Envio de tropas à Ucrânia: problema ou solução?

Contingente adicional de tropas pode virar alvo de todos os ucranianos Foto: RIA Nóvosti

Contingente adicional de tropas pode virar alvo de todos os ucranianos Foto: RIA Nóvosti

O que fará Vladímir Pútin com o contingente limitado de tropas no território da Ucrânia? Isso irá contribuir para a estabilização da situação no país vizinho? Qual será a reação da comunidade internacional em relação à Rússia? Quatro cientistas políticos sugerem possíveis respostas a essas e outras perguntas.

“Pútin tem o direito de estar furioso, mas não levar uma década pagando as consequências disso.” 

Gleb Pavlovski, presidente da Fundação Política Eficaz

Se a intenção de Pútin é um gesto nobre, então ele não irá enviar as tropas. E mesmo que tenha decidido avançar com o Exército, ele irá adiar esse passo até surgir um argumento forte. Uma vez que a situação na Ucrânia muda a cada hora, qualquer briga de rua pode ser vista como uma ameaça para a Frota do Mar Negro.

Mas aí é preciso entender até que ponto a entrada do contingente russo seria um passo perigoso e irreversível. Uma vez no território da Ucrânia, onde hoje não existe nenhum controle governamental, as tropas russas serão o saco de pancada para diferentes forças. Os indivíduos armados e não identificados das forças informais não arriscam nada. Já a Rússia está em uma posição vulnerável.

O nosso desafio é isolar o problema. Temos o direito de defender interesses na Crimeia, bem como garantias do pagamento do empréstimo no valor de US$ 2 bilhões. Mas eu não vejo sentido em introduzir um contingente adicional de tropas, que vai se transformar em alvo de todos os ucranianos.

Em nível internacional, o envio de tropas seria considerado uma agressão, um declínio catastrófico do prestígio da Rússia no mundo. Nos aliados da Comunidade dos Estados Independentes, esse passo irá provocar desconfiança. Obama vai ficar feliz e nós perdemos a Ucrânia. Mesmo dentro da Rússia, isso levará ao rompimento do poder com a classe média, que não quer pagar uma guerra nem ir combater nela. Pútin tem o direito de estar furioso, mas não levar uma década pagando as consequências disso.

“O chefe de Estado terá que focar em valores e interesses nacionais”

Aleksêi Tchesnakov, presidente do Centro da Conjuntura Política

A decisão de Pútin sobre a hora e o local da entrada de um contingente limitado de tropas no território da Ucrânia vai depender de como a situação se desenrolar. Se os radicais realizarem uma mobilização universal e continuarem a ameaçar os civis, a decisão pode ser tomada rapidamente. Mas se os radicais reduzirem o grau de beligerância, talvez não seja necessário levar tropas para lá.

É claro que a chegada do contingente militar russo ao território da Ucrânia pode ser um sinal para ativação ainda maior dos radicais, especialmente no oeste e centro do país. Mas é improvável que esse fator venha a ser o decisivo na tomada de decisão do residente.

Convém ter em mente que grande parte da comunidade internacional irá reagir extremamente mal à entrada de tropas russas. Porém, nesse caso, o chefe de Estado terá que focar em valores e interesses nacionais.

“Não temos a intenção de ser um observador passivo”

Konstantin Kalatchev, chefe do Grupo de Especialistas Políticos

Essa é uma guerra de nervos. No futuro, muito vai depender da atual liderança da Ucrânia e se eles entendem a mensagem da Rússia: não temos a intenção de ser um observador passivo, mas isso não significa que a liderança russa esteja pronta para cruzar a linha vermelha. A decisão do Conselho da Federação deve provavelmente ser visto mais como um incentivo para sérias negociações.

Se mesmo assim as tropas avançarem, então tudo vai depender da força. Se estivermos falando do controle de instalações infra-estruturais e da garantia da ordem, isso é uma coisa. Mas se houver vítimas como resultado de provocações, aí a história é outra. Na Crimeia, as tropas russas podem ser bem recebidas, porém, em outras regiões a situação é ambígua.

Quanto às implicações internacionais para a Rússia em caso da entrada de tropas na Ucrânia, o vencedor será aquele com os nervos mais fortes. É claro que a comunidade internacional vão dispensar duras críticas, mas quem sabe não falaremos no futuro de uma operação para manutenção da paz internacional na Ucrânia.

“Lidamos com cenário planejado para levar Timochenko ao poder”

Stanislav Belkovski, cientista político

Acredito que estamos lidando com um cenário planejado para levar ao poder Iúlia Timochenko, que tem uma relação muito boa com Pútin. Timochenko quer ser presidente da Ucrânia, mas não foi popular na Maidan. Imagine que Timochenko assuma agora o centro do palco e resolva a situação com a Rússia.

 

Publicado originalmente pelo portal Gazeta.ru

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