A vida política de Eduard Chevardnadze

A atividade de Chevardnadze como primeiro-secretário do Partido Comunista da Geórgia por mais de dez anos foi de tal modo notória que uma promoção com respectiva mudança para Moscou era apenas uma questão de tempo Foto: RIA Nóvosti

A atividade de Chevardnadze como primeiro-secretário do Partido Comunista da Geórgia por mais de dez anos foi de tal modo notória que uma promoção com respectiva mudança para Moscou era apenas uma questão de tempo Foto: RIA Nóvosti

A Gazeta Russa traz uma análise dos métodos políticos do líder georgiano.

Eduard Chevardnadze começou a sua carreira política no período soviético e participou de eventos-chave como a queda do Muro de Berlim e o desarmamento da URSS. Restaurou a Geórgia pós-soviética. Em 7 de julho, o ambicioso político faleceu aos 86 anos. De acordo com os mais próximos, estava gravemente doente.

"A nossa reunião aconteceu em Tbilisi, após a eleição presidencial no país. Eduard Chevardnadze voltou para uma Geórgia devastada em março de 1992. Era claro que ele havia ganho as eleições presidenciais com uma margem de vitória mais do que confiante. Por isso concordou em ceder a entrevista. O tempo era pouco naquele dia em que ele se preparava para partir para Israel, para o funeral do primeiro-ministro assassinado Yitzhak Rabin”, relembra o jornalista e cientista político de Berlim Ashot Manucharian.

“Shevardnadze falava baixinho, com um pronunciado sotaque georgiano. Mas falava com um russo simplesmente irrepreensível, exprimindo-se muito bem e transmitindo com exatidão os seus pensamentos ao interlocutor. Nenhum dos políticos russos famosos a quem eu tivesse entrevistado antes ou depois daquele dia podia se gabar de tal qualidade de domínio da língua materna."

Início soviético

A vida política de Eduard Chevardnadze pode ser dividida em três etapas: a Geórgia soviética, Moscou e a Geórgia pós-soviética. Em cada uma delas, ele se mostrou um líder extremamente carismático e um político visionário, capaz de manobras extraordinárias, fortes e precisas.

A sua chegada à política profissional se deu, provavelmente, em 1965, quando ele assumiu o Ministério do Interior da Geórgia, tendo chegado lá através do Komsomol e subido na hierarquia do referido ministério. Chevardnadze governou a Geórgia soviética com mão forte. Se conta que em uma das primeiras reuniões ele pediu aos presentes que levantassem os braços e, àqueles que exibiam relógios caros ou joias, exigiu explicações sobre a origem desses bens. Com ele no poder se deu uma limpeza sem precedentes da equipe governamental da Geórgia.

A atividade de Chevardnadze como primeiro-secretário do Partido Comunista da Geórgia por mais de dez anos foi de tal modo notória que uma promoção com respectiva mudança para Moscou era apenas uma questão de tempo. E essa mudança aconteceu em 1985. O trabalho de cinco anos de Eduard Amvrosievitch (Chevardnadze) como ministro das Relações Exteriores da URSS é bem conhecido. Durante esse período se deram acontecimentos que foram marcos fundamentais da história: a Perestroika, o desarmamento, a unificação da Alemanha, a aproximação aos Estados Unidos. Em todos esses processos, Chevi –como no Ocidente gostavam de chamar o então ministro soviético das Relações Exteriores– estava na vanguarda. E, por outro lado, ele conseguia fazer contatos pessoais e ganhar amigos verdadeiros, que mais tarde viriam a desempenhar um papel muito importante: James Baker, Hans-Dietrich Genscher, Helmut Kohl, entre outros, ajudaram Chevardnadze –depois de este regressar para uma Geórgia em completo declínio após o colapso da União Soviética– a evitar que a jovem república independente entrasse em colapso total.

