Vinte anos depois da tragédia na Tchetchênia

Primeira Guerra Tchetchena foi um dos acontecimentos mais trágicos da Rússia pós-soviética Foto: Ígor Mikhaliov/RIA Nóvosti

Primeira Guerra Tchetchena foi um dos acontecimentos mais trágicos da Rússia pós-soviética Foto: Ígor Mikhaliov/RIA Nóvosti

Há duas décadas, a República da Tchetchênia foi palco de uma guerra que tirou milhares de vidas de civis e influenciou o desenvolvimento da Rússia por anos. A Gazeta Russa analisa as consequências da tragédia.

Após a desintegração da União Soviética, acentuaram-se as tendências separatistas em várias repúblicas. Um dos exemplos mais marcantes foi a da Tchetchênia, que declarou sua independência e passou a se chamar República da Itchquéria.

As tropas russas já haviam se retirado da região, deixando para trás consideráveis reservas de armas e meios técnicos. “Ali reinava a desordem. Radicais misturados a armas ameaçavam já não apenas o Cáucaso do Norte, mas também a Rússia como um todo”, recorda Ivan Ríbkin, presidente da Duma de Estado (câmara baixa do Parlamento russo) entre 1994 e 1996.

Na época, a Tchetchênia, uma região de refinamento de petróleo, era uma zona offshore no interior da Rússia. “Em 1992, recebeu mais de 6 milhões de toneladas de petróleo bruto. Transformados, seus derivados eram colocados na indústria interna ou exportados. Também é provável que Tchetchênia fosse usada como offshore para fuga aos impostos”, escreve Aleksandr Tcherkassov, presidente da ONG de direitos humanos Memorial, em seu livro “Tchetchênia. Vida na Guerra”.

As autoridades temiam o envolvimento de outras repúblicas no processo separatista, e havia pouco tempo para preparar uma operação militar. Em dezembro de 1994, as tropas russas entraram no território tchetcheno por oeste, norte e este, na esperança de ocupar a república – mas acabaram se deparando com uma resistência terrível.

Os objetivos da Rússia não eram bem definidos – e este foi exatamente o maior problema da Primeira Guerra Tchetchena, segundo Gleb Pavlóvski, politólogo e diretor da Fundação de Política Eficaz. Em 1994, a popularidade do presidente Boris Iéltsin caiu para 3%. “Foi isto”, defende Pavlóvski, “que fez com que a guerra deflagrasse. A eventual vitória numa ‘pequena guerra’ poderia aumentar a popularidade do líder”.

Entretanto, a Rússia não conseguiu romper com a rapidez a resistência dos separatistas. Os tanques russos foram destruídos com lança-granadas, e os sobreviventes viraram prisioneiros. A guerra prosseguiu então por mais um ano e meio.

Depois de chegar a Grózni, capital da Tchetchênia, as tropas russas iniciaram uma ‘limpeza’ entre a população. As operações militares envolveram a força aérea e a artilharia, e a destruição da cidade foi catastrófica.

A ONG Memorial estima que as baixas entre civis chegaram a 50 mil, dois quais 5.000 pertenciam a tropas federais. Já o número de vítimas das operações tchetchenas, é desconhecida. Isso porque os locais responderam às investidas russas com uma onda de atos terroristas que se estendeu a todo o país.

Só nos primeiros meses da guerra, mais de 300 mil pessoas deixaram a república. Algumas delas conseguiram adquirir estatuto de refugiado e, mais tarde, regressaram à região. Grande parte, porém, teve que recomeçar a vida da estaca zero.

A Primeira Guerra Tchetchena terminou em agosto de 1996, quando a Rússia retirou suas tropas. A paz se prolongou por apenas três anos; na sequência, teve início a Segunda Guerra Tchetchena.   

 

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