Kremlin pode revidar "operação antiterrorista" na Ucrânia

Acontecimentos em Odessa e no sudeste ucraniano criaram provocaram onda emocional na população russa Foto: AP

Acontecimentos em Odessa e no sudeste ucraniano criaram provocaram onda emocional na população russa Foto: AP

Especialistas russos acreditam que o governo russo não deve ficar inerte frente aos últimos acontecimentos em Odessa e no sudeste da Ucrânia. Entre possíveis reações, observadores elencam desde diálogo diplomático até uso da força.

As tropas ucranianas continuam a operação antiterrorista, que começou no último dia 2, na cidade de Slaviansk e outros territórios no sudeste do país. “A polícia de Odessa agiu vergonhosamente, e toda a cúpula da instituição será afastada do cargo. Iremos abrir investigações sobre as recentes atividades”, anunciou o ministro do Interior ucraniano, Arsen Avakov, em seu perfil no Facebook. Também está sendo criado um novo batalhão de defesa territorial, com o objetivo de “restaurar a lei e a ordem na região”. 

Em nota oficial, o Ministério dos Negócios Estrangeiros russo condenou as ações de Kiev, que teriam levado à tragédia em Odessa. “Juntamente com a operação punitiva na cidade de Slaviansk em curso promovida pelas autoridades de Kiev, a tragédia em Odessa foi mais uma confirmação de uma intimidação criminosa que não tem nada a ver com as obrigações assumidas pela Ucrânia no Acordo de 21 de fevereiro e na Declaração de Genebra”, diz o documento.

No entanto, a não reação da Rússia perante os eventos dos últimos dias ainda é incerta. “Os políticos russos poderão estabelecer um diálogo com as autoridades ucranianas sob duas condições: o término da chamada ‘Operação Antiterrorista’, que promove a violência contra civis, e a investigação completa dos eventos em Odessa”, afirma o membro do Conselho Supremo do partido governista Rússia Unida, Dmítri Orlov.

A ideia é que a investigação dos fatos em Odessa não seja conduzida somente pelas autoridades ucranianas, mas envolva também observadores independentes, como representantes da UE, da OSCE e do Comitê Investigativo do Ministério Público russo.

“Há muitas incertezas sobre os episódios. Por exemplo, não há evidências de que todos os tumultos foram instigados pelas autoridades ucranianas. Ou seja, sem investigações, não avançaremos. De qualquer forma, a intervenção militar russa na Ucrânia é um passo muito arriscado para nosso país”, completa Orlov.

Futuro instável

Os acontecimentos em Odessa e no sudeste ucraniano criaram, na mente da população russa, uma onda emocional de que a solução militar é considerada “totalmente aceitável”, segundo o presidente da Fundação Política de São Petesburgo, Mikhail Vinogradov . Mas o pesquisador alerta que a situação presente é diametralmente oposta daquela que se formou na Crimeia.

“Os eventos em Odessa mostraram que, sem derramamento de sangue, a intervenção russa é irrealizável. Também seria difícil justificar a intervenção militar em termos de Direito Internacional”, adianta Vinogradov, ao comentar que o Kremlin deve considerar quais objetivos buscará em sua resposta à operação antiterrorista. “Se falamos de proteção da população russa, vale lembrar que não ultrapassa 25% nas áreas onde ocorreram os eventos trágicos. Além disso, a experiência russa em missões de paz ainda é pequena.”

Embora uma resposta aos eventos se mostre cada vez provável, os observadores acreditam que o caminho a ser tomado só ficará claro nos próximos dias. “O panorama central da questão ucraniana pode ser dividido em dois períodos: antes e depois de Odessa. Se antes do incêndio os confrontos não eram tão violentos, agora, após a morte de cidadãos de Odessa e Kramatorsk, vivemos sob a ameaça de uma verdadeira guerra civil”, expõe o diretor de Estudos Políticos da Universidade de Administração Pública da Rússia, Pável Sálin.

“Se os ucranianos continuarem o curso de ação tomado no início de maio, com a supressão violenta dos adversários, a Rússia poderá aplicar uma variedade de meios, incluindo o mais extremo – a intervenção militar. Se as autoridades ucranianas tomarem outra direção, o lado russo permanecerá pacífico”, continua o cientista político. Entre os dias 9 e 11 de maio, as regiões no sudeste da Ucrânia realizarão referendos sobre o status do país.

 

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