Contra todos (os muros)

Gorbatchov foi o último líder da União Soviética, entre 1985 e 1991 Foto: Photoshot / Vostock-Photo

Gorbatchov foi o último líder da União Soviética, entre 1985 e 1991 Foto: Photoshot / Vostock-Photo

Às vésperas do 25º aniversário da queda do Muro de Berlim, celebrado em 9 de novembro, o ex-presidente soviético Mikhail Gorbatchov falou à Gazeta Russa sobre relações internacionais no passado e presente e criticou a construção de um novo muro entre o Oriente e o Ocidente.

Gazeta Russa: O ano de 1989 ficou marcado pela queda do Muro de Berlim. Na metade daquele mesmo ano, durante uma coletiva de imprensa após as conversações em Bona com o ex-chanceler alemão Helmut Kohl, os jornalistas fizeram a seguinte pergunta: “Como está a questão do muro?”. O senhor então respondeu: “Nada é eterno [...] O muro poderá deixar de existir quando desaparecerem as premissas que o criaram. Não vejo grande problema nisso”. Qual era a expetativa do senhor naquela época?

Mikhail Gorbatchov: Certamente, nem eu nem Helmut Kohl esperávamos, no verão de 1989, que tudo acontecesse tão rápido. Não esperávamos a queda do muro em novembro. Aliás, nós dois reconhecemos isso posteriormente. Não tenho a pretensão de ser profeta.

Na história essas coisas acontecem, de ela acelerar o seu movimento. Ela pune aqueles que se atrasam. Mas pune mais aqueles que tentam ficar no seu caminho. Seria um grande erro ficar agarrado à “Cortina de Ferro”. Por isso, de nossa parte, não houve pressão sobre o governo da RDA [República Democrática Alemã, ou Alemanha Oriental]. Quando os acontecimentos começaram a se desenvolver a uma velocidade inesperada para todos, a classe governante soviética decidiu, por unanimidade, – gostaria de deixar isso bem claro – não interferir nos processos internos que estavam acontecendo na RDA. Decidimos que as nossas tropas não iriam, de maneira alguma, deixar as suas guarnições. Até hoje tenho certeza de que tomamos a decisão correta.

GR: O que permitiu, enfim, superar a divisão da Alemanha? Quem, na sua opinião, teve papel decisivo nessa reunificação pacífica?

Mikhail Gorbatchov: O papel decisivo na reunificação da Alemanha pertence aos próprios alemães. Quero dizer, não só às manifestações em massa em apoio à unidade, mas também o fato de que, nas décadas do pós-guerra, os alemães, tanto do lado oriental, como do ocidental, mostraram que haviam aprendido com o passado e que era possível confiar neles.

Quanto ao fato de a reunificação ter sido pacífica, de esse processo não ter levado a uma perigosa crise internacional, acho que o papel crucial pertenceu à União Soviética. E nós, a liderança do país, sabíamos que os russos e que todos os povos da União Soviética entendiam o desejo dos alemães de viver em um Estado único e democrático.

Quero ressaltar que, além da URSS, os outros participantes do processo de resolução definitiva da questão alemã também demonstraram muita prudência e responsabilidade. Estou me referindo aos países aliados, Estados Unidos, Grã-Bretanha e França. Agora já não é nenhum segredo que [o ex-presidente francês] François Mitterrand e [a ex-primeira-ministra do Reino Unido] Margaret Thatcher tinham fortes dúvidas quanto ao ritmo da reunificação. Afinal, a guerra deixou marcas profundas. Mas quando todos os aspectos desse processo foram resolvidos, eles assinaram os documentos que puseram fim à Guerra Fria.

GR: A solução internacional da questão alemã com a participação de grandes potências e outros Estados foi um exemplo de alta responsabilidade e competência dos políticos daquela geração. O senhor mostrou que isso é possível, se nos deixarmos guiar por aquilo que definiu como “novo pensamento”. Até que ponto os atuais governantes são capazes de resolver os problemas de hoje por meios pacíficos e como mudaram ao longo desses 25 anos as abordagens para busca de respostas aos desafios geopolíticos?  

