Envio de tropas russas à Ucrânia não resolverá problemas da região, dizem especialistas

Se as ações com relação à Crimeia foram compreendias de forma positiva pela maior parte da comunidade internacional, a intervenção militar direta na Ucrânia “irá privar a Rússia do apoio dos centros de poder periféricos que ainda simpatizam com a causa ucraniana”, explica especialista Foto: Reuters

Se as ações com relação à Crimeia foram compreendias de forma positiva pela maior parte da comunidade internacional, a intervenção militar direta na Ucrânia “irá privar a Rússia do apoio dos centros de poder periféricos que ainda simpatizam com a causa ucraniana”, explica especialista Foto: Reuters

Ação militar teria altos custos políticos e econômicos para Moscou e traria poucos benefícios.

Apesar das acusações constantes da Ucrânia de que a Rússia vem concentrando tropas na fronteira entre os dois países e está prestes a invadir a região de Donbass em uma ação em prol dos separatistas, especialistas russos concordam que uma intervenção militar direta neste momento é um empreendimento grande e custoso demais em termos políticos e econômicos para o Kremlin, argumentando que há outras maneiras de defender os interesses russos na região.

O presidente russo, Vladímir Pútin, não tem demonstrado pressa em enviar tropas para a Ucrânia porque sabe dos enormes custos que tal ação envolveria. Apesar disso, Pútin está sob enorme pressão da sociedade russa, que exige o resgate de cidadãos russos no sudeste da Ucrânia e a punição das autoridades do país vizinho pelas políticas anti-Rússia.

“Introduzir tropas regulares na Ucrânia é improvável, tendo em vista as gravíssimas consequências econômicas para a Rússia”, disse o vice-diretor do Centro de Pesquisas Europeias e Internacionais da Escola Superior de Economia de Moscou e correspondente da Gazeta Russa, Dmitri Suslov. “Haverá novas sanções e o trânsito de gás para a Europa será bloqueado”, acrescentou.

As consequências políticas seriam, no mínimo, mais desastrosas. Se as ações com relação à Crimeia foram compreendias de forma positiva pela maior parte da comunidade internacional, a intervenção militar direta na Ucrânia “irá privar a Rússia do apoio dos centros de poder periféricos que ainda simpatizam com a causa ucraniana”, explica Suslov. “Há até mesmo o sério risco do distanciamento da China, e a Rússia não será capaz de compensar a escalada de sanções ocidentais com o estabelecimento de novas relações na Ásia e na América Latina”, continuou.

 

 Além disso, uma intervenção militar elimina completamente qualquer chance de discutir a integridade territorial da Ucrânia, algo que poderá gerar sérias complicações para Moscou no futuro. “O que fazer com o Donbass se eclodir uma guerra com a Ucrânia? A Rússia irá também anexar a região ao seu território, já que despendeu uma enorme quantidade de esforços e recursos?”, questiona o professor adjunto da Universidade Estatal Russa de Ciências Humanas e especialista em espaço pós-soviético, Serguêi Markedonov. “Se olharmos racionalmente, o único propósito de tal operação militar seria a satisfação da opinião pública. Mas é pouco provável que isso aconteça, mesmo em caso de protestos na praça Vermelha exigindo de Pútin uma posição mais enérgica, semelhante a que tomou em relação à Crimeia.”

Percebendo a ineficácia de uma operação militar, a Rússia agora deve focar em objetivos diferentes em relação à Ucrânia. Entre eles, preservar a integridade territorial e as fronteiras após a anexação da Crimeia, além de concentrar esforços na federalização do Estado ucraniano e proteger juridicamente os interesses dos povos russos nas diversas regiões do país. Há também a necessidade iminente de forçar um diálogo entre os representantes de Donbass, da Ucrânia e de potências estrangeiras. “A Rússia deve ser o melhor intermediário do diálogo entre Kiev e o Ocidente a respeito do futuro do país”, concluiu Suslov.

 

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