Morte de Nemtsov não deve gerar mudanças políticas, alertam analistas

Cientistas políticos acreditam ser cedo para esperar uma intensificação de protestos por causa do assassinato de líder oposicionista Foto: AP

Cientistas políticos acreditam ser cedo para esperar uma intensificação de protestos por causa do assassinato de líder oposicionista Foto: AP

Assassinato de líder oposicionista levantou dúvidas sobre o futuro das forças de oposição no país, mas analistas políticos não acreditam em mudanças positivas. Enquanto governo federal endurece a retórica, a esmagadora maioria dos cidadãos ainda não parece pronta para apoiar a oposição.

A liberalização econômica, ou seja, menos restrições governamentais e maior participação de instituições privadas na economia, é, segundo observadores nacionais, uma das principais expectativas políticas da oposição após o assassinato de Boris  Nemtsov.

“Mas a oposição pró-ocidental só pode contar com um abrandamento da retórica contra si se os mandantes da morte de Nemtsov fossem comprovadamente nacionalistas russos”, alerta o diretor do Instituto de Estudos Políticos, Serguêi Márkov.

Segundo o especialista, o mais provável, contudo, é que o crime seja imputado a agências de inteligência ocidentais, o que resultará no endurecimento da retórica. “O mesmo acontecerá se não encontrarem o mandante. As autoridades vão, de qualquer jeito, achar que aquilo foi trabalho de agências de inteligência e que a oposição simplesmente as encobre ao tentar atribuir o assassinato à liderança do país”, acrescenta.

Essa previsão negativa é corroborada pelo analista político independente Stanislav Belkovski. “O governo russo irá insistir [na teoria de] que tudo foi organizado pela oposição com o apoio dos Estados Unidos. A pressão apenas irá aumentar e a oposição será ainda acusada de desestabilizar a situação no país”, afirma. 

Nesse cenário, a proposta do comitê científico sob a alçada do Conselho de Segurança da Federação Russa – tomar medidas para combater as “revoluções coloridas” no país – apenas confirma a postura pessimista dos cientistas políticos diante do futuro.

“O assassinato de Boris Nemtsov na véspera de um protesto em massa poderia ter sido o gatilho para a formação de uma multidão política agressiva e incontrolável”, declarou ao jornal “Kommersant” o membro do comitê científico e  ex-oficial dos serviços de inteligência Andrêi Manoilo.

Os cientistas políticos entrevistados pela Gazeta Russa acreditam, porém, que é cedo para esperar uma intensificação de protestos por causa do assassinato do líder oposicionista. “A morte de Nemtsov já levou para a rua aqueles que até então não pretendiam participar das ações da oposição”, diz Belkovski.

“O número de pessoas que participaram da marcha fúnebre foi duas ou três vezes maior [em comparação aos últimos protestos da oposição], mas não significa que exista qualquer impulso prolongado para organizar uma Maidan, como em Kiev.”

Ruim com Pútin, pior sem ele?

Segundo o estrategista político Konstantin Kalátchev, embora a oposição tenha ganhado agora o seu próprio mártir, a morte Nemtsov é pouco para agitar a sociedade. “A maioria da população hoje é guiada pelo princípio de ‘não seria pior?’ e se agarra à estabilidade com unhas e dentes”, sugere. “Já a oposição, esta é associada não a mudanças para melhor, mas precisamente à instabilidade.”

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