Mikhail Gorbatchov: A reunificação da Alemanha não foi um fenômeno isolado, mas parte do processo do fim da Guerra Fria. O caminho para ela foi aberto pelas iniciativas de reestruturação (perestroika) e democratização pelas quais o nosso país passava. Sem isso, a Europa poderia ter se mantido dividida e “congelada” por décadas. E tenho certeza de que teria sido muito mais difícil sair desse impasse.

O que é o “novo pensamento”? É reconhecer que existe uma ameaça global, e, na época, era principalmente a ameaça de um conflito nuclear, que podia ser afastado apenas com esforços conjuntos. Para isso tivemos de construir um novo relacionamento, dialogar, procurar maneiras para acabar com a corrida armamentista. Reconhecer a liberdade de escolha de todos os povos e, paralelamente, levar em conta os interesses dos outros, desenvolver a cooperação entre os países, criar elos de ligação, para impedir, assim, conflitos e guerras na Europa.

Esses foram os princípios que formaram a base da Carta de Paris, em 1990 – um documento político importantíssimo, assinado por todos os países da Europa, pelos EUA e Canadá. Para dar sequência a isso, era necessário desenvolver e concretizar as suas disposições, criar estruturas que funcionassem, mecanismos de prevenção e cooperação. Por exemplo, foi proposta a criação do Conselho de Segurança da Europa. Eu não quero contrapor a geração de governantes daquela época com os que se seguiram. Mas os fatos falam por si: isso não foi feito. E o desenvolvimento europeu adquiriu um caráter unilateral, que, devo dizer, contribuiu para o enfraquecimento da Rússia na década de 1990.

 

"Não podemos ser arrastados para uma nova Guerra Fria" Foto: rexfeatures/Fotodom

Hoje temos que admitir que estamos diante de uma crise da política europeia – e mundial. Uma de suas razões, embora não seja a única, foi a relutância dos nossos parceiros ocidentais em levar em conta o ponto de vista da Rússia, os interesses legítimos de sua segurança nacional. Verbalmente aplaudiam a Rússia, especialmente nos anos Iéltsin, mas, na realidade, não levavam nada disso em conta. Refiro-me, em primeiro lugar, à expansão da Otan, aos projetos de implantação do sistema de defesa antimíssil do Ocidente em regiões importantes para a Rússia, como Iugoslávia, Iraque, Geórgia e Ucrânia. Eles disseram literalmente o seguinte: “Isso não diz respeito a vocês”. Mas a verdade é que isso resultou em um abcesso que acabou estourando.

Gostaria de aconselhar os governantes ocidentais a analisarem cuidadosamente a questão em vez de culparem a Rússia por tudo. Lembrem-se da Europa que nós conseguimos criar no início dos anos 1990 e no que, infelizmente, ela se transformou nos últimos anos.

Uma das principais questões que se coloca hoje em relação aos acontecimentos na Ucrânia é a da expansão da Otan. O senhor não sente que os parceiros ocidentais o enganaram? Na época, o secretário de Estado norte-americano James Baker declarou que não haveria “ampliação da presença jurídica e militar da Otan nem uma polegada para o leste”...

Naqueles anos, a questão da expansão da Otan não era amplamente discutida ou sequer colocada. Digo isso assumindo plena responsabilidade sobre minhas declarações. Não houve um único país do Leste Europeu levantando essa questão, inclusive após a extinção do Pacto de Varsóvia, em 1991. O mesmo ocorria com os governantes ocidentais.

A questão discutida era outra e tinha sido levantada por nós: era que, depois da reunificação da Alemanha, não se desse a deslocação das estruturas militares da Otan e a mobilização de forças armadas adicionais da Aliança para o território da então Alemanha Oriental. Foi nesse contexto que foi feita a declaração de Baker citada em sua pergunta. O mesmo foi dito por Kohl e [pelo ex- ministro das Relações Exteriores da Alemanha Ocidental, Hans-Dietrich] Genscher.

Tudo o que era possível e necessário fazer para consolidar esse compromisso político foi feito. No acordo sobre a resolução final da questão alemã lia-se que na parte oriental do país não iriam ser criadas novas estruturas militares, colocadas tropas adicionais ou implantadas armas de destruição em massa. Isso foi respeitado ao longo de todos esses anos. Por isso, não vale a pena agora retratarGorbatchov e a liderança soviética da época como ingênuos que foram enganados. 

