Por que Caracas pode se tornar um fardo para o Kremlin

Aprovação do governo Maduro (esq.) despenca à medida que crise econômica se intensifica

Aprovação do governo Maduro (esq.) despenca à medida que crise econômica se intensifica

kremlin.ru
Mais cedo do que o esperado, o Kremlin pode ser forçado a reavaliar sua cooperação com a Venezuela. Em meio a uma crise econômica, social e política, a situação do país se deteriora rapidamente e o presidente Nicolas Maduro perde apoio na população e no Parlamento.

A crescente crise política somada à profunda crise econômica na Venezuela fez emergir a questão sobre o apoio da Rússia ao país latino-americano. No início de 2017, a oposição na Assembleia Nacional, o Parlamento venezuelano, anunciou o impeachment do presidente Nicolás Maduro e convocou eleições presidenciais.

De acordo com Julio Borges, o novo líder do Parlamento venezuelano, o presidente Maduro “quase renunciou ao cargo” porque ele não estava apto para lidar com a severa crise social e econômica no país. No entanto, a Constituição venezuelana não permite o impeachment de um presidente baseado apenas no fato de que o líder da nação falhou na condução de uma crise econômica. Foi esse o motivo pelo qual a Suprema Corte do país não aprovou a renúncia de Maduro.

Ainda assim, o fato de que o Parlamento tentou destituir o presidente indica uma severa crise política e econômica. A posse de Maduro teve a desaprovação de três quartos da população e 93,6% das pessoas vê a situação do país negativamente. Ao mesmo tempo, cerca de 22% dos venezuelanos acredita que Maduro deve deixar o cargo.

Como um provérbio conhecido sugere, quando chove, transborda. Da mesma forma, a Venezuela enfrenta uma série de problemas de uma só vez, incluindo um deficit alimentar, uma inflação desmesurada de 720%, queda do PIB (Produto Interno Bruto) livre e um severo corte na produção.

Por exemplo, em novembro de 2016, a Venezuela - com uma população de 30 milhões de pessoas - vendeu apenas 236 carros. Dez anos antes, o país produzia 12 mil carros por mês, de acordo com Jose Manuel Puente, economista do Instituto de Estudos Avançados em Administração, em Caracas, capital do país.

A produção de petróleo, setor-chave da economia venezuelana e que representa 96% das exportações do país, também enfrenta vários desafios durante a atual queda do preço do petróleo. Em meio à crise, o país diminuiu sua produção na tentativa de influenciar a queda dos preços, mas esse movimento só afetou ainda mais o orçamento venezuelano. 

No começo de 2014, a Venezuela produziu 2,9 milhões de barris por dia. Em novembro de 2016, reduziu a produção de petróleo para 2,3 milhões de barris. Mas mesmo esta pode ser uma visão otimista das coisas - alguns especialistas independentes especulam que o país tenha produzido menos de 2 milhões de barris por dia.

O campo de petróleo mais antigo na parte ocidental do país está esgotado, enquanto a região de petróleo mais rica, conhecida como a faixa do Orinoco, na parte oriental, possui petróleo extra-pesado. Refinar este petróleo requer milhões de dólares, algo requerido por um país atormentado pela crise. Como resultado, a Venezuela tem que importar petróleo leve da Argélia para misturar com o seu próprio, extra pesado, e então exportar o híbrido resultante.

A inabilidade das autoridades para resolver esses desafios resultou em uma onda de ceticismo entre os especialistas da Rússia, já que a crise na Venezuela representa uma ameaça para os interesses empresariais russos.

Emil Dabagyan, um membro senior do Instituto da América Latina da Academia Russa de Ciências, comparou a economia venezuelana a um Titanic afundando. Segundo ele, o país necessita de uma vasta reforma e um novo modelo econômico. A tarefa é monumental para a Venezuela, que precisa “diminuir a pressão sobre os negócios”, encorajar pequenos e médios empreendedores, aliviar a dominação estatal sobre a economia e restaurar o diálogo com a oposição.

Os interesses econômicos da Rússia podem ser afetados não só pela incompetência das autoridades venezuelanas como também por um julgamento iniciado pela empresa americana ConocoPhillips contra a Rosneft Trading S.A. A empresa, que pertence à maior companhia de petróleo russa, a Rosneft, foi acusada de realizar uma transferência fraudulenta de bens pertencentes à estatal de petróleo da Venezuela, a PDVSA (Petróleos de Venezuela).  

No ano passado, a Rosneft apoiou a PDVSA financeiramente interrompendo um acordo de US$ 20 bilhões e investindo nas instalações de energia do , apesar de grandes riscos. E apenas agora a Rússia começou a entender que as prospecções de investimento naquele país, confrontado com uma grave crise econômica e política e visto como um pária no mundo, são obscuros, na melhor das hipóteses.

Hoje, a Venezuela, que já foi um dos produtores de petróleo mais ricos, está à beira de um calote. Mesmo a China, com sua insaciável fome por energia, parece estar se esquivando de investir na enfraquecida economia venezuelana, apesar dos US$ 60 bilhões emprestados desde 2008.

No entanto, a situação econômica e política da Venezuela não é a única razão que pode dificultar os projetos conjuntos de Moscou e Caracas. Apesar da Suprema Corte da Venezuela ter decidido que o processo de impeachment da Assembleia Nacional contra Maduro era ilegal, a espada de Damocles está pairando sobre o atual presidente venezuelano. Isso significa que Maduro poderia renunciar antes do final de seu mandato presidencial, por razões óbvias: ele não pode lidar com a crise de forma adequada e oportuna, o que parece óbvio para o parlamento e os cidadãos da Venezuela.

Isso levaria a uma mudança no poder do país, com o vice-presidente Tareck El Aissami se tornando o sucessor de Maduro. O problema é que autoridades dos Estados Unidos veem El Aissami como um dos maiores atores no tráfico de drogas venezuelano, segundo o “Wall Street Journal”.

Além disso, em 2009, autoridades americanas acusaram El Aissami, então ministro do Interior venezuelano, de emitir passaportes para membros do Hamas e do Hezbollah, vistas como organizações terroristas. Também foi alegado que El Aissami recrutou jovens árabes da Venezuela para serem treinados em campos do Hezbollah no sul do Líbano, como indicado pela investigação do Centro para uma Sociedade Livre e Segura Joseph Humire.

Desse modo, especialistas estão preocupados de que El Aissami possa ser ainda pior que Maduro e que pode transformar a Venezuela em um Estado narco que suporta o terrorismo internacional. Isso teria grave implicações não só para os laços entre Rússia e Venezuela e para o mercado de petróleo, mas para todo o mundo.

Artigo abreviado e originalmente publicado no Russia Direct

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Evguêni Bai é jornalista internacional, especialista em América Latina e colaborador nos veículos The New Times, Novaia Gazeta e Ekspert.

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