Moscou e Tóquio cada vez mais perto de desatar os nós

Pútin (dir.) e Abe durante coletiva após encontro bilateral no Kremlin

Pútin (dir.) e Abe durante coletiva após encontro bilateral no Kremlin

Reuters
Em recente cúpula, Vladímir Pútin e Shinzo Abe não avançaram grandes projetos, mas foram capazes de dar sequência a importantes iniciativas anteriores – entre elas, a aproximação diante da crise Rússia-EUA e das estripulias norte-coreanas.

No último dia 27 de abril, o primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe, retornou a Moscou, quatro anos depois de sua primeira visita oficial, onde participou de várias reuniões bilaterais com o presidente Vladímir Pútin.

Os cientistas políticos e historiadores costumam contar a frequência com que tais cúpulas ocorrem entre os altos escalões de Rússia e China, ou China e Japão.

No caso de Pútin e Abe, no entanto, a ênfase sobre o número de reuniões tornou-se um elemento comum na imprensa e, talvez, indique que a tentativa de normalização das relações entre os dois países ainda seja um processo em andamento.

Sem grandes avanços

A última reunião de Pútin-Abe em Moscou foi, talvez, a mais despercebida das conversações de alto nível, especialmente quando comparada à cúpula de 2016 em Sôtchi, Vladivostok e Nagato, que estava cheia de promessas atraentes.

Desta vez, as partes não apresentaram grandes projetos, mas deram sequência a iniciativas práticas propostas durante as conversações anteriores em nível ministerial.

Ainda assim, foram assinados 29 memorandos de entendimento, o que demonstra que ambos os governos estão em manter o “canal de negociação” em funcionamento –  mesmo que nem todos os acordos sejam inteiramente implantados mais para frente.

Os projetos em questão incluíram pescarias perto das disputadas Ilhas Curilas do Sul, cooperação em energia, exploração de recursos, produtos farmacêuticos, saúde e ecoturismo. A extensão da cooperação prática será melhor elaborada por uma equipe público-privada de estudo de viabilidade, que seguirá às Curilas já em maio.

Como previsto, uma conquista humanitária significativa e tangível que o líder japonês conseguiu extrair de Moscou foi a promessa de estabelecer viagens aéreas isentas de vistos para os antigos moradores japoneses dos Curilas do Sul, a partir de junho.

Antes disso, até para visitar as sepulturas da família, os deportados japoneses, entre os quais a maioria vive em Hokkaido, eram obrigados a viajar por mar.

Além da sua importância para os antigos moradores e do prestígio político para Abe, esse acordo é também significativo na medida em que mantém e destaca a dimensão humana – e não apenas econômica – na agenda russo-japonesa.

Tensões na península coreana

Como a recente reunião já estava programado como uma sequência da cúpula de dezembro de 2016, o programa de mísseis norte-coreano ficou em segundo plano.

No entanto, as mais recentes empreitadas de Pyongyang não só reavivaram o cenário de conflito armado no nordeste da Ásia, como também criaram uma oportunidade para a Rússia e o Japão reforçarem seu posto na diplomacia multilateral da região – ainda que a postura de Tóquio nesse aspecto seja mais dura do que a de Moscou.

Apesar da vontade declarada da Rússia de ressuscitar o mecanismo de conversações a seis e o encorajamento do Japão nesse sentido, essas tentativas dependem, em última instância, do sucesso de estimular e forçar Pyongyang a retomar essas negociações, o que não parece realista neste momento – até a próxima eleição em Seul.

O fator Trump 

Além do mais, a discussão em torno da situação na península coreana ofereceu aos líderes russos e japoneses uma oportunidade de minimizar os progressos lentos sobre a disputa territorial, ainda mais porque o cenário internacional para a Rússia tem lembrado os tempos antes da última eleição presidencial nos EUA.

Se voltarmos para o período anterior a novembro de 2016, pode-se lembrar que a campanha de Abe para acelerar a normalização das relações com a Rússia recebeu um estímulo extra da expectativa de isolamento da Rússia no caso da vitória de Hillary Clinton e do consequente enfraquecimento do poder de negociação de Moscou.

O resultado imediato da chegada de Donald Trump à Casa Branca parecia ter quebrado esse modelo. No entanto, os primeiros 100 dias do novo presidente norte-americano mostraram que as tensões entre Washington e Moscou persistem – apesar da saída de seu antecessor, Barack Obama –, enquanto as relações EUA-Japão e EUA-China não se agravaram, também contrariando as expectativas iniciais.

Assim, o papel do Japão como o melhor amigo da Rússia entre os países do G7 tinha tudo para ruir no início deste ano. Mas, depois das trocas de farpas entre o Kremlin e a Casa Branca acerca da Síria, o governo de Tóquio voltou ao palco em grande estilo.

Curiosamente, o que parecia ser uma viagem independente de Abe para a Rússia acabou se tornando um tour regional, com a adição do Reino Unido e quatro países nórdicos – todos parceiros tradicionalmente importantes do Japão na Europa.

Também é possível suspeitar, porém, que Abe quis evitar a impressão de estar demasiadamente acolhedor ou disponível para Pútin ao viajar apenas para a Rússia, o que aumentou sua motivação para as viagens posteriores.

Se for esse o caso, é possível que o fervor de Tóquio em cortejar publicamente Moscou se torne menos vigoroso e mais discreto, para, assim, testar o poder de barganha do Kremlin após a não ocorrida normalização EUA-Rússia sob Trump.

A próxima vez que Abe e Pútin se encontrarão será à margem da cúpula do G20, em julho, e durante o Fórum Econômico Oriental, em setembro. Agora basta esperar pelos próximos capítulos dessa longa novela.

Nikolai Murachkin é candidato a doutorado na Faculdade de Estudos Asiáticos e do Oriente Médio, na Universidade de Cambridge. Atuou em projetos acadêmicos no Japão, Cazaquistão, Uzbequistão e Azerbaijão.

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