Situação da Rússia é diferente do que acredita a comunidade internacional, diz Medvedev

"Apesar de as relações homossexuais terem sido expressamente proibidas em muitos países, no território russo elas não são consideradas um crime" Foto: Reuters

"Apesar de as relações homossexuais terem sido expressamente proibidas em muitos países, no território russo elas não são consideradas um crime" Foto: Reuters

Em entrevista à rede CNN, Dmítri Medvedev falou sobre a situação política na Rússia, a proteção dos direitos humanos e sobre a posição das minorias sexuais no país.

CNN: Numa das entrevistas anteriores, o senhor disse que nenhum estado que não se baseia nos princípios democráticos havia conseguido prosperar devido a um simples fato: a liberdade é melhor que a sua ausência. Essa opinião sofreu alguma mudança?

Dmítri Medvedev: Tenho impressão de que a atual situação no país e a sua interpretação feita pela comunidade internacional não tenham nada a ver uma com a outra, o que me deixa um pouco preocupado. No entanto, eu concordo que o pleno desenvolvimento da Rússia dentro da comunidade dos países democráticos modernos seria impossível sem a compreensão mútua.

Eu não nego que anteriormente dizia que a liberdade era melhor que a sua ausência, e desde então as minhas crenças não mudaram. Porém, eu não posso concordar com as afirmações referentes à atmosfera desfavorável e à violação dos direitos de cidadão no meu país...

CNN: Estou me referindo aos direitos humanos, à democracia, à liberdade de expressar as próprias crenças políticas que compõem os direitos básicos garantidos por qualquer regime democrático

DM: Sim, estou falando do mesmo assunto e acredito que a opinião internacional não corresponde à situação real no país.

CNN: Mas na Rússia não existe nenhum partido da oposição!

DM: Na verdade, o parlamento russo compõe-se de quatro partidos, apenas um dos quais, a Rússia Unida, que está sob a minha liderança, associa-se com o governo atual. É algo natural, pois os seus representantes ocupam a maioria dos assentos parlamentares.

Outras três forças políticas possuem cerca da metade das cadeiras e não têm nenhuma ligação com o partido administrado por mim, que anteriormente foi dirigido pelo presidente Vladímir Pútin. Vale lembrar a minha própria iniciativa na época da minha presidência, que resultou em aprovação de uma lei que facilita o registro de novos partidos. Após a sua entrada em vigor, o número de grupos políticos na Rússia subiu para quase cem. Eles possuem vários tamanhos e sua existência confirma a presença de uma oposição no país.

CNN: No entanto, muitos representantes destas forças, além dos jornalistas que se manifestaram contra o governo atual, estão presos.

DM: Eu respeito os jornalistas, assim como respeito qualquer outro cidadão, mas, antes de tudo, eles também podem errar. Por outro lado, a imprensa tem a tendência de exagerar certas situações. Os veículos que falam da inexistência das forças políticas contrárias ao governo não podem ser levados a sério. A Rússia tem uma variedade política muito grande, e, eu repito, existe um grande número de partidos que se encontram em várias etapas da sua carreira política: os que já conquistaram os seus lugares no parlamento e os que ainda não conseguiram fazê-lo. E são eles que criam a vida política agitada, complexa e rica no meu país. Sempre há pessoas que não param de culpar o governo pela sua incapacidade de alcançar os seus objetivos políticos, viver bem, trabalhar ou entrar para o parlamento, entre outros fracassos... No entanto, esta é uma atitude comum de alguns líderes, grupos políticos marginais ou seitas até em países diferentes da Rússia.

Quanto às liberdades civis e à legislação do país, todos têm direito de avaliá-las, inclusive os jornalistas e analistas russos e estrangeiros. No entanto, as normas legislatórias que regulam os principais direitos e liberdades dos cidadãos russos não mudaram desde a aprovação da Constituição em 1993.

Você mencionou uma série de projetos de leis que causaram muitas repercussões...

CNN: O senhor se refere à lei que proíbe a propaganda gay?

DM: Esta lei é um dos exemplos. Todos os debates em relação ao projeto baseiam-se nas opiniões pessoais e não correspondem à situação real no país. Não é difícil de perceber que todos os comentários negativos, pelo menos, 95% deles ou mais, vêm de fora, enquanto na Rússia ninguém tem interesse em discutir sobre este assunto.

CNN: Muitos cidadãos russos dizem estar com medo, enquanto outros, tais como os homossexuais, deixam o país para sempre, temendo pela sua integridade física e o seu futuro. O que o senhor poderia dizer para acalmá-los?

DM: Caso você esteja se referindo aos supostos problemas causados pela lei que proíbe a propaganda dos valores, digamos assim, não tradicionais, acredito que a maior parte da população russa não se preocupa com isso. Por outro lado, até agora eu não conheço nenhum caso de aplicação prática desta lei. Há muitas discussões, mas, de fato, a lei existe apenas no papel. Além disso, apesar de as relações homossexuais terem sido expressamente proibidas em muitos países, no território russo elas não são consideradas um crime. Portanto, em minha opinião, a maior parte dos comentários negativos não corresponde à situação real no país, onde as minorias sexuais possuem os mesmos direitos que os adeptos dos valores tradicionais.

 

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