Um ano após protestos em massa, oposição russa segue vacilante

Foto: ITAR-TASS

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Um ano depois das ações em massa, diferem as avaliações quanto o lugar no cenário político conquistado pelos adversários do regime.

No último dia 6, a oposição russa se reuniu na Praça Bolotnaia para marcar o aniversário de um ano do protesto em massa que terminou em confronto com a polícia e centenas de pessoas detidas.

O protesto de 2012 aconteceu na véspera da posse do presidente Pútin, que havia sido eleito para seu terceiro mandato como presidente em março, com 64% dos votos.

De acordo com a polícia, o comício deste ano reuniu cerca de 8.000 pessoas. As avaliações dos organizadores da ação são mais otimistas –segundo eles, 30 mil membros da oposição se reuniram nos arredores do Kremlin.

Também diferem as avaliações quanto o lugar no cenário político conquistado pelos adversários do regime um ano depois das ações em massa.

O organizador da ação foi o Conselho de Coordenação da Oposição, estrutura que surgiu em setembro do ano passado. Seus membros foram eleitos após uma votação na Internet.

O conselho, de acordo com o planejado por seus membros, deveria se tornar um órgão que representasse a oposição russa em geral e que tivesse como objetivo travar um diálogo com as autoridades em nome da oposição.

O próprio Pútin havia afirmado no final de abril estar pronto para isso.

“Mas alguns líderes da oposição estão evitando este diálogo”, disse.

Anteriormente, em uma entrevista para o canal de notícias Rússia24, o porta-voz do presidente, Dmítri Peskov, declarou que não vê nenhuma possibilidade de diálogo, uma vez que, segundo ele, “não é possível conversar com o vazio”.

Na sua opinião, os opositores do regime nunca apresentaram qualquer agenda construtiva, nem seus verdadeiros líderes.

Nos seis meses que se passaram desde a sua formação, os membros do conselho realizaram reuniões regulares, onde discutem questões organizacionais e recebem declarações sobre as diversas ações das autoridades. Na prática, somente um estrito círculo de ativistas participava dos trabalhos.

Impasse

De acordo com o diretor do Instituto de Globalização e Movimentos Sociais, Boris Kagarlítsli, a própria criação do Conselho de Coordenação foi um sintoma de um impasse do movimento de protesto, que surgiu na sequência das eleições parlamentares em 2011.

“Os líderes do protesto entenderam que começavam a perder simpatizantes e não podiam elaborar novas metas. Assim, a campanha foi iniciada com as eleições do Conselho de Coordenação”, considera Kagarlitski.

A falta de capacidade do conselho de formular objetivos claros levou ao distanciamento de alguns oposicionistas proeminentes. A estrela dos comícios de oposição do ano passado, o membro do conselho e poeta Dmítri Bikov, está focado em atividades artísticas e de publicidade, que estão apenas indiretamente relacionadas com a luta política.

A novidade é que outro membro do conselho, a famosa apresentadora de TV Ksenia Sobchak , vai se casar, o que também foi percebido por muitos como evidência de que ela está se afastando por vontade própria da vida política ativa nos últimos meses para se concentrar na vida privada.

Ao mesmo tempo em que os membros do conselho se reuniam, as autoridades tentavam isolar alguns dos seus membros mais ativos e reduzir o seu possível impacto na sociedade. Vários líderes da oposição foram implicados em casos criminais ou relacionados com suas atividades políticas.

No tribunal da cidade de Kirov, capital de uma das regiões russas, corre o caso de um dos líderes do movimento da oposição, Aleksêi Naválni. Naválni tornou-se conhecido graças às suas denúncias de casos de corrupção nos mais altos escalões do poder.

Com base em filmagens com uma câmera oculta, outro membro do conselho, o ativista de esquerda Serguêi Udaltsóv, atualmente está cumprindo prisão domiciliar, acusado de receber dinheiro de serviços especiais georgianos. Udaltsov também ficou privado de participar de atividades políticas.

Membro do conselho, o renomado jornalista Oleg Kashin admite que ultimamente muitos adversários perderam o interesse pela organização. No entanto, na opinião de Kashin, apesar de seu trabalho ser “vacilante”, o conselho continua representando a oposição.

“É o conselho que, em uma crise política interna, será capaz de iniciar um diálogo com as autoridades”, acredita o oposicionista.

De acordo com Kashin, a figura nº 1 capaz de liderar esse diálogo por parte dos opositores do regime continua sendo Naválni.

“Infelizmente, nos últimos meses, ficou evidente que ele se sente pressionado pelo papel de um verdadeiro líder político. Talvez o tribunal de Kirov possa sacudi-lo”, diz  Kashin. 

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