A decisão dos EUA e de seus aliados de avançar com a Otan para o leste se formou em 1993. Desde o início, eu disse que aquilo era um grande erro. Sem dúvida, era uma violação do espírito das declarações e garantias que nos haviam sido dadas em 1990. Quanto à Alemanha, essas condições foram registradas juridicamente e continuam sendo respeitadas.

Atualmente, a relação com a Ucrânia é um assunto doloroso para os russos. De ascendência russo-ucraniana, o senhor diz, no posfácio de seu livro recém-lançado “Depois do Kremlin”, que sofre muito com o que está acontecendo no país vizinho. Que saídas o senhor vê para a crise ucraniana? 

A curto prazo já está tudo mais ou menos claro: é necessário cumprir integralmente o que foi assinado em Minsk entre 5 e 19 de setembro. 

A situação real é muito frágil. O cessar-fogo é constantemente violado. Mas, nos últimos dias, há a sensação de que “o processo arrancou”. Está sendo criada uma zona de separação das tropas, deretirada da artilharia pesada. Observadores da OSCE, inclusive russos, estão chegando. Se conseguirmos tornar isso mais sólido, será uma grande conquista – mas trata-se apenas do primeiro passo.

As relações entre a Rússia e a Ucrânia sofreram danos enormes. Não podemos permitir que isso se transforme na alienação mútua dos nossos povos. E uma grande responsabilidade recai sobre os presidentes Vladímir Pútin e Petrô Porochenko: eles devem dar o exemplo. 

É necessário reduzir as animosidades. Deixemos para descobrir depois quem está certo ou errado. O importante agora é estabelecer diálogo sobre questões específicas. Normalizar a vida nas áreas mais afetadas, deixando de lado, por enquanto, a questão do estatuto e etc. Aqui todos têm que ajudar: a Ucrânia, a Rússia e o Ocidente, separadamente e em conjunto.

Os ucranianos têm muito o que fazer para reconciliar o país, para que todos se sintam cidadãos, com seus direitos e interesses assegurados. A questão não está tanto nas garantias constitucionais e legais, mas na realidade da vida cotidiana. 

Quanto às relações da Rússia com os países da Europa Ocidental e com os Estados Unidos, a primeira coisa a fazer é sair da lógica de sanções e acusações mútuas. Na minha opinião, a Rússia já deu esse passo ao se recusar a responder à última rodada de sanções do Ocidente. 

A palavra cabe agora aos parceiros ocidentais. Acho que eles deveriam, antes de mais nada, eliminar as chamadas sanções pessoais. Como é possível negociar se você está punindo as pessoas que tomam decisões que afetam a política? É preciso estimular a conversa entre as partes.

A falta de conexão entre a Rússia e a UE prejudica o mundo inteiro, e enfraquece a Europa em uma época em que a concorrência global está crescendo, quando outros “centros de gravitação” da política mundial estão se fortalecendo.

Não podemos cruzar os braços. Não podemos ser arrastados para uma nova Guerra Fria. As ameaças comuns à nossa segurança não desapareceram. Nos últimos tempos surgiram novos movimentos extremistas bastante perigosos, em particular, o chamado Estado Islâmico. Os problemas ambientais, a pobreza e as epidemias também estão se agravando. Face a novos desafios comuns, devemosfalar a mesma língua. Não será fácil, mas não há outro caminho a seguir.

A Ucrânia planeja construir um muro na fronteira com a Rússia. Qual sua opinião sobre isso? 

Minha resposta é muito simples: sou contra qualquer muro. Espero que aqueles que estão por trás dessa construção parem para pensar bem. 

Acho que, apesar de tudo, nossos povos não ficarão brigados um com o outro. Somos muito próximos em vários aspectos. Não existem problemas ou diferenças insuperáveis entre nós. 

Mas muito dependerá da “intellinguêntsia” [como é chamada a classe intelectual no país] e da mídia. Se ambos se esforçarem para separar, inventar e exacerbar os conflitos e as disputas, então estaremos mal. Conhecemos exemplos disso. Por isso, apelo à “intellinguêntsia” para que aja de forma responsável.

 

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