Troca de paradigma no aeroporto de Havana

Ilustração: Dmítri Divin

Ilustração: Dmítri Divin

Depois de várias tentativas fracassadas de reunir os líderes religiosos das igrejas católica e ortodoxa russa, encontro histórico foi anunciado para sexta-feira (12). Apesar de não encerrar divergências, reunião ensaia aproximação pelo bem comum.

Quase 20 anos atrás escrevi meu primeiro artigo sobre o encontro previsto, porém não realizado, na Hungria entre o então papa e o patriarca ortodoxo russo. Depois veio outra possibilidade na Áustria. Ao longo dos anos, e repetidas vezes, o Patriarcado de Moscou classificou os boatos de realizar a reunião como “infundados” ou se esforçou para explicar por que o encontro seria prematuro.

Na semana passada, o primeiro encontro histórico entre os líderes dos dois maiores corpos eclesiásticos do mundo foi finalmente anunciado: acontecerá na próxima sexta-feira (12) em um local curioso – no aeroporto de Havana. Afinal, por que essa reunião era impraticável há 20 anos e, de repente, torna-se possível agora?

A longa jornada começou com o papa João Paulo II, que tinha ânsia de se aproximar do Oriente cristão e cuja famosa máxima era de que “a Igreja [Católica Romana] deve respirar com seus dois pulmões”.

No entanto, essa mesma postura do papa polaco de avançar rumo a leste criou um problema para os ortodoxos russos. Na década de 1990, quando as restrições do Estado ateu soviético caíam por terra, a Igreja Ortodoxa teve um enorme crescimento e, ao mesmo tempo, competia contra uma legião de missionários estrangeiros. Entre eles, a Igreja Católica Romana não tinha o maior apelo, mas a rixa antiga com os ortodoxos ainda se sobressaia. 

A posição defensiva em que a Igreja Ortodoxa Russa se viu alimentou um forte movimento antiecumênico que fez pressão sobre a hierarquia para restringir seus laços com os cristãos não ortodoxos.

Surgiram também problemas pontuais à medida que o Vaticano restabelecia suas estruturas na Rússia. Mas a principal ferida era a Ucrânia, cuja parte ocidental, originalmente ortodoxa, foi convertida ao catolicismo quando o território fez parte da Polônia, em 1596. A Igreja Greco-Católica Ucraniana que ali criou raízes foi oficialmente subjugada ao Patriarcado de Moscou pelo Estado soviético, em 1946. Após a sua legalização, em 1989, uma fase distante do “espírito ecumênico” se seguiu quando os greco-católicos passaram a retomar suas propriedades, muitas vezes de forma violenta, em um processo que os ortodoxos descreveram como a destruição de suas três dioceses no oeste da Ucrânia.

Diante desse cenário, o Patriarcado de Moscou declarou ser impossível concordar com uma visita papal à Rússia e sugeriu uma reunião entre as igrejas em um país neutro a fim de se chegar a um acordo sobre a questão ucraniana. O convite, por sua vez, era impensável para o Vaticano, que não trairia seus fiéis na Ucrânia.

Isso não significa que não foram feitas outras tentativas para romper o impasse. Em 2006, uma conferência em Viena copresidida pelo então metropolita Kirill e o cardeal Paul Poupard definiu uma nova agenda para as relações bilaterais: o testemunho comum dos valores cristãos tradicionais em uma Europa cada vez mais secularizada. Os contatos nesse âmbito se intensificaram quando o metropolita Kirill, o “secretário de Relações Exteriores” da Igreja Russa, se tornou patriarca em 2009. Mesmo assim, o histórico e tão aguardado encontro ainda estava longe de acontecer, especialmente depois que a turbulência na Ucrânia reacendeu as posições políticas da igreja no país.

A reunião em Cuba é, portanto, resultado de uma mudança total de paradigma. Os problemas na Ucrânia continuam sem solução e são uma “ferida aberta que impede a total normalização das relações entre as duas igrejas”, disse o metropolita Hilarion, chefe oficial de relações externas do Patriarcado de Moscou, na semana passada. Mas a catástrofe de cristãos no Oriente Médio e no norte da África exigem medidas urgentes. “Na atual situação trágica, é necessário colocar de lado as divergências internas e unir esforços para salvar o cristianismo nas regiões onde ele é submetido a uma perseguição grave”, acrescentou o metropolita.

O fato de o encontro acontecer em um aeroporto bem distante do tradicional campo de batalha das duas igrejas na Europa enfatiza também a nova agenda global e sua urgência. As questões teológicas que separam as igrejas não podem ser discutidas em duas horas. É fácil prever que a declaração conjunta, que será então assinada pelos pontífices, irá ignorar a questão da Ucrânia ou se limitar a um clamor geral por paz. Ainda assim, trata-se de um encontro histórico, pois será um testemunho comum das duas maiores igrejas do mundo, que, embora divirjam há séculos, ainda não conseguiram esgotar os seus conflitos terrenos.

Andrêi Zôlotov, premiado jornalista e observador russo, trabalha atualmente como editor-executivo para Europa do “Russia Direct”. Também é um dos membros-fundadores do clube de discussão Valdai.

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