Alerta do mundo global

Gorbatchov: "Novo mundo global exige novas regras de comportamento, outro moral. E líderes mundiais não têm tempo para isso". Ilustração: Iorsh

Gorbatchov: "Novo mundo global exige novas regras de comportamento, outro moral. E líderes mundiais não têm tempo para isso". Ilustração: Iorsh

Gorbatchov discorre sobre a crise das lideranças e clama que Obama e Pútin se encontrem e resolvam diferenças.

Por que o mundo atual está irrequieto, injusto e militarizado? A cessação da confrontação global e as possibilidades sem precedentes das novas tecnologias deveriam trazer novos ares ao mundo, melhorar a vida de cada um. Mas a realidade é outra.

Não há uma explicação simples para isso. Aqueles que anunciaram "a vitória do Ocidente na Guerra Fria" e aqueles que se recusaram a formar um sistema novo e equânime de defesa, têm um grande quinhão de responsabilidade pela atual situação em que se encontra o mundo.

Mas o problema não está apenas aí. Até agora, o novo mundo global realmente não é compreendido ou interpretado. Ele exige novas regras de comportamento, um outro moral. E os líderes mundiais, visivelmente, não têm tempo para isso.

É justamente nesse motivo principal que se concentra hoje a "turbulência global".

Crise de liderança 

Para superar os problemas globais há tanto possibilidade como mecanismos - como a ONU e o G-20. Mas raramente alguém os classificaria hoje como eficientes. A todo tempo eles se atrasam, ficam para trás.

A crise de liderança está na cara. Os políticos são absorvidos pelo "apagamento de incêndios", pelas crises e conflitos da atualidade.

Não há discussões: é preciso resolver esses problemas. E nas últimas semanas miraram-se alguns progressos positivos.

Está ocorrendo um diálogo sobre a Síria. É verdade que, por enquanto, participam dele principalmente as partes externas, sobretudo EUA e Rússia. Mas isso já permitiu alguma atenuação das tensões nas relações da Rússia com o Ocidente.  

Não há progressos na resolução da crise na Ucrânia. Os mecanismos atuais de resolução (os acordos de Minsk, o "Quarteto da Normandia") têm funcionado mal. Eles precisam ser complementados e ter seu funcionamento estimulado. Talvez por meio da discussão no Conselho de Segurança da ONU, ou algum outro mecanismo com a participação da Rússia e dos EUA.

Não se pode deixar que a crise ucraniana vire uma inflamação, deixando febris a Europa e o mundo. A Europa pode não suportar ainda outro "conflito frio". Novamente clamo aos presidentes Obama e Pútin que se encontrem e discutam essa crise que se desenrola.  

Olhar para frente

A superação das agudas crises atuais será apenas o primeiro passo para a resolução de uma tarefa mais complexa: aprender a viver em um mundo global.

Os problemas globais da humanidade são:

- As armas de destruição em massa, a militarização da política mundial;

- A miséria e o subdesenvolvimento de enorme parte da humanidade;

- O desafio ecológico e a mudança do clima;

- O terrorismo.

Há ainda a migração em massa, a xenofobia e intolerância religiosa, o problema da coexistência de diferentes civilizações.

Nenhum deles pode ser resolvido por meio da força. Parece um axioma, mas é preciso unir as forças. Porém, por enquanto, o que predomina é a desunião e incapacidade de atuar em conjunto.

Os Estados e seus líderes têm a maior responsabilidade sobre isso. Surgiram também outros participantes nos processos mundiais: organizações da sociedade civil, empresas, sociedades científicas, associações religiosas. Mas o papel e a responsabilidade dos governos, de seus líderes, das organizações intergovernamentais deve se manter decisiva.

Política e moral

A relação entre governos deve regular não apenas as normas do direito internacional, mas também as regras de comportamento baseadas em princípios da moral humana geral.

Essas regras devem ter em vista a moderação, a consideração dos interesses de todas as partes, as consultas e mediação na escalação de situações e ameaça de crise. Seria possível evitar tanto a crise ucraniana como a síria, caso seus participantes diretos e as partes externas se guiassem por essas regras de comportamento.

Um código ético é necessário também para os veículos comunicação de massa. Esses, constantemente, são arrebatados pela paixão que contamina o meio das informações. Ao invés de auxiliar na cessação dos conflitos, eles realmente tomam parte em fomentá-los.

O importante é que os problemas da renovação da pauta mundial, da união moral e política, das regras de comportamento no mundo global precisam ser colocados no centro das atenções dos Estados e da sociedade civil mundial.

O papel da Rússia

O papel da Rússia na superação da crise da política mundial pode e deve ser importante e positivo. É hora de o Ocidente deixar as tentativas de tentar isolá-la. Isso nunca rendeu resultados. Em primeiro lugar, é preciso deixar as "sanções pessoais". De outro modo, não haverá diálogo ou chances para restabelecer a confiança. Todas as partes apenas sairão perdendo com uma nova Guerra Fria.

É preciso deixar de lado as emoções e os excessos propagandísticos. Podem-se apresentar queixas graves à atual geração de líderes dos principais países. Mas ela ainda tem chance de ocupar um lugar louvável na história. Seria um grande erro não usar essa chance.

Mikhail Gorbatchov foi o último presidente da URSS (1990-1991).  

Versão reduzida de material publicado originalmente pelo jornal Rossiyskaya Gazeta.

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