China empurra poluição em troca de benefícios

Ilustração: Iorsh

Ilustração: Iorsh

Ambientalistas querem barrar abertura de fábricas chinesas no leste da Rússia. Empresas podem trazer benefícios econômicos, mas ameaçam ecossistema local.

As propostas da China de construir diversas fábricas no Extremo Oriente russo têm provocado intensos debates nas comunidades de ambientalistas e economistas nacionais.

Os defensores do projeto argumentam que os investimentos intensificarão a cooperação entre os países e trarão inúmeros benefícios econômicos para essa região periférica no leste da Rússia.

No entanto, os céticos garantem que os custos ambientais serão maiores que os benefícios, já que entre os setores selecionados estão “indústrias sujas” como a metalurgia, a produção de cimento e fábricas de produtos químicos prejudiciais para essa região rica em biodiversidade.

O Ministério do Desenvolvimento da Rússia nega haver motivos para preocupação e insiste que todos os projetos respeitarão a legislação ambiental do país, que, segundo a própria pasta, é “uma das mais rigorosas do mundo".

Os ativistas não compartilham desse otimismo: ao longo da década de 2000 muitas leis ambientais foram suavizadas no país, e novas normais ambientais entrarão em vigor apenas em 2018 – prazo este que poderá ser adiado se houver pressão de grandes indústrias.

Além disso, as zonas econômicas especiais no Extremo Oriente do país, que receberão os investimentos chineses, têm uma regulamentação ambiental peculiar, com inúmeras exceções.

Economia x Meio ambiente

Há tempos a China enfrenta problemas ambientais de grande escala. Poluição do ar, erosão do solo e escassez de água são constantes, gerando uma onda de protestos espontâneos pelo país.

O governo não pode continuar ignorando essa questão. No ano passado, Pequim adotou um novo programa chamado Reforma Global do Processo Ecológico, que deve entrar em vigor este ano, durante a implementação do décimo terceiro plano econômico quinquenal do país.

Para limpar o ambiente, a economia da China vai passar por uma “mudança verde”, isto é, o governo vai estimular novas tecnologias ecológicas e reestruturar os setores de fabricação de produtos de elevado valor agregado.

Paralelamente, o governo chinês se comprometeu a cumprir uma série de obrigações internacionais sobre mudanças climáticas, que incluem a redução de emissões de CO2 em 60 a 65% até 2030, o que exigirá cortes na produção de energia a partir do carvão.

É possível atingir esses objetivos sem riscos econômicos adicionais?

Para manter a escala, talvez, só adotando o que grande parte dos países ocidentais já abraçaram como “reforma verde”, com a transferência de suas indústrias poluentes para países em desenvolvimento, incluindo China e Índia. À China, agora, bastaria seguir esse exemplo.

Investimentos chineses

Apesar do aumento dos investimentos chineses em praticamente todos os cantos do globo, o volume de intercâmbio comercial entre o Extremo Oriente russo e Pequim é muito pequeno.

O governo da província de Heilongjiang, no nordeste da China, declarou, em 2005, guerra contra a dragagem de ouro para proteger florestas e ecossistemas locais. Em poucos anos, todas as explorações de ouro na região foram congeladas. Como resultado, diversas empresas chinesas se mudaram para o Extremo Oriente russo, porque ali a legislação ambiental é menos rígida e as multas por danos ambientais são insignificantes.

As mudanças nas leis chinesas para a proteção da exploração florestal também aumentaram a pressão sobre os territórios russos. O extremo oriente do país é muito rico em recursos naturais, possui espécies raras, florestas intactas, minerais ricos e solo não poluído.

Os ambientalistas insistem que essa região não se torne um lugar de transferência de tecnologias com instalações de fabricação sujas. Para evitar isso, o governo deve fazer esforços adicionais, como a adoção de uma lei para melhorar os procedimentos de controle do impacto ambiental de atividades industriais, a ampla divulgação de informações sobre esses dados e a adoção de indicadores de eficiência energética e de poluição por parte de bancos estatais e fundos de investimento governamentais para a liberação de verbas.

Só por meio dessas medidas é que a Rússia será capaz de reduzir significativamente os riscos de uma transferência massiva de empresas chinesas para o extremo oriente do país.

Elena Fedichkina e Evguêni Chvarts trabalham na sede russa da WWF (Fundo Mundial para a Natureza, em inglês)

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