“Sanções contrariam princípio de funcionamento do G20”

Pútin: "Os EUA que não estão cumprindo sua parte" Foto: RIA Nóvosti

Pútin: "Os EUA que não estão cumprindo sua parte" Foto: RIA Nóvosti

Em entrevista à agência de notícias Tass, o presidente russo Vladimir Putin falou sobre as perspectivas da Cúpula do C20 que acontece em Brisbane, na Austrália, neste fim de semana. Entre os assuntos abordados, líder russo falou sobre as sanções impostas pelo Ocidente, os princípios do grupo que reúne as maiores potencias do mundo e a necessidade de trabalhar em conjunto para alavancar o crescimento econômico global.

Até que ponto o formato do G20 continua sendo necessário e atual? Qual a lógica no fato de países do grupo, que procuram cooperar e desenvolver a economia global, imporem sanções contra um dos membros?

Se esse formato é necessário ou não? Eu acho que é. Por quê? Porque ele nos disponibiliza um local, uma plataforma onde é possível as pessoas se encontrarem e discutirem relações bilaterais, questões globais e, ao menos, desenvolver um certo entendimento comum, descobrir qual é o problema e como resolvê-lo, mostrar o caminho do trabalho conjunto. Isso é o mais importante, porque acreditar que tudo que se discute lá será depois colocado em prática é absolutamente irrealista, já que essas decisões por si só não têm qualquer caráter vinculativo.

Parte delas não são sequer implementadas. E elas não são implementadas quando deixam claramente de corresponder aos interesses de alguém, já que estamos falando, acima de tudo, dos interesses de players globais. Por exemplo, em uma das cúpulas do G20 foi tomada a decisão de reforçar o papel das economias emergentes na atividade do FMI, de redistribuir cotas. O Congresso dos EUA bloqueou a decisão, e tudo ficou por aí mesmo. Os negociadores, os nossos parceiros, dizem: “Faríamos com prazer, nós assinamos, tomamos a decisão, mas o Congresso chumbou”.

No entanto, o próprio fato de tal decisão ter sido formulada, além de todos os participantes da vida internacional no âmbito do G20 terem considerado que aquilo era certo, justo e que corresponde às realidades de hoje, já vai, de algum modo, orientar a opinião pública internacional e os especialistas, e isso tem que ser levado em conta. E o fato de o Congresso dos EUA ter se recusado a aprovar essa lei mostra que os Estados Unidos estão saindo do contexto geral da resolução dos problemas que se colocam à comunidade internacional. Só que ninguém se lembra disso. Por meio de especulações no seu monopólio de mídia, eles brecam essa informação, e é como se ela já nem existisse.

Todo mundo fala de alguns problemas atuais relacionados com as sanções e com a Rússia, mas a verdade é que, em nível global, temos aqui um caso no qual são os EUA que não estão cumprindo sua parte. Mesmo assim, isso não significa que o formato atual seja inútil, porque traz benefícios. 

Seria o caso de tornar essas decisões obrigatórias?

Isso é impossível. Não existem exemplos disso na prática internacional. Bem, exceto no que diz respeito às decisões do Conselho de Segurança, no campo da própria segurança internacional. Mas a isso se chegou sob condições muito difíceis da sangrenta Segunda Guerra Mundial. Imaginar que hoje seriam desenvolvidos novos mecanismos iguais a esse, que tivessem obrigatoriamente valor vinculativo, especialmente na esfera econômica, é simplesmente irrealista. Mas, repito, existe aqui um caráter político-econômico com traços morais.

Agora, sobre a questão de alguns países do G20 imporem sanções à Rússia, é claro que isso é contrário ao próprio princípio do funcionamento do grupo, mas não só! Isso contradiz o direito internacional, porque as sanções só podem ser impostas no âmbito das Nações Unidas e de seu Conselho de Segurança. E tem mais: isso contradiz os princípios da OMC (Organização Mundial do Comércio), o Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio – o chamado GATT. Foram os Estados Unidos que criaram essa organização, e são eles próprios que agora violam os seus princípios. Isso é prejudicial e obviamente nos provoca algum dano, mas também é prejudicial para eles. Na realidade, isso vai minar todo o sistema de relações econômicas internacionais. Espero muito que, no final das contas, as pessoas se deem conta disso e deixem essa questão no passado.

Existe agora no G20 um certo equilíbrio de forças: de um lado está o G7, e, do outro, os países do Brics e alguns Estados que se unem a eles. Partindo do pressuposto de cada um defende seus próprios interesses, como o senhor vê esse equilíbrio de forças? Essa discussão fará com que a verdade venha à tona ou estamos basicamente diante de um novo confronto entre dois blocos?

