Reviravolta nas relações turco-russas

Ilustração: Dmítri Dívin

Ilustração: Dmítri Dívin

Derrubada de caça russo Su-24 rompe harmonia conquistada após histórico de tensões.

O incidente com o avião russo abatido pela Força Aérea da Turquia será um teste difícil para as relações bilaterais Moscou-Ancara. Até recentemente, políticos e especialistas consideravam-nas como um exemplo de sucesso diplomático entre países antes considerados inimigos históricos. Os problemas atuais não são, porém, repentinos e sem motivo aparente.

Nas palavras do conhecido especialista turco Bülent Aras, as relações turco-russas podem ser vistas como uma “parceria competitiva”. Em muitos assuntos políticos, os pontos de vista de Moscou e Ancara não coincidem. Isso é válido para os conflitos de Nagorno-Karabakh e da Geórgia, cuja integridade territorial não é questionada pelos políticos turcos. E, embora as não tenham se pronunciado abertamente acerca da Crimeia, as autoridades turcas mostram um, digamos, ceticismo cauteloso em relação à integração da península à Rússia.

Durante muito tempo foi possível travar as diferenças graças ao desenvolvimento de relações econômicas mutuamente proveitosas. Parecia que o pragmatismo continuaria deixando para segundo plano a controvérsia e as discussões de temas políticos, ainda mais tendo em conta que a relação do líder político turco da última década, Recep Tayyip Erdoğan, com os Estados Unidos e a União