‘Ucrânia não será tabu na cúpula do Brics’, diz embaixador brasileiro

 'A cooperação econômica entre o Brasil e a Rússia deve ser vista como bastante ‘jovem’. Foto: Pável Gazdiuk/Gazeta Russa

'A cooperação econômica entre o Brasil e a Rússia deve ser vista como bastante ‘jovem’. Foto: Pável Gazdiuk/Gazeta Russa

Em entrevista à agência Ria Nôvosti, o diplomata Antônio Guerreiro também afirmou que país vê com bons olhos ideia de moeda única do Brics.

O Brasil considera positiva a ideia de uma moeda única no Brics, espera que a cúpula do grupo em Ufá, no início de julho, impulsione o início do trabalho prático do Novo Banco de Desenvolvimento e do fundo de reservas cambiais, e incentive a discussão da crise ucraniana. As declarações foram dadas pelo embaixador do Brasil na Federação da Rússia, Antônio José Vallim Guerreiro, em entrevista à agência Ria Nôvosti:

A Rússia passou a presidir o Brics após o Brasil. Como o senhor avalia o trabalho da organização durante o ano da presidência brasileira?

O Brasil entregou a presidência à Rússia no dia primeiro de abril deste ano. Acreditamos que o nosso ano de presidência foi bastante bem-sucedido, apesar de coincidir com um período de grande atividade política dentro do Brasil, devido às eleições presidenciais em outubro do ano passado.

Na cúpula que se realizou em Fortaleza foram assinados dois documentos fundamentais sobre a criação de novos mecanismos de desenvolvimento: o Novo Banco de Desenvolvimento e um fundo de reservas cambiais. Atualmente, todos os países participantes estão ativamente empenhados em ratificar os acordos assinados de acordo com suas legislações nacionais. No que diz respeito ao Brasil, a Câmara dos Deputados e o Senado já fizeram todo o trabalho necessário, e esperamos que a cúpula de Ufá venha a dar início ao trabalho prático das novas instituições.

Na sua opinião, quando essas instituições financeiras funcionarão plenamente? De que forma esses projetos terão reflexo nas economias dos países-membros do Brics?  

O funcionamento do fundo de reservas cambiais, espero, não será assim tão necessário a curto prazo, já que ele é um instrumento, sobretudo, para a resolução de situações de crise. Esperamos não ser necessário recorrer a esse fundo. No mundo atual, a situação é muito volátil e, por isso, é essencial para o Brics ter um instrumento desses como mecanismo de segurança.

Quanto ao novo Banco de Desenvolvimento, o conceito do seu funcionamento difere significativamente do fundo de reservas cambiais; ele é, em primeiro lugar, um banco de investimento que irá alocar meios para o desenvolvimento de projetos infraestruturais. 

De acordo com os estatutos do banco, não só os países-membros podem receber financiamento, mas também outros que manifestem o desejo de colaborar com o banco, sem necessariamente ter que se tornar membro do próprio banco. Esperamos que a colaboração desses países com o banco dê um impulso positivo a todos os projetos que são a nossa principal prioridade para investimento.

Em relação ao Brasil, já escolhemos nosso representante para integrar o Conselho de Diretores. Os aspectos mais detalhados de funcionamento do banco serão discutidos na cúpula de Ufá, e para isso incluímos o ministro da Fazenda e o presidente do Banco Central do Brasil na composição da delegação oficial.

O Brics precisa de uma moeda comum?

Sem dúvida, essa questão já foi levantada mais de uma vez e discutida em várias circunstâncias. Consideramos a ideia em si bastante positiva, uma vez que permitiria utilizar uma moeda única nas trocas comerciais e não depender das perturbações do mercado cambial. Mas a questão é muito complexa, deve ser estudada em profundidade, primeiramente em nível técnico, no âmbito de especialistas conhecedores de todos os aspectos positivos e negativos da eventual introdução de uma moeda única.

Como o senhor vê a ideia de criar uma Assembleia Parlamentar do Brics?

Há apenas alguns dias aconteceu em Moscou um fórum parlamentar do Brics, o primeiro evento desse tipo. Consideramos que o evento correu muito bem, com a participação de cerca de 20 parlamentares brasileiros. A delegação foi chefiada pelos porta-vozes de ambas as câmaras do parlamento. Posso confirmar que, não só da parte dos parlamentares brasileiros, mas de todos seus pares de outros países, há uma predisposição otimista em relação ao futuro desenvolvimento e ao aprofundamento dos laços interparlamentares.

Mas não posso responder por nossos parlamentares sobre a forma que assumirá essa colaboração interparlamentar aprofundada: o Senado e a Câmara dos Deputados são órgãos legislativos independentes.

