Eleições de Moscou se transformam em choque de culturas políticas

Prefeito interino Serguêi Sobiânin (centro) anunciou eleições antecipadas em junho passado Foto: Photoshot / Vostock Photo

Prefeito interino Serguêi Sobiânin (centro) anunciou eleições antecipadas em junho passado Foto: Photoshot / Vostock Photo

Aliado do Kremlin, Sobiânin enfrenta oposicionista condenado Naválni, após mudança de regras para afastar o magnata Prôkhorov da corrida.

A disputa política pelo controle da maior cidade da Europa se tornou uma luta direta entre o prefeito interino e candidato apoiado pelo Kremlin, Serguêi Sobiânin, e o oposicionista Aleksêi Naválni. A eleição para prefeito de Moscou, que acontecerá em 8 de setembro, será a primeira dos últimos 10 anos, depois de as eleições municipais serem suspensas em 2004, em favor da disputa presidencial.

O processo foi restaurado no ano passado, depois de milhares de manifestantes antigoverno tomarem as ruas de Moscou e outras cidades para exigir eleições justas diante das denúncias de fraude nas eleições parlamentares de 2011.

Sobiânin foi nomeado prefeito em 2010, no lugar de seu antecessor de longa data Iúri Lujkov, que havia sido demitido pelo então presidente Dmítri Medvedev. Ele substituiu a maior parte da velha guarda de Lujkov na prefeitura com uma equipe definida para a modernização de Moscou. O objetivo era renovar a infraestrutura de transporte e melhorar os espaços públicos da capital.

Naválni, 37 anos, representa uma nova geração de ativista político, e ganhou reputação em grande parte por meio do ativismo on-line e seu papel de liderança nos protestos de rua contra o governo.

As próximas eleições para a prefeitura da cidade com 15 milhões de habitantes haviam sido programadas para 2015, ao final do atual mandato de cinco anos. Mas Sobiânin, ex-governador de Tiumen, a mais rica província produtora de petróleo da Rússia, e ex-chefe da administração do presidente Pútin, surpreendeu a todos ao anunciar em junho que iria antecipar o processo eleitoral para “aumentar a [sua] legitimidade entre os moscovitas”. Essa foi uma a reação reversa ao ponto de vista exprimido em fevereiro, quando o prefeito interino havia declarado “as pesquisas mostram que 70 a 80% dos moscovitas não desejam eleições antecipadas”.

Nocaute da lei

A pesquisa indicava que seu mais forte adversário, o empresário bilionário Mikhail Prôkhorov, que ficou em segundo lugar em Moscou na disputa presidencial contra Pútin em 2012, não seria capaz de vencer a concorrência. Mas uma lei que entrou em vigor em junho passado passou a proibir as autoridades eleitas de possuir contas e patrimônios comerciais no exterior. Prôkhorov havia planejado retornar seus ativos estrangeiros à Rússia em 2014, para que pudesse concorrer à prefeitura, mas disse não poderia fazê-lo a tempo de se qualificar para as eleições de setembro deste ano.

Olga Krichtanóvskaia, socióloga e ex-conselheira do Kremlin

“O prefeito de uma cidade, mesmo que seja a capital de um país, deve tratar de questões de infraestrutura em primeiro lugar. Ser um bom orador não é o suficiente para ser um bom prefeito. Sobiânin personifica a estabilidade, mas não é demagogo - ele está trabalhando para melhorar a infraestrutura de Moscou e construir novas vias. Ele fica acima de suspeitas, mostrando às pessoas que está trabalhando para o povo, e as pessoas podem ver os resultados de seu trabalho: a cidade está em boas condições.

Paralelamente, a sociedade está dividida em dois e, na contagem final, tudo se resume à escolha entre Pútin e a oposição. Naválni representa as pessoas que estão do outro lado da barricada, aqueles que não necessariamente desaprovam Sobiânin, mas sobretudo desejam um novo governo. Eles querem desmantelar o atual sistema e construir uma nova democracia. Quem odeia o sistema vota em Naválni. O resto dos candidatos têm chances muito pequenas de vencer – eles mal conseguem engajar os eleitores.

