“Precisamos falar a mesma língua”, disse Pútin sobre os EUA

De acordo com o presidente, Moscou quer recuperar a confiança na relação com Washington Foto: Reuters

De acordo com o presidente, Moscou quer recuperar a confiança na relação com Washington Foto: Reuters

Durante a entrevista em rede nacional que durou quase quatro horas, o presidente Vladímir Pútin respondeu a mais de 70 perguntas, com especial atenção para crise ucraniana, China e relações com os americanos.

Ucrânia e Crimeia

Na opinião de Pútin, o que aconteceu na Ucrânia foi um golpe inconstitucional, no qual a oposição tomou o poder recorrendo a armas. O líder russo rejeitou categoricamente a participação de tropas russas nos acontecimentos no leste do país.

Segundo ele, é importante começar imediatamente o diálogo entre as autoridades centrais ucranianas e das regiões do país. Pútin também fez questão de ressaltar que o Kremlin “sempre esteve lado a lado com a Ucrânia” e afirmou que a ajuda financeira ao país já atingiu bilhões de dólares.   

Em relação aos eventos na Crimeia e em Sevastopol, o presidente garantiu que o resultado do referendo foi decisivo na península. “A ameaça contra a população de língua russa foram concretas e tangíveis. Isso levou as pessoas a pensar sobre o futuro da Crimeia e se voltar à Rússia para pedir ajuda”, disse.

Pútin anunciou que uma parte significativa da frota do Mar Negro será transferida para Sevastopol e prometeu que uma parcela expressiva da construção e reparação naval russa ficará agora nos estaleiros da Crimeia.

Por fim, o chefe de Estado russo reiterou a ilegitimidade do atual poder na Ucrânia, mas não se recusa a dialogar. “Estamos dispostos a trabalhar com todas as partes que vão compor as eleições na Ucrânia.”

Uso de força

O presidente declarou não ter expectativa de usar o seu direito legítimo de enviar tropas ao país vizinho, concedido pelo parlamento russo. “Realmente espero não precisar exercer esse direito, e que os meios políticos e diplomáticos sejam capazes de resolver as questões delicadas, ou melhor, extremamente delicadas da Ucrânia”, afirmou.

Otan e China

Pútin acredita que o sistema internacional pautado em blocos tornou-se obsoleto. A Otan, por exemplo, foi criada em oposição à União Soviética. Por mais que a URSS tenha deixado de existir, a Aliança permaneceu. Por isso, questionou o objetivo das ações atuais da Otan e o porquê da Aliança expandir sua presença junto às fronteiras russas.

“A Rússia não coloca em questão a criação de uma aliança político-militar com a China. Por outro lado, a cooperação e confiança com a China estão em um nível sem precedentes, assim como relações militares”, declarou. “As relações Rússia-China serão um fator importante na política mundial e irão influenciar significativamente a arquitetura moderna das relações internacionais”, disse o presidente.

Alasca

Após a discussão sobre a reanexação da Crimeia à Rússia, algumas pessoas fizeram perguntas sobre outra região que faz parte da história do país: Alasca. “Por que vocês querem o Alasca?”, rebateu de forma bem-humorada, acrescentando que o Alasca foi vendido no século 19. “A Rússia é um país do norte, 70% do seu território pertence ao norte e ao extremo norte do planeta. Com o orçamento atual, é difícil manter essas regiões”, explicou.

Gás e petróleo

Pútin tem esperança de chegar a uma solução positiva sobre o fornecimento de gás através da Ucrânia. O líder russo está convencido de que o fornecimento de gás russo não pode ser interrompido: 30-35% do fornecimento de gás da Europa provém da Rússia; apenas na Finlândia, a participação do gás russo é cerca de 90% e em alguns outros países, 60-70%. O Kremlin dará mais um mês para a Ucrânia liquidar suas dívidas relacionadas ao gás e pediu que o Ocidente se junte ao processo de regulamentação.

Relações com os EUA

De acordo com o presidente, Moscou quer recuperar a confiança na relação com Washington e pediu que os EUA desvencilhem a política mundial de mentiras e discursos ambíguos. "Precisamos levar em conta os interesses do outro, falar a mesma língua, desvencilhar a política internacional de discursos ambíguos e mentiras, bem como prestar mais atenção e dar mais importância ao direito internacional em vez da política de força”, disse.

Pergunta de Snowden

O ex-agente do serviço de inteligência americana, Edward Snowden, também fez uma pergunta por vídeo ao presidente. “Os americanos estão interessados em saber se a Federação da Rússia realizará algum tipo de vigilância?”, questionou Snowden. Pútin respondeu que a vigilância em massa da população, como feita nos EUA, é impossível na Rússia. Além disso, afirmou que a atividade dos agentes especiais e dos serviços de inteligência, bem como o uso de escutas telefônicas e vigilância da internet, é estritamente regulada por lei e seu uso depende de decisão judicial. “Tal escala, uma escala descontrolada, nós certamente não permitiremos. Eu espero realmente nunca permitir”, arrematou.

 

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