‘Compreendi claramente que haviam decidido me matar’

Ianukovitch: "A oposição ultrapassou completamente os limites da lei e começou a armar os manifestantes" Foto: Reuters

Ianukovitch: "A oposição ultrapassou completamente os limites da lei e começou a armar os manifestantes" Foto: Reuters

Ex-presidente da Ucrânia, Víktor Ianukovitch deu entrevista exclusiva ao jornal russo “Argumenti i Fakti” (“Argumentos e Fatos”). Segundo ele, silêncio que se prolongou por seis meses serviu para analisar não apenas as palavras dos políticos ucranianos, mas também suas ações. Confira a seguir os principais trechos da entrevista.

Maidan e a revolução ucraniana 

Certamente, não existiu nem poderia ter existido qualquer ordem de dispersar os manifestantes. Em minha opinião, isso foi uma provocação muito bem organizada a fim de converter um protesto pacífico em um movimento radical. [...] A ideia de que eu dei a ordem de dispersar os estudantes foi rapidamente imposta às pessoas que estavam na Maidan.

Os verdadeiros mandantes dessa ação já haviam elaborado o seu plano de desestruturar o país, tornando-o fraco e complacente. Para fazer isso, eles precisavam, em primeiro lugar, depor o presidente. E isso foi feito seguindo as melhores tradições das revoluções realizadas no Oriente Médio.

Na Maidan, havia muitos patriotas de verdade que acreditavam que a opção pela Europa traria mais êxito para a Ucrânia. As dezenas de milhares de pessoas que estavam na Maidan não ganharam nada.

A oposição ultrapassou completamente os limites da lei e começou a armar abertamente os manifestantes. Em um único dia, em 18 de fevereiro, mais de uma dezena de policiais morreram devido a disparos por arma de fogo. Diga-me: isso poderia ter acontecido se os manifestantes não estivessem armados?

Quero perguntar ao atual governo: por que até agora não foi concluída a investigação dos fatos relacionados às mortes das pessoas que fazem parte da “Centena Celestial” [como são chamados os mortos na Maidan, em fevereiro de 2014; essas pessoas morreram pelas mãos de franco-atiradores entrincheirados nos telhados dos edifícios] e dos agentes de órgãos de aplicação da lei? Será que eles têm medo de revelar toda a verdade sobre o ocorrido?

Golpe de Estado

A única coisa pela qual me sinto responsável foi não ter conseguido impedir que aventureiros políticos dessem um golpe de Estado com a ajuda de forças externas. 

O meu dever era preservar a integridade da Ucrânia e as vidas humanas, além de garantir a aplicação da lei. Na qualidade de presidente do país, eu não podia tomar partido de um dos lados. Sempre fui a favor de buscar uma solução pacífica para a situação e evitar o derramamento de sangue.

Os líderes da oposição telefonavam e tentavam me convencer a renunciar. Recusei-me terminantemente. Depois disso, começaram as ações concretas que representavam uma ameaça a mim e às pessoas que me acompanhavam. Em função das informações que eu recebia e, principalmente, graças às tentativas de assassinato, compreendi claramente que haviam decidido me matar.

A minha escolta foi várias vezes alvo de disparos. Um dos seguranças foi ferido. Foi exatamente por esse motivo que eu tive de me mudar para um lugar onde as forças de segurança ainda se mantinham fiéis ao juramento e continuavam subordinadas ao comandante-chefe. 

Quando eu já me encontrava na Crimeia, surgiu então a dúvida: o que fazer em seguida? Entregar-me voluntariamente estava fora de questão. Os conspiradores não precisavam de um Ianukovitch vivo, pois seria testemunha de seus crimes. Restavam apenas duas opções: ou utilizaria as forças que me eram fiéis e restauraria a ordem constitucional na Ucrânia, ou seria obrigado a deixar o país.

Acusações de corrupção

Nem eu nem meus filhos estávamos envolvidos em casos de corrupção. E não é por acaso que, até agora, o novo governo ucraniano não foi capaz de provar qualquer coisa. Afinal, esses fatos não existem. Eu não tenho e nunca tive quaisquer contas no exterior.

Combates no leste da Ucrânia

De qualquer modo, os cidadãos ucranianos do leste e do oeste não têm nada para dividir. Essa guerra foi desencadeada por políticos ineptos a fim de consolidar seu poder e desviar a atenção de outros problemas. Por isso, tenho certeza de que assim que os atuais políticos se forem, o povo conseguirá entrar em um acordo e a Ucrânia se unificará novamente.

Dói muito ver como o país está mergulhando no caos de uma guerra civil. Mas quero acreditar que o povo ucraniano terá sabedoria suficiente para deter esse cenário que lhe foi imposto e conseguirá estabelecer a paz e a harmonia no país.

 

Publicado originalmente pelo aif.ru

 

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