Acordo sobre programa nuclear iraniano deve favorecer a UE, apontam especialistas

Futuro levantamento de sanções contra o Irã aumentará concorrência russa Foto: AP

Futuro levantamento de sanções contra o Irã aumentará concorrência russa Foto: AP

O Ministério das Relações Exteriores da Rússia informou oficialmente que as conversações em Lausanne, na Suíça, entre o Irã e o G5+1 (membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, mais a Alemanha) conseguiram traçar um acordo-quadro político para a resolução definitiva da situação em torno do programa nuclear iraniano. Moscou vê compromisso como um triunfo da abordagem político-diplomática para resolução de problemas internacionais defendida pela Rússia. No entanto, especialistas acreditam que o maior beneficiário deste acordo não será o país, mas a UE.

O Ministério das Relações Exteriores russo considera o acordo alcançado entre o Irã e o G5+1 (Estados Unidos, Reino Unido, França, China e Rússia, mais Alemanha) como uma vitória da abordagem político-diplomática para resolução de problemas internacionais. De acordo com a pasta, todos os passos seguintes serão dados com base em princípios de execução gradual e reciprocidade, que já haviam sido propostos pelo chanceler russo Serguêi Lavrov.

Moscou espera que, depois de se ter chegado a um acordo sobre o programa nuclear iraniano, o Irã seja capaz de participar mais ativamente na resolução dos problemas e conflitos regionais. Porém, observadores russos estão divididos quanto à avaliação do futuro das relações russo-iraniana após o levantamento das sanções.

Em entrevista à Gazeta Russa, o especialista do Instituto de Previsão e Resolução de Conflitos Políticos Aleksandr Kuznetsov disse acreditar que a assinatura do acordo-quadro não afetará a imagem internacional da Rússia, já que no último ano os iranianos negociaram principalmente com os EUA, enquanto Moscou esteve voltada a outros problemas.

Mesmo assim, segundo Kuznetsov, o receio do Kremlin sobre uma possível reaproximação entre os Estados Unidos e o Irã são prematuros. “Embora Obama esteja interessado em uma abrandamento das relações com o Irã, o seu governo segue uma política de contenção da expansão iraniana”, garantiu.

Ainda de acordo com o especialista, também não se deve esperar um grande desenvolvimento das relações russo-iranianas após a assinatura do acordo com o G5+1. “A cooperação política entre a Rússia e o Irã já existe hoje, seja em visitas oficias ou assistência técnico-militar ao Iraque. Mas é prematuro falar sobre uma parceria estratégica. A parte iraniana tem razões para estar insatisfeita. O Irã está tentando aderir à Organização para Cooperação de Xangai, e a Rússia não vem colaborando muito porque o Cazaquistão e a China se opõem a isso.”

Concorrência

Também existem restrições para uma cooperação bilateral no domínio econômico. “A Rússia não aproveitou o período das sanções para fortalecer a sua posição no Irã e agora as chances serão poucas devido à concorrência com a União Europeia e a China. Nós seremos necessários apenas em algumas área, como ferrovias, energia elétrica. Quem mais beneficiará com a assinatura do acordo é a UE”, afirmou Kuznetsov.

Se as sanções contra o Irã forem, de fato, levantadas, a Rússia terá que competir no Irã com os países ocidentais, o que permitirá ao Irã ter “mais espaço de manobra”, concorda o presidente do Conselho de Política Externa e Política de Defesa, Fiódor Lukianov.

O mesmo ponto de vista é corroborado por um dos principais especialistas do Instituto de Economia Mundial e Relações Internacionais da Academia Russa de Ciências, Aleksêi Arbatov. “A cooperação econômica poderá ser expandida, mas, se na venda de armamento podemos vencer, já em outras áreas, o Irã, ao expandir os seus laços, poderá sempre recorrer ao Japão e Estados Unidos”, sugere o especialista.

No entanto, o diretor do Departamento do Cáucaso do Instituto dos países da CEI, Vladímir Evseiev, acredita que a Rússia ganhou, sim, uma janela de oportunidade nas relações com Teerã, uma vez que as sanções impostas ao Irã não serão levantadas tão rapidamente.

“Na segunda metade do ano, podemos começar a construção de outra usina em Bushehr. Existe uma proposta do lado iraniano de modernização ferroviária e estamos prestes a ampliar a cooperação militar. É possível vir a acontecer entrega de equipamento para a Marinha e Força Aérea do Irã, bem como a modernização de sua Defesa Aérea”, aponta Evseiev.

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