“Paraísos fiscais” e “valores tradicionais” encabeçam discurso anual de Pútin

De acordo o presidente, o desenvolvimento de novos sistemas de armamento é motivo de preocupação Foto: RIA Nóvosti

De acordo o presidente, o desenvolvimento de novos sistemas de armamento é motivo de preocupação Foto: RIA Nóvosti

Em seu discurso anual perante a Assembleia Federal na última quinta-feira (12), o presidente Vladímir Pútin fez um apanhado geral do ano e apontou os desafios para o futuro. Entre os principais pontos abordados, anunciou a orientação de retirada das empresas russas de paraísos fiscais e alertou que a implantação de sistema de defesa antimíssil na Europa pode anular acordo com EUA sobre a redução de arsenais nucleares.

Logo no início do discurso, Pútin lamentou as falhas no cumprimento de uma série de decretos na esfera social assinados no dia em que assumiu o cargo, em 7 de maio de 2012. “Passou ano e meio desde a aprovação dos decretos. E sabem o que eu noto? Ou se fazem as coisas de modo a provocar uma reação negativa na sociedade, ou não se faz absolutamente nada”, declarou.

Pela primeira vez desde que o ritmo de crescimento do PIB começou a desacelerar, o presidente reconheceu que os problemas econômicos do país se explicam mais por fatores internos do que externos. Além do tradicional aumento da produtividade do trabalho e introdução de novas tecnologias, uma das tarefas centrais da política econômica apontadas por Pútin será a retirada de empresas dos paraísos fiscais.

“As receitas de empresas com sede registrada em uma jurisdição offshore e com proprietários russos como beneficiários finais devem ser tributadas pelas nossas leis fiscais, e o pagamento de impostos deve ser feito à Receita Federal da Rússia. É preciso criar um sistema que permita ter acesso a esse dinheiro”, disse o presidente. Ele também defende que as empresas registradas em uma jurisdição estrangeira sejam privadas do direito de apoio estatal, bem como de contratos com o Estado.

Apesar de considerar a iniciativa do presidente sensata, o pesquisador sênior da Escola Superior de Economia, Andrêi Tcherniávski, não entende o mecanismo de sua implementação. “Não queremos aumentar os impostos na Rússia, mas queremos, pelo menos, colocar as coisas em ordem para conseguir aumentar a receita fiscal de empresas com participação estatal e daquelas que recebem garantias do governo”, explica.

Pútin pediu ainda que os investidores façam uma “virada ao Oceano Pacífico”, e propôs a criação de redes com condições especiais para a organização de setores não extrativistas no Extremo Oriente e Sibéria Oriental.

Linguajar arcaico

O controle da imigração também esteve na pauta da reunião. Pútin sugeriu a criação de um decreto que regule a contratação de trabalhadores estrangeiros por pessoas jurídicas e empresários individuais, com base em uma licença válida apenas na região onde foi adquirida e cujo preço seria determinado pelos órgãos federais.

A chamada “tolerância assexuada e infértil”, bem como a “erosão dos valores tradicionais” ganharam destaque no discurso do chefe de Estado, que caracterizou a desagregação dos valores tradicionais como um “processo antidemocrático”.

Após o discurso, o presidente do conselho do Centro de Tecnologias Políticas, Boris Makarenko, admitiu que a exploração do assunto “valores tradicionais” o deixou irritado. “Isso é descrito em uma língua que já não é usada no Ocidente há várias décadas”, diz o cientista político.

Futuro incerto

“Nos últimos anos, assistimos a tentativas de impor aos países um modelo de desenvolvimento supostamente mais progressista e que, na realidade, se transformaram em barbárie e banhos de sangue”, disse Pútin sobre os mais recentes acontecimentos no Oriente Médio e Norte de África.

“Na situação síria, a comunidade internacional teve que fazer uma escolha decisiva: deslizar para um enfraquecimento ainda maior das bases da ordem mundial e para o triunfo da lei da força ou tomar coletivamente decisões responsáveis”, acrescentou Pútin.

Aproveitando o tema, o presidente abordou o programa nuclear iraniano, afirmando que o Irã tem o direito inalienável de desenvolver energia nuclear, desde que não comprometa a segurança dos demais países. “A propósito, o programa nuclear iraniano foi o principal argumento a favor da implementação de sistemas de defesa antimísseis, mas agora que o problema está desaparecendo, o sistema de defesa antimíssil dos EUA se mantém”, criticou.

De acordo o presidente, o desenvolvimento de novos sistemas de armamento é também motivo de preocupação. “O aumento do potencial de sistemas estratégicos de alta precisão em países estrangeiros, juntamente com o aumento das capacidades dos sistemas de defesa antimísseis, pode mandar por terra todos os acordos prévios em matéria de redução de armas nucleares estratégicas”, declarou o líder russo.

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