As crises de imigração e o Imperialismo

Ilustração: Dmítri Dívin

Ilustração: Dmítri Dívin

Assim como zona Schengen perdeu livre circulação, União Econômica Eurasiática aos poucos se esfacela.

Nos últimos anos, Rússia e União Europeia enfatizam suas diferenças, especialmente as de valores. Mas em pelo menos uma área nossos problemas e soluções são similares: a de migração e controle de fronteiras.

O dilema dos refugiados ucranianos na Rússia não ficou sob o foco da mídia internacional como o drama dos sírios e africanos que têm chegado em grandes números à UE. Mas as situações são equiparáveis. Desde abril de 2014, 404 mil cidadãos ucranianos pediram asilo na Rússia e 265 mil solicitaram status de residentes, de acordo com o Serviço Federal de Migração da Rússia. Com capacidade limitada para absorver imigrantes, a Rússia está agora sobrecarregada pela entrada dos migrantes econômicos provenientes da Ásia Central e do Cáucaso.

A ausência de barreira linguística e cultural é uma das razões para a absorção dos ucranianos do leste no país. Segundo o VTsIOM (Centro de Estudos de Opinião Pública), esses conseguiram encontrar moradia e trabalho com certa facilidade, e a atitude dos russos para com eles é, em geral, positiva.

O fato de os ucranianos terem gozado, por um longo período, do direito de permanecer no país vizinho sem registro ou status de refugiado também colaborou na absorção. Mas, com a crise na imigração, a regalia foi cancelada não apenas a ucranianos, como a uzbeques e azeris.

A posição do governo russo é muito semelhante à de governos europeus, que passam a restringir a entrada de refugiados sírios, mesmo expressando solidariedade às vítimas do EI (Estado Islâmico) ou do governo Assad.

Muitos lamentam que as novas necessidades tenham levado à restrição da liberdade de circulação de pessoas entre os países-membros da UE. Um novo controle de fronteiras já foi restabelecido entre a França e a Itália, a Áustria e alguns vizinhos dos Bálcãs, e até Dinamarca e Suécia.

Entre Rússia e ex-repúblicas soviéticas, um projeto equivalente ao da zona Schengen também vinha sendo levado a cabo: a União Econômica Eurasiática, que pressupunha a livre circulação de produtos, capital e força de trabalho. Quando revelado, ainda em 2011, o projeto levou à ideia de que se circularia entre os países com tanta liberdade quanto durante a era soviética.

Mas a Rússia já estabeleceu regimes de visto com dois membros da CEI (Comunidade dos Estados Independentes). Ainda em 1998, por iniciativa própria, o Turcomenistão instituiu um sistema de vistos com outras ex-repúblicas soviéticas; após conflitos com a Rússia, a Geórgia seguiu o exemplo em meados dos anos 2000. Moscou, por sua vez, restringiu a entrada de azeris, uzbeques e tadjiques, as três nacionalidades que mais migram para o país; enquanto os cidadãos do pequeno e pobre Quirguistão não viram condições muito melhores, mesmo com a entrada na União Econômica Eurasiática, em 2014.

Assim, no quesito migração, a Rússia continua bastante europeia: atraente, mas, ao mesmo tempo, assustadora para os habitantes de suas “ex-províncias”, seduzindo e repelindo esses cidadãos. Aqui, mesmo a existência de uma língua comum significa tanto união, como inimizade, exatamente como no caso da Inglaterra, França e Portugal imperialistas.

Dmítri Babitch é jornalista e colunista da agência de notícias RIA Nôvosti.

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