Em primeiro lugar, eu acho que seria muito ruim se começasse outra vez a surgir novos blocos. Isso não é nada construtivo, é até mesmo prejudicial para a economia global. Afinal, estamos falando de economia, certo?

De uma economia cada vez mais invadida pela política...

Isso é verdade. Mas, mesmo assim, o G20 é essencialmente um fórum econômico. E proponho desviar para aí o centro de gravidade da nossa conversa. Eu já mencionei a OMC, que formulou determinadas regras do jogo. Além disso, foi criado um mecanismo como o FMI. Surgem então discussões de como melhorar os mecanismos financeiros internacionais e de como melhorar as relações comerciais. Você sabia que a chamada Rodada Doha da OMC está factualmente num beco sem saída? Por quê?

Devido às diferentes abordagens e diferentes interesses entre as economias emergentes e as economias desenvolvidas, entre o fato de em um caso haver desequilíbrio de capital, e no outro existir desequilíbrio nos fluxos comerciais. Nas economias desenvolvidas existe muito capital disponível livre, e surge a questão em torno da aplicação segura naquelas economias que proporcionam estabilidade, protegem a propriedade e geram um determinado lucro que vai criar rendimentos para uma ou outra economia desenvolvida. Por isso é que eles exportam capital, enquanto os países em desenvolvimento formam correntes de mercadoria. Parte dessa engrenagem precisa ter certeza de que o seu capital será aplicado com segurança, e a outra parte, os destinatários dos capitais, tem que ter a certeza de que as regras do jogo não vão mudar só porque quem exporta o capital de repente mudou de ideia, incluindo por razões de ordem política.

Mas todos têm que entender que hoje a economia global e as finanças se encontram em um estado de dependência mútua. Vejamos o nosso caso, por exemplo: os outros países limitaram o acesso de nossas instituições financeiras aos mercados financeiros internacionais. Quando conseguimos atrair capital dos mercados financeiros internacionais, as nossas instituições ficam em condições de financiar as empresas nacionais, que, por sua vez, compram produtos acabados daquelas mesmas economias desenvolvidas, ajudando, assim, a manter os empregos, os serviços sociais e o crescimento econômico desses países. Se nós não fizermos mais isso, no futuro haverá falhas lá do outro lado. São essas coisas profundas que não são visíveis à primeira vista.

Graças à nossa colaboração com a Alemanha, 300 mil postos de trabalho são garantidos lá. Se as nossas encomendas deixarem de ser feitas, isso vai ser muito ruim. Sim, claro que eles vão se reorientar para outra coisa qualquer, mas ainda é preciso descobrir para onde. Não é assim tão simples. Por isso, é importante resolvermos juntos todas essas tarefas que surgem, todos esses problemas – que são muitos.

Veja outro exemplo de novo relacionado aos Estados Unidos. Eles estão agora falando da criação de duas associações: uma Transatlântica, e outra Transpacífica. Se esses dois grupos se fecharem em si, no final, eles não só vão fracassar em eliminar os desequilíbrios na economia mundial, como, pelo contrário, esses desequilíbrios irão aumentar. E nós, é claro, somos a favor de não existirem tais desequilíbrios, para que possamos trabalhar juntos. Só em conjunto é que dá para resolver essas questões.

Afinal, uns 20, 30, 50 anos atrás, a situação era diferente. Por que é que eu digo com tanta certeza de que somente juntos podemos resolver as coisas com eficácia? Veja bem, por paridade, o poder aquisitivo da soma dos PIBs dos países do Brics é superior ao mesmo indicador dos países do G7. Se não me engano, no Brics ele chega aos US$ 37,4 trilhões de dólares, e no G7, aos US$ 34,5 trilhões de dólares. E se agora nós resolvêssemos dizer: “Não, nós vamos fazer as coisas separadamente assim e assim, e vocês aí façam como quiserem”? Além de maior desequilíbrio, nada mais resultaria daí. Queremos tomar decisões, e é preciso decidir em conjunto.

Fala-se agora do surgimento de um novo G8, que seria constituído pelos países do Brics, junto com Indonésia, Turquia e México. O senhor acha que esse formato teria futuro?

Eu já disse que devemos resolver as coisas juntos, porque tudo está interligado no mundo moderno. Se você cria grupos regionais, como nós criamos, por exemplo, a União Econômica da Eurásia, com Bielorrússia e Cazaquistão, então deve ser apenas como complemento aos instrumentos globais existentes, e todos devem trabalhar dentro dessas regras globais.

 

Publicado originalmente pela agência de notícias Tass

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