Em busca de saídas para o Brexit

Votação por saída da União Europeu gerou protestos em Londres

Votação por saída da União Europeu gerou protestos em Londres

Rex/Fotodom
Analista comenta efeitos de retirada britânica para a política mundial, incluindo Rússia.

O Reino Unido está se retirando da União Europeia. Contrariando as pesquisas de opinião, as previsões de peritos e os cálculos analíticos, a maioria dos súditos da rainha votou a favor da manutenção da identidade e contra o “domínio de Bruxelas". A forma mais suave de caracterizar o ocorrido seria dizer que a Europa está em choque. O que virá em seguida?

A divisão da população em duas partes quase iguais vem carregada de consequências muito graves. A Inglaterra e o país de Gales votaram a favor da saída, enquanto a Escócia e a Irlanda do Norte querem permanecer na UE. Durante a campanha, quase todos presumiam que, caso ocorresse o Brexit, o mais provável seria que a Escócia anunciasse um novo referendo sobre a independência e que, desta vez, os separatistas venceriam. A situação em Ulster (uma das quatro províncias históricas da Irlanda) é extremamente complicada devido ao antigo e muito grave problema do conflito entre católicos e protestantes, que com muito custo foi aplacado há quase 20 anos. Agora, todo o projeto da reconciliação pode ser abalado.

Reestruturação do modelo de integração

Mas há um outro lado. Atualmente, quase todos compreendem que a União Europeia precisa passar por uma transformação institucional séria. Porém, por enquanto, ninguém consegue se decidir a realizar as mudanças essenciais. O Brexit obriga a implementar uma reestruturação fundamental do próprio modelo de integração e isto teria que ser feito de qualquer forma, mais cedo ou mais tarde. A responsabilidade por isto caberá à Alemanha, cuja posição na Europa atualmente é muito mais fraca do que era há um ano. A crise provocada pelos migrantes abalou a quase inquestionável autoridade de Ângela Merkel. Mas a saída da Grã-Bretanha deve tornar-se um catalisador para as reformas necessárias. A questão é se as elites europeias tomarão a decisão de revisar os princípios fundamentais ou tentarão apenas “lamber as feridas” novamente?

Os eurocéticos (euroceticismo é uma doutrina política fundamentada na desconfiança, ou na descrença acerca da União Europeia) receberam um poderoso impulso em toda a Europa. Assim, Marine Le Pen (presidente do partido francês de direita Frente Nacional) já declarou que a França deverá ser o próximo país que irá consultar a população sobre o seu posicionamento em relação à União Europeia. De modo geral, as pesquisas divulgadas no dia da votação britânica, revelam que praticamente em todos os principais países europeus - Itália, França e Alemanha – cerca de metade dos cidadãos também gostaria de manifestar sua opinião sobre a UE em um referendo.

Significado para a Rússia

É de conhecimento de todos que, durante a campanha, o lado que apoiava a permanência no bloco utilizou ativamente a imagem de Vladímir Pútin que, supostamente, sonhava em ver o Reino Unido deixando a UE, porque, depois disso, a União Europeia começaria a se “descosturar” totalmente. Na verdade, a saída de Londres trará consequências ambíguas para Moscou. E não se trata da inevitável instabilidade econômica – justamente, é provável que ela seja temporária e de curta duração. A imersão da UE em uma crise interna ainda mais profunda significa que lidar com ela será muito difícil. Mas, também, é impossível isolar-se da UE, pois a dependência mútua é muito grande e por muitos anos ainda isso não irá mudar.

É claro que existe a famosa ideia de que o desmanche das instituições libertaria a energia e a soberania dos países isolados e é com eles que a Rússia iria interagir. No entanto, o problema consiste no fato de que não acontecerá, de qualquer modo, uma emancipação total, irá acontecer outra coisa – uma disfunção ainda maior do sistema que, no entanto, continuará a ser unificado, apesar de estar funcionando mal. Por isso, a busca de alternativas para o eurocentrismo e a diversificação das relações está se tornando um componente ainda mais importante da política russa para os próximos anos.

Outro provável resultado do Brexit é o fortalecimento do papel da Otan na qualidade de principal "aro" que une a Europa. De qualquer modo, isto já vem acontecendo com o aumento das tensões no interior da UE, entretanto, a saída do Reino Unido transformou-se em um estímulo adicional. Esse cenário não promete nada de bom. E, a propósito, isso implicará no fortalecimento e não no enfraquecimento da influência dos Estados Unidos.

Cansaço da globalização

A União Europeia está afundando em uma crise aguda, da qual emergirá renovada, mas não está claro se ela estará enfraquecida ou, ao contrário, fortalecida. Teoricamente, esta crise pode modificar e reforçar a integração e criar um núcleo continental. Mas esse resultado não é garantido. É possível um desenrolar de acontecimentos no sentido oposto: o início de um desmantelamento irreversível de toda a lenda sobre a unidade europeia. A Alemanha tentará salvar o projeto com todas as suas forças, pois, caso contrário, os fantasmas de todos os pesadelos do passado poderão reviver.

Talvez, o resultado mais importante seja o malogro da sociologia, que revela o fato de que os pesquisadores não estão conseguindo detectar alguns processos subjacentes que estão ocorrendo na sociedade. O grau de distanciamento das massas em relação ao establishment (termo inglês que se refere à ordem ideológica, econômica e política que constitui uma sociedade ou um Estado) cresceu tanto que eles não conseguem se comunicar entre si, nem mesmo desta forma. E isso não se aplica apenas à Grã-Bretanha. O fenômeno de Trump nos Estados Unidos é do mesmo tipo. O cansaço em relação à globalização e o medo dela geram uma reação natural que consiste em isolar-se, proteger-se, agarrar-se a algo pequeno, mas que seja seu. Isso significa que o mundo será diferente, muito mais fragmentado e imprevisível.

Fiódor Lukiánov é editor-chefe da revista Russia in Global Affairs e professor de pesquisa na Universidade Nacional de Pesquisas da Escola Superior de Economia.

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