As duas faces de Iasser Arafat

Imagem de Arafat é marcada por contraste entre período soviético e Rússia contemporânea Foto: AFP/East News

Imagem de Arafat é marcada por contraste entre período soviético e Rússia contemporânea Foto: AFP/East News

No dia 11 de novembro de 2004 falecia, em circunstâncias misteriosas, Iasser Arafat. Dez anos depois, continuam as discussões em torno das causas de sua morte. Não menos polêmica permanece a figura do próprio Arafat. Em vida, era conhecido tanto como um defensor da liberdade do povo palestino, como um terrorista implacável. Atualmente, líder palestino ainda divide opiniões na Rússia.

Na União Soviética, o líder palestino era bem conhecido. Iasser Arafat fez a sua primeira visita a Moscou em 1968. Na época, ainda não era universalmente reconhecido como líder do povo palestino, mas a sua credibilidade no mundo árabe cresceu rapidamente.

Apresentado em Moscou ao secretário-geral do PCUS (Partido Comunista da União Soviética), Leonid Brejnev, o palestino agradou à liderança da URSS e passou a contar com o apoio do Kremlin. As causas da amizade com o “camarada Arafat” eram evidentes: os soviéticos ganhavam em apoiar os políticos que se opunham à Israel pró-EUA. Paralelamente, Arafat precisava dos recursos poderosos da superpotência para garantir a obra de sua vida – a luta pela libertação da Palestina.

A ajuda financeira da URSS à causa palestina é estimada entre US$ 400 e 700 milhões. Em termos políticos, a ajuda soviética teve ainda maior importância. Em entrevista ao jornal “Izvéstia”, o vice-diretor do Instituto de Estudos Orientais, Vladímir Issáiev, afirma que graças à União Soviética os israelenses não invadiram Beirute, em 1982. Como ali se encontrava a sede da (OLP) Organização para a Libertação da Palestina, haveria grande chance de aniquilar por completo o movimento da resistência.

Mesmo assim, a relação de Arafat com Moscou teve altos e baixos. Segundo o analista político Serguêi Strokan, é provável, por exemplo, que o líder palestino estivesse por trás do sequestro dos cidadãos soviéticos em Beirute, em 1985. Na época, os militantes palestinos chantagearam o Kremlin, exigindo que este exercesse pressão sobre a sua aliada Síria, que combatia os palestinos no Líbano.

Ficou comprovado que os sequestradores não tinham qualquer relação com Arafat, mas o assassinato de um dos reféns teve a participação de dois de seus guardas. O líder da OLP disse que pagou aos terroristas o resgate pelos reféns, mas isso aconteceu depois de os serviços de inteligência terem interceptado uma conversa entre Arafat e sua equipe, na qual ele ordenava que “não libertassem os reféns sem a respectiva ordem”.

Os reféns foram então parar nas mãos do Hezbollah. Para Strokanov, não restam dúvidas de que o próprio Arafat os entregou ao grupo islâmico, embora não exista nenhuma acusação formal.

Terrorista ou pacificador?

Com o colapso da URSS, a situação internacional mudou. Em 1991, a Rússia estabeleceu relações diplomáticas com Israel e passou do apoio incondicional à OLP a uma posição mais contida. Em muitos aspectos, foi precisamente o enfraquecimento da União Soviética e o fim dos investimentos financeiras oriundos da potência socialista que obrigaram Arafat a substituir a luta armada pelas negociações de paz com Israel, cuja destruição defendeu com fervor durante anos.

Enquanto na União Soviética a imprensa oficial descrevia Arafat com termos elogiosos, a queda do regime soviético resultou em uma visão diversificada do líder palestino. Surgiu então quem odiasse Arafat, considerando-o um terrorista. Paralelamente, outros jornalistas, como, por exemplo, o colunista da “Rossiyskaya Gazeta” Aleksandr Sabov, escreviam sobre o importante papel do líder palestino na mudança do posicionamento da OLP em relação a Israel.

Segundo Sabov, o acordo de Oslo, assinado por Arafat, não levou à paz na região, mas “o fato de o ex-lutador implacável contra o sionismo ter apertado a mão do chefe do governo israelense foi um ato de grande importância”.

Cores de Arafat

A Cúpula para a Paz no Oriente Médio em Camp David, em julho de 2000, poderia ter sido a apoteose dos esforços empreendidos por Israel e Palestina. Mas isso não aconteceu, e grande parte da culpa pelo fracasso recaiu sobre Arafat. Dali em diante, o líder palestino ficou conhecido por muitos como um “político incapaz de negociar”.

Após sua morte, vários jornais russos escreveram que a entrada em cena de líderes mais moderados, como Mahmoud Abbas, poderia “realmente tirar do beco sem saída um dos conflitos mais antigos do mundo”. Mas isso também não ocorreu. O Estado palestino jamais foi criado, o confronto interno entre o Fatah e o Hamas se intensificou, e as frequentes desavenças com Israel ainda resultam em mortes de civis de ambos os lados.

Na tentativa de descrever a personalidade de Iasser Arafat, o jornalista especializado em relações internacional Farid Seiful-Mulyukov, que conhecia pessoalmente o líder palestino, resumiu: “Arafat é uma figura política complexa. Ele não pode ser pintado de uma só cor. Sua imagem política foi afetada por mais de meio século de tragédia envolvendo o povo palestino”.

 

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