Apesar de ter estado presente aos encontros e às reuniões, a tomada de decisões em relação aos resultados do fórum é da competência dos parlamentares. Por meu lado, só posso desejar que a colaboração entre os nossos parlamentos adquira realmente uma forma prática e útil o mais rápido possível, uma vez que eles, como representantes dos povos dos seus países, já manifestaram estarem prontos para um trabalho conjunto mais coordenado e aprofundado. Assim, posso dizer que o povo do Brasil e dos outros países já manifestaram seu apoio à ideia da criação da assembleia parlamentar.

Até que ponto é verdadeira a ideia de que os países do Brics formularão, na cúpula de Ufá, uma posição conjunta em relação à situação na Ucrânia?

É evidente que a questão da Ucrânia não é tabu nas discussões no âmbito do Brics. Estou certo de que os líderes de nossos países, tendo plena liberdade para expressar suas posições políticas, levantarão esse tema. Para saber de que forma isso será feito, vamos ter que esperar pelas palavras dos próprios presidentes. Mas esse tema pode ser - e, provavelmente, será - discutido. Serão feitas declarações públicas.

Se você se recorda, na última cúpula, em Fortaleza, na declaração final dos chefes de Estado havia um parágrafo dedicado ao conflito no leste da Ucrânia, no qual se dizia que ele deveria ser resolvido apenas por meios pacíficos. Além disso, vale a pena lembrar que, no ano passado, a delegação ucraniana propôs um projeto de resolução na Assembleia Geral das Nações Unidas e todos países-membros do Brics se abstiveram de votar.

Já há vários anos o Brasil está negociando a compra de sistemas de mísseis antiaéreos russos "Pantsir", e há pouco tempo se noticiou que as negociações foram adiadas novamente. Em que pé elas estão agora?

A decisão da compra já está tomada, e os sistemas serão comprados. Segundo a informação que tenho neste momento, a conclusão da transação está prevista para o primeiro semestre de 2016. Isso se deve ao fato de não terem sido alocados fundos suficientes no Orçamento federal de 2015 para financiar armamento. Estamos agora trabalhando para garantir que o Ministério da Defesa preveja esse artigo do orçamento para 2016.

Quão promissoras são as negociações sobre a compra de caças russos por seu país, com a posterior instalação de equipamento eletrônico brasileiro nas aeronaves?

No momento, no âmbito das licitações com base em licitação, decidiu-se que o Brasil comprará os caças suecos Gripen. Mas isso não exclui a possibilidade de, no futuro, a nossa Força Aérea achar conveniente a compra de caças russos. A questão da conveniência é, evidentemente, da competência do Exército, e a Força Aérea é responsável pela análise e tomada dessas decisões.

A crise nas relações entre a Rússia e o Ocidente tem tido influência sobre a cooperação econômica entre nossos países, no comércio bilateral?

O potencial para uma maior expansão da nossa cooperação econômica sempre existiu, mesmo antes da decisão de os países ocidentais imporem sanções. Apesar de as economias e mercados de nossos países possuírem um grande potencial, da ordem dos dois trilhões de dólares, temos que admitir que a cooperação econômica entre o Brasil e a Rússia deve ser vista como bastante ‘jovem’.

As relações comerciais e econômicas mais ativas começaram apenas há 15 ou 20 anos. Por isso, nosso principal objetivo agora é incentivar empresários de ambos os países a entrar ativamente no mercado.

O volume de negócios do comércio bilateral no ano passado chegou aos US$ 6,3 bilhões, sem dúvida um valor baixo se considerarmos o potencial dos nossos mercados.

O Brasil não entrou no mercado russo para ocupar o lugar de outros. Negócios são negócios e os nossos empresários trabalham a partir de seus interesses. A tarefa da Embaixada do Brasil e de toda a máquina estatal brasileira é fornecer apoio institucional às iniciativas do empresariado brasileiro.

O Brasil planeja ampliar a lista de alimentos fornecidos à Federação da Rússia? Quando teremos no mercado russo os laticínios das empresas que foram autorizadas a exportar para a Rússia recentemente?

Um dos principais produtos de exportação do Brasil, reconhecido mundialmente, é a carne. E A Rússia exporta fertilizantes para o Brasil. Sem dúvida, é nosso interesse comum expandir e diversificar a lista de produtos importados e exportados.

O que nós gostaríamos de exportar para a Rússia são produtos de alto valor agregado, justamente os que são necessários e têm demanda aqui. Isso já é uma questão para os nossos empresários, a questão das relações entre exportadores e importadores. Quanto ao queijo, espero que apareça em breve nas prateleiras russas. O que não posso é dizer com precisão quando isso vai acontecer.

 

Publicado originalmente pela agência de notícias Ria Nôvosti

 

 

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