Essa é a primeira vez em anos que a oposição enfrenta o governo de peito aberto. A campanha de Naválni é pouco comum. Ele está usando as redes sociais e uma ampla rede de voluntários, sua equipe realiza pesquisas próprias , campanhas nas ruas, e Naválni, pessoalmente, se reúne com as pessoas em seus bairros – dessa forma, os cidadãos comuns começam a conhecer o candidato Naválni. Nesse contexto, o segundo lugar seria uma grande vitória para ele.”

“O governo tem apenas uma razão consistente para convocar as eleições antecipadas – tanto o Kremlin como Sobiânin estão vendo o futuro com certa cautela”, diz Lilia Chevtsova, analista política sênior do Centro Carnegie de Moscou. “O governo não pode deixar de enfrentar o crescente descontentamento entre os moscovitas no futuro próximo, uma vez que a Rússia está entrando em um período de recessão, e o sentimento de indignação e protesto é inevitável”.

Denúncia de corrupção

A pesquisa mais recente da Synovate Comcon revelou que, dos 58% dos entrevistados que pretendem votar, 63% vão apoiar o candidato do partido governista Rússia Unida, Sobiânin, seguido por Naválni, que tem 20% das intenções de voto. Os outros quatro candidatos juntos somam menos de 10%. O segundo turno entre os dois candidatos mais votados será realizado se nenhum deles obtiver mais do que 50% dos votos na primeira etapa, assim como no Brasil.

Naválni se tornou famoso como blogueiro ao expor casos de corrupção nas maiores estatais da Rússia. Em 2010, construiu uma rede de advogados, financiados pelo próprio público, para pesquisar contratos obscuros no sistema de compras governamentais e denunciar os funcionários corruptos. Naválni alega que as investigações de sua fundação resultaram no cancelamento de contratos com o governo no valor de 59 bilhões de rublos (US$ 1,79 bilhões).

No entanto, o próprio Naválni foi alvo de cinco investigações criminais nos últimos 18 meses, embora diversos observadores justifiquem que os processos têm motivação política. Em julho, o blogueiro foi considerado culpado pelo desvio de 16 milhões de rublos (US$ 485 mil) de uma madeireira estatal em Kirov, onde havia atuado como assessor do governador regional em 2009, e acabou sendo condenado a cinco anos de prisão. A sentença foi proferida em um julgamento extremamente polêmico, que levou milhares de manifestantes para as ruas perto do Kremlin de Moscou.

Para a surpresa de todos, apenas 24 horas depois do julgamento, os procuradores do Ministério Público retornaram ao tribunal para argumentar que Naválni deveria solto. Sua libertação lhe permitiu, então, concorrer às eleições para prefeito da capital.

Ganhando reconhecimento

“Foi Sobiânin que tirou Naválni da prisão”, diz Ígor Búnin, presidente do Centro para Tecnologias Políticas. “Sobiânin precisa mostrar que essas eleições são transparentes e competitivas para legitimar sua vitória. Para isso, ele permitiu que o principal blogueiro russo entrasse na corrida.”

Encarado como persona non grata na televisão estatal, a principal fonte de notícias para 87% dos russos, Naválni está usando todas as oportunidades para divulgar sua mensagem – isto é, pôr fim à corrupção vai poupar centenas de milhões do orçamento, que poderão ser usados em benefício dos moscovitas. Nos debates da TV com os demais candidatos, dos quais Sobiânin se recusou a participar, Naválni falou sobre a corrupção generalizada no governo.

“A campanha de Sobiânin é tradicional, pois o governo que está no comando de todos os recursos, não tem criatividade e faz uso da pressão do Estado”, afirma Chevtsova. “Naválni oferece vários métodos de campanha estimulantes, tanto on-line como off-line, independentemente de quão limitados são os seus recursos.”

Ele arrecadou um total de 49 milhões de rublos (US$ 1,48 milhões) em doações para sua campanha e tem 14 mil voluntários que distribuem folhetos e jornais ao redor de Moscou. Todos os dias,  Naválni realiza até cinco comícios ao ar livre com eleitores perto das estações de metrô, em diferentes bairros da cidade.

O que começou como uma campanha para legitimar Sobiânin como prefeito foi gradualmente validando Naválni como seu principal adversário. A pergunta-chave é se Naválni voltará a ser preso após a eleição, o que pode transformá-lo em um prisioneiro político aos olhos de muitas pessoas.

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