Quando um não quer, dois não jogam

Ilustração: Iorsh

Ilustração: Iorsh

Observador avalia os limites da nova escalada do conflito entre a Rússia e a Turquia – e chega a uma conclusão um tanto desanimadora.

O ritmo da escalada da tensão nas relações russo-turcas está crescendo sem controle. No último dia 30, a Turquia voltou a acusar as Forças Aeroespaciais russas de violar o seu espaço aéreo. Por uma “medida de retaliação”, Ancara decretou nível laranja de alerta, o que permite à aviação turca abrir fogo sem recorrer a ordens superiores. O comando militar russo, por sua vez, negou categoricamente que a violação do espaço aéreo turco tenha ocorrido.

Novo abate?

Erdogan é um político que, diante de situações difíceis, prefere arriscar, aumentando cada vez mais o valor da aposta. A sua autonomia vem se tornando visivelmente irritante até mesmo para os norte-americanos. Após o último incidente com a aeronave russa, a Otan, embora expressando solidariedade com a posição turca, apelou para a contenção de ambas as partes.

E o que acontecerá se não houver contenção? Poderão os turcos abater outro avião russo?

Para eles, será mais difícil fazer isso agora do que foi em novembro do ano passado, quando se deu o incidente com o bombardeiro Su-24. Ao redor da base aérea russa em Latakia, na Síria, já está instalado o sistema de defesa aérea S-400, e com ele também foi reforçada a chamada zona de exclusão aérea no norte do país: quem entrar nessa zona sem autorização estará sob risco.

Apoio (limitado) da Otan

A situação se complica ainda mais pelo fato de as unidades turcas, ao que tudo indica, terem resolvido intensificar suas operações terrestres na Síria não com o objetivo de combater o Estado Islâmico (EI), mas para minimizar os êxitos das milícias curdas no norte do país. Será que os turcos aceitarão conduzir as operações terrestres sob a ‘zona de exclusão aérea’? Parece-me difícil.

Enquanto Moscou conseguiu estabelecer com a aviação norte-americana uma interação nos céus da Síria desde o início da operação, a situação com os militares turcos é bem diferente. Todos os contatos foram rompidos depois do incidente com o Su-24 russo, de modo que o perigo de um confronto, mesmo que acidental, só cresce.

Em caso de confronto com a Rússia, a Turquia conta, naturalmente, com a solidariedade da Otan. No entanto, isso não significa que todos os membros da Aliança estejam encantados com a perspectiva de se verem reféns do arriscado jogo de Erdogan. Os seus objetivos estratégicos estão longe de coincidir com as intenções dos EUA e seus parceiros ocidentais, como no caso do flerte dos serviços secretos e políticos turcos com o EI e nas sérias divergências entre turcos e norte-americanos quanto ao papel dos curdos na luta contra os radicais islâmicos.

Panela de pressão

Ancara chantageia quase que abertamente a União Europeia, ameaçando despachar à Europa centenas de milhares de refugiados se esta não abrir concessões. E nem mesmo os 3 bilhões de euros prometidos pela chanceler alemã Angela Merkel para manter os refugiados sírios na Turquia (onde há atualmente mais de dois milhões de refugiados) não são suficientes para o governo local.

Enquanto isso, a liderança turca volta a fazer alusões à retomada das negociações para adesão do país à UE, além da implementação de um regime de isenção de vistos já para este ano. Estamos falando, porém, de um imenso país muçulmano, com 80 milhões de habitantes, onde se amontoam milhares de refugiados – uma realidade bem distante do ‘sonho’ europeu!

Se não fosse o bastante, recai sobre a Turquia – por enquanto, informalmente – a acusação de, no mínimo, encobrir terroristas internacionais. Além do abate do bombardeiro russo, em novembro de 2015, uma fonte anônima dos serviços secretos russos declarou recentemente à imprensa que as evidências do ataque terrorista ao avião civil russo no Egito, também no ano passado, apontam para a organização terrorista turca Lobos Cinzentos. Caso as acusações sejam corroboradas por novos provas, a posição de Erdogan no Ocidente ficará ainda mais comprometida.

Mas nada disso é capaz de deter o presidente turco e evitar que ele embarque em novas operações de risco, inclusive militares, apoiando-se na força do Exército nacional. Essa postura, porém, não obriga as Forças Aeroespaciais Russas a recolher os seus pertences na Síria e regressar para casa com medo das ameaças turcas – elas ainda não concluíram o seu trabalho por lá. Além disso, Pútin não faz parte da classe de políticos que se assustam quando estão sob pressão.

Geórgui Bovt é membro do Conselho para a Política Externa e de Defesa.

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