esfera da agricultura, da ciência, da tecnologia e inovação, e da educação.

Além disso, tal parceria dentro do Brics nos permite aperfeiçoar a prática de conduzir encontros tracionais com "países e regiões terceiros", no formato "outreach", que organizam os países que recebem a cúpula.

Senhora presidente, a senhora já encontrou-se algumas vezes com o presidente da Federação da Rússia, Vladímir Pútin. Com alguns políticos e estadistas, acontecem simplesmente conversas, com outros, é completamente diferente. A partir de sua experiência, como a senhora caracterizaria nesse sentido o presidente da Rússia?

Fui muito bem recebida pelo presidente Pútin durante minha visita a Moscou em 2012. Trouxe-me grande satisfação poder receber no ano passado no Brasil o presidente da Rússia no âmbito de sua visita a nosso país, assim como na final da Copa do Mundo.

Então, eu cumprimentei o presidente pela organização bem-sucedida das Olimpíadas de Sôtchi e comentei que nossos países - dois países do Brics - revezam-se na realização de eventos de tais dimensões.

Em nosso encontro no ano passado, acordamos que trocaríamos experiências para que as Olimpíadas de 2016 [no Rio de Janeiro] e a Copa do Mundo de 2018, na Rússia, fossem bem-sucedidas.

A Rússia e o presidente Pútin são parceiros tradicionais e interlocutores do Brasil. Com o presidente Pútin, sempre que nos encontramos tenho boas conversas, tanto nas questões bilaterais como em temas globais.

A Cúpula do Brics tem também dimensões bilaterais. Quais questões das relações bilaterais a senhora pretende discutir com o presidente russo?

No Brasil, sempre admiramos as realizações do povo russo. Sua história, suas realizações científicas, sua amplitude e riqueza artística, seus resultados nos esportes. Como provaram as celebrações recentes do Dia da Vitória, que celebrou os 70 anos do final da Segunda Guerra Mundial, o povo russo mostrou ao mundo sacrifício e bravura, persistência e abnegação, quando o destino de toda a humanidade estava em suas mãos.

A parceria estratégica da Rússia e do Brasil se caracteriza por um diálogo sólido. Nossos países, que estão entre os maiores do mundo em dimensões territoriais e econômicas, devem manter diálogo constante sobre as principais questões da agenda internacional, assim como na consolidação e atualização do papel da ONU e das reformas do FMI.

Nosso principal objetivo no momento é transformar a parceira estratégica em resultados concretos, sobretudo nas esferas comercial e econômica. Em encontro com o presidente Pútin no ano passado, falamos sobre a diversificação do comércio bilateral com o objetivo de que esse salte dos 6,8 bilhões de dólares, em 2014, para os 10 bilhões de dólares.

Estou pronta para falar ao presidente Pútin sobre as possibilidades que a nova etapa do Programa de Investimentos Infraestruturais, anunciada por nós em junho, abrem aos investidores russos.

Acredito que as companhias russas possam fazer uso das possibilidades abertas na esfera de transportes ferroviário e portos, campos em que são altamente capazes de concorrer. Além disso, gostaríamos de buscar novas áreas de cooperação em ciência e tecnologia, parcerias técnico-militares, energia e educação.

 

Publicado originalmente pela agência de notícias Tass.

 

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