Blogueiro Naválni continua embrenhado no caso “Florestas de Kirov”

Naválni nega o desvio de US$ 510 mil da “Florestas de Kirov" Foto: Reuters

Naválni nega o desvio de US$ 510 mil da “Florestas de Kirov" Foto: Reuters

Possível condenação do ativista da oposição pode esfriar as relações Rússia-UE, mas não causaria grande alarde.

Um dos mais carismáticos militantes da oposição russa, o blogueiro anticorrupção Aleksêi Naválni, pode pegar até 10 de prisão sob acusações de fraude em um julgamento polêmico que tem dividido a opinião pública no país – e pode gerar tensões com a União Europeia no futuro.

Em janeiro passado, Naválni foi acusado de fraude e desvio de US$ 510 mil da madeireira estatal “Florestas de Kirov”. Se for considerado culpado no julgamento, que começou em abril, ele poderá ser preso por até 10 anos – privando a oposição de um dos seus líderes mais proeminentes.

Nos protestos de rua contra o governo que ocorreram no final de 2011 e início de 2012, Naválni foi um dos principais líderes ao fazer discursos inflamados contra Vladímir Pútin, que foi eleito para seu terceiro mandato como presidente em março de 2012. Naválvi contou com apoio considerável dos manifestantes liberais e nacionalistas, bem como ganhou respeito de alguns empresários ricos.

O caso da “Florestas de Kirov” é um dos cinco processos movidos contra Naválni neste ano. Alguns dos outros casos de fraudes milionárias fazem referência ao gestor do Correios Russos e irmão de Naválni, Oleg, como coautor. Ambos negam as acusações e acreditam que tenham motivações políticas.

O Comitê Investigativo da Rússia, uma poderosa agência de reforço à lei que prepara os casos criminais para acusação, alega que há evidência suficiente para condenar Aleksêi Naválni pelo caso da “Florestas de Kirov”.

Mas os processos contra Naválni podem trazer problemas com a União Europeia, que anteriormente criticou Moscou em relação a outros julgamentos importantes, como o caso do bilionário preso Mikhail Khodórkovski. Vários políticos e diplomatas europeus vêm acompanhando de perto a evolução do caso de Kirov e dizem esse processo “tem significado especial”.

Dmítri Trenin, diretor do Centro Carnegie de Moscou, afirma que uma sentença longa poderia prejudicar as relações entre a Rússia e a Europa.

Ele acredita que a condenação não vá necessariamente levar a repercussões imediatas nas relações políticas e econômicas da Rússia, mas ainda assim teria um efeito negativo. “Os líderes ocidentais seriam, obviamente, obrigados a censurar a [percepção da] natureza política do julgamento de Aleksêi Naválni, o viés assumido pelo poder judiciário russo e a pressão sobre adversários do governo”, diz Trenin.

“Seria comparável, em uma escala menor, à reação do Ocidente ao veredito concedido a Khodórkovski.”
No entanto, ele alega que seria um erro para a Europa renegar acordos já alcançados ou congelar as negociações, como aquelas que visam a implementação de um regime de isenção de vistos para os cidadãos russos em visita à UE.

Aleksêi Múkhin, diretor do Centro de Informação Política, acredita que as consequências de uma possível sentença de prisão para Naválni seriam limitadas. “Os europeus sempre conseguiram separar política de economia”, diz ele.

Embora exista um forte lobby político contra a Rússia dentro da União Europeia, há pouca probabilidade de os europeus instituírem uma versão própria da lei Magnítski – restrições de visto impostas pelos EUA para algumas autoridades russas após a morte do advogado sob custódia Serguêi Magnítski. “Até mesmo a sociedade norte-americana está começando a duvidar da conveniência da lista Magnítski”, diz Múkhin. “Muitas pessoas nos EUA consideram esse ato como institucional, já que os nomes listados foram selecionados arbitrariamente, além de que nenhum deles havia sido objeto de investigação judicial antes de sua inclusão na lista. Se a Europa quiser elaborar sua própria versão da lista, então deve haver uma decisão judicial. Essa determinação não teria precedentes e poderia naturalmente provocar uma série de respostas de Moscou, complicando ainda mais a situação.”

O Parlamento Europeu também pode tentar usar o caso Naválni contra a Rússia.

“O caso Naválni é apenas a ponta do iceberg. Há toda uma pilha de processos judiciais e investigações relacionadas aos protestos contra a posse de Vladímir Pútin um ano atrás. É hora de a UE seguir o exemplo dos Estados Unidos e adotar a lista Magnítski”, disse ao jornal “Kommersant” Werner Schultz, vice-presidente do comitê para cooperação UE-Rússia no Parlamento Europeu.

Porém, Andrzej Olechowski, ex-ministro das Relações Exteriores polonês, considera o esfriamento das relações mais perigoso do que o desenvolvimento de grandes protestos. “Não acredito que haverá sanções”, disse Olechowski em entrevista ao mesmo jornal. “A Rússia não aceitaria isso de braços cruzados. Entretanto, esses casos levarão a uma frustração e decepção cada vez maior com a Rússia. Isso poderia causar um retrocesso nas relações de Moscou com a União Europeia.”

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