Liberalismo russo dá sinais de fracasso

Ilustração: Niyaz Karim

Ilustração: Niyaz Karim

Movimento que estimulou perestroika e reformas no período pós-soviético é hoje caracterizado por fraqueza ideológica.

Após o primeiro ano do terceiro mandato presidencial de Vladímir Pútin, pode-se dizer que o governo conseguiu superar a crise política causada pelas manifestações em massa da oposição que seguiram as eleições parlamentares em 2011. Se por um lado isso é resultado da iniciativa de democratização do sistema político do país, por outro, é consequência da fraqueza ideológica e desorganização do movimento democrático liberal da Rússia.

O movimento de direita da Rússia contemporânea, considerado como portador de ideias liberais, está enfraquecido. Nem sequer lembrar o movimento que constituiu o núcleo ideológico da perestroika nos finais dos anos 1980, quando a liderança do país tentou aliar o socialismo com os conceitos liberais e construir o chamado “socialismo de rosto humano”.

Na sequência do colapso da União Soviética, a década de 1990 foi marcada pelas reformas liberais, sobretudo após a aprovação da nova Constituição do país em 12 de dezembro de 1993, que proclamava o multipartidarismo, e a chegada à Duma de Estado (câmara baixa do parlamento russo) do partido liberal pró-presidencial Opção Democrática da Rússia, fundado e liderado por Egor Gaidar.

Sob Gaidar, o governo russo começou a conduzir a política de reformas liberais e transição à economia de mercado. Um dos aspectos-chave da nova política econômica foi a privatização realizada por meio de emissão de certificados de privatização e pela venda de empresas públicas a um pequeno grupo de seguidores do governo.

Alguns observadores acreditam que as reformas liberais dos anos 90 prejudicaram mais a economia do país do que a Segunda Guerra Mundial. Após a crise da dívida pública russa de 1998, provocada por essas reformas e a subsequente crise econômica, a ideologia liberal deixou de ser relevante na sociedade russa e isso estimulou a consolidação das forças de direita.

Para disputar as eleições legislativas em 1999, os liberais criaram a União das Forças de Direita (UFD) que durou até 2008. A aliança eleitoral das forças liberais incluía muitas siglas democráticas, entre as quais os partidos Opção Democrática da Rússia, de Egor  Gaidar, e Jovem Rússia, de Boris Nemtsov, além do Rússia Democrática, Causa Comum e o Movimento Juvenil de Geração da Liberdade. Nas eleições parlamentares daquele ano, a aliança obteve 8,52% dos votos e formou uma bancada na Duma de Estado.

Além da UFD, autoproclamada como movimento de direita liberal a favor do modelo norte-americano de liberdade econômica, a Duma de Estado contava também com a bancada do partido Iábloko, de tendência social liberal, típica dos partidos europeus de centro esquerda. As tentativas de unir  esses dois partidos ou, pelo menos, criar uma aliança democrática não deram resultado. Mais do que isso, as relações entre esses dois grupos foram marcadas por conflitos constantes.

De um lado, o Iábloko afirmava que a UFD teria sido criada para “defender os interesses da oligarquia e os resultados da privatização criminosa”, enquanto a UFD chamava os integrantes do Iábloko de “intelectuais ofendidos”. A incapacidade da ala direita de se consolidar e a queda da popularidade de seus líderes, assim como a falta de novas ideias e programas e o fracasso das reformas econômicas dos anos 90, fizeram com que não houve nenhuma banca oposicionista de tendência liberal na Duma de Estado eleita em 2003.

O mesmo cenário se repetiu nas eleições parlamentares de 2007, quando nenhuma das siglas oposicionistas conseguiu superar o mínimo de de 5%. O Iábloko obteve 1,59%, enquanto a UFD, 0,96%. Após esse fracasso, em 2 de outubro de 2008, a UFD foi diluída.

Em novembro de 2008, o Kremlin criou um novo partido de direita a partir da UFD, o Causa de Direita, colocando à sua frente o jovem bilionário Mikhail Prôkhorov, que largou o partido em setembro de 2011. Os ex-integrantes da UFD que não estavam alinhados à nova agremiação política criaram também o movimento democrático Solidariedade, que se juntou posteriormente ao Partido da Liberdade do Povo (Parnas, na sigla em russo). No entanto, a nova coalizão não concorreu às eleições parlamentares de 2011 por não ter conseguido elaborar uma estratégia comum, enquanto o partido de Mikhail Prôkhorov obteve apenas 1,54% dos votos.

Após as eleições para a Duma daquele ano, os líderes do Parnas, Vladímir Rijkov, Mikhail Kasianov, Boris Nemtsov e Iliá Iachin, tomaram parte ativa na organização dos protestos. Como resultado das manifestações, as autoridades russas decidiram liberalizar a legislação eleitoral, o que levou a um drástico  aumento do número de partidos políticos no país.

Se no início de 2012 a Rússia tinha apenas sete partidos, no início de maio de 2013, seu número já era de 64. No entanto, desses, apenas um décimo pretende defender os valores liberais. Isso significa que o movimento de  direita pode chegar às próximas eleições para a Duma em 2016 ainda mais fraco e diluído do que em 2011.  O analista político independente Aleksandr Duguin justifica que “os liberais não têm hegemonia política e sua dominância econômica está, na maior parte, sob o controle dos monopólios estatais”. Nesse cenário, o último setor onde eles ainda têm alguma representação e influência é nos meios de comunicação de massa e cultura.

Todos os direitos reservados por Rossiyskaya Gazeta.