Rússia e Talibã não são amigos

Libertação de pilotos russos em cativeiros do Talibã mostra eficácia de contatos, ainda que limitados, com o grupo

Libertação de pilotos russos em cativeiros do Talibã mostra eficácia de contatos, ainda que limitados, com o grupo

AP
Moscou mantém canais de comunicação com grupo afegão, mas apenas de olho em proteger seus próprios interesses no país.

Antes de tudo, é preciso entender que as autoridades russas não planejam fazer amizade com os talibãs. O movimento fundamentalista afegão foi colocado na lista negra de grupos terroristas pelo Supremo Tribunal russo ainda em fevereiro de 2003, e qualquer cooperação entre a Rússia e o Talibã constituiria uma ofensa criminal.

Talvez, se o grupo interrompesse suas atividades terroristas, o Supremo russo seria capaz de removê-lo dessa lista. Mas a verdade é que o Talibã continua realizando ataques contra objetos civis e militares no Afeganistão – e estrangeiros, incluindo russos, são alvos habituais de tais agressões.

Quase todos os anos os serviços especiais russos capturam suspeitos na Rússia de manter ligações com o movimento. E esta é a prova cabal de que ainda é muito cedo para discutir a mudança de status do Talibã no país.

Canal de vantagens

A declaração mais clara sobre a posição russa em relação ao Talibã partiu do general Oleg Siromolotov, vice-ministro dos Negócios Estrangeiros russo responsável pelo combate ao terrorismo, em setembro passado.

“[O Talibã] é um grupo terrorista que está na lista de sanções da ONU. Portanto, não temos nenhum contato com o Talibã. Temos apenas um canal de comunicação para questões humanitárias relacionadas com direitos humanos e reféns. Nada além disso”, disse Siromolotov.

A libertação do piloto russo Pável Petrenko de um cativeiro talibã, em 2014, mostrou a eficácia do canal de comunicação entre Moscou e o grupo.

“Minha liberdade foi possível porque a Rússia obteve novos recursos no Afeganistão”, disse Petrenko ao site Afghanistan.ru, após a libertação. “Isso permitiu que Moscou tivesse influência no processo no Afeganistão sem países terceiros.”

Em agosto passado, os esforços conjuntos da Rússia, do Afeganistão e do Paquistão facilitaram também a libertação de outro piloto, Serguêi Sevastianov, apenas nove dias depois de ter sido capturado pelos talibãs.

Amizade falsa

Uma série de políticos, especialistas e jornalistas acompanham os acontecimentos no Afeganistão e sustentam pontos de vista diferentes sobre essa questão.

Ao ler as recentes manchetes sobre a Rússia e o Talibã, é fácil acreditar que grandes mudanças ocorreram no posicionamento russo em relação ao movimento: “O novo aliado de Moscou no Afeganistão”, “O novo jihadista favorito da Rússia”, “Os novos amigos da Rússia no Talibã afegão”, e assim por diante.

Alguns alegam que Moscou começou a fornecer armas e equipamentos aos talibãs, além de fazer a manutenção do arsenal do grupo, incluindo blindados. O Kremlin garante, porém, que essas informações são falsas.

No último dia 10, o Ministério dos Negócios Estrangeiros russo negou, por exemplo, as alegações do general John Nicholson, comandante das forças dos EUA e da Otan no Afeganistão, de que a Rússia havia suprido o movimento com novas armas.

Pouco antes, em 2 de janeiro, o porta-voz da agência da guarda de fronteira do Tadjiquistão, Muhammadjon Ulughkhojaev, já havia declarado que as acusações eram “infundadas”.

Política no Talibã by Rússia

A política russa em relação ao Afeganistão em geral, e em particular ao Talibã, fica mais evidente devido ao fato de o país receber, recentemente, mais atenção da Rússia do que de seus parceiros habituais.

No início da campanha liderada pelos EUA no Afeganistão, Moscou limitou-se a desempenhar um papel de apoio. No entanto, depois que os Estados Unidos decidiram reduzir sua presença militar no país, a liderança russa percebeu que nem Kabul nem Washington e seus aliados eram suficientemente capazes de acabar com o terrorismo e o tráfico de drogas em solo afegão. Foi então que Moscou deixou de atuar como apoio para a missão EUA-Otan e iniciou uma política própria na região.

Não há dúvidas de que, nesse processo, a Rússia precisa de um canal de comunicação com os talibãs e outros grupos armados no Afeganistão. A libertação de seus pilotos do cativeiro mostra que a principal função do canal é ajudar os cidadãos russos.

Por outro lado, as possibilidades de buscar interesses comuns e dialogar com o Talibã continuarão suspensas, devido à inabilidade do movimento de cessar as atividades terroristas e a seu envolvimento na produção e tráfico de drogas.

Piotr Topitchkanov é pesquisador sênior do Centro de Segurança Internacional do Instituto de Economia Mundial e Relações Internacionais, da Academia Russa de Ciências, e membro do Programa de Não Proliferação do Centro Carnegie.

Versão abreviada de artigo publicado por Russia&India Report.  

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