Recuperação da Geórgia

A situação era terrível. A Geórgia, que havia perdido a Ossétia do Sul, sobrevivido a um golpe de Estado e à deposição do presidente Zviad Gamsakhurdia, se encontrava à beira de uma verdadeira guerra e estava à mercê de grupos armados. Tiveram então início processos separatistas. Falar em uma economia daquele período não faz sequer sentido. Vivia-se uma gravíssima crise energética. Paralisia completa de todas as instituições do Estado. Criminalidade desenfreada sem limites. O país estava literalmente no limiar da fome. Todos os que puderam fugir, fugiram. Pairava no ar o conflito com a Abecásia.

O jornalista Tengiz Ablotiia, natural da Abecásia, ao contrário de muitos representantes da sociedade georgiana, não se sente inclinado a culpar o segundo presidente pela perda da Abecásia:

"A guerra estava predeterminada –não pode um fogão ter dois cozinheiros, georgianos e abecásios."

E talvez seja mérito de Chevardnadze o fato de, depois da guerra sangrenta entre Tbilisi e Sukhumi, ter se iniciado um processo de conversações que permitiu a realização de programas humanitários conjuntos.

Como Eduard Chevardnadze conseguiu resolver parte dos problemas referidos acima, e minimizar outros, parece ter sido verdadeira obra de magia. O país começou a receber a visita de políticos do mais alto escalão, o que veio consolidar definitivamente o reconhecimento da Geórgia como Estado soberano com um papel geopolítico crucial em uma região complexa.

Na sua primeira presidência, Eduard Chevardnadze, com a ajuda de um velho amigo –o chefe de Estado do Azerbaijão, Heidar Aliiev– conseguiu um feito de grande importância para a Geórgia na percepção do Ocidente: o país se tornou território de trânsito para a energia oriunda das fontes energéticas azeris. Então, a Geórgia começou a se redirecionar para o Ocidente.

Com a Rússia, Chevardnadze queria encontrar uma linguagem comum. E, ocasionalmente, encontrava. Mas eram muitas as contradições acumuladas. Como ele próprio admitiu em uma entrevista, "parece que em Moscou me consideram culpado pelo colapso da URSS, a queda do Muro de Berlim e as concessões no Mar de Barents".

Mas o seu sucesso, associado principalmente à política externa na melhoria da imagem da Geórgia, foi nublado pelas falhas na política interna. Chevardnadze foi um homem do seu tempo e, paralelamente, seu refém. Apesar do talento, Chevi falava uma língua diferente da nova geração. As pessoas queriam mais.

A sua visão foi suficiente para levar para o poder uma nova geração de políticos: Zurab Zhvani, Mikhail Saakashvili e seus colaboradores. Mas o desejo de rejuvenescer a liderança do país terminou em colapso: os chamados "jovens reformadores" não se deram bem com a equipe mais antiga e passaram para a oposição. Foi provavelmente nesse momento que começou o declínio do Raposa Branca –como foi apelidado Shevardnadze ainda no período em que era ministro do Interior da República Socialista da Geórgia.

Os anos tiveram o seu peso. O aperto da sua mão perdeu um pouco da força de outrora. Começou cada vez mais a substituir as reformas por manobras diplomáticas. Tudo isso, em 2003, resultou na Revolução Rosa, organizada por seus próprios partidários.

Em novembro de 2003, Shevardnadze renunciou voluntariamente aos poderes presidenciais, não querendo confronto na sociedade. Ele recusou a tentação de emigrar para Moscou, se retirou para a residência cedida pelo governo e não ficou fazendo planos revanchistas. A sua participação na vida política da Geórgia ficou reduzida a algumas entrevistas e a uma dúzia de apontamentos críticos dirigidos a Mikheil Saakashvili nos dois últimos anos da sua presidência.

Será necessário algum tempo para a sua atividade política ser melhor avaliada. Mas, com todas as suas contradições, dificilmente alguém irá contestar o grandioso alcance da personalidade de Eduard Shevardnadze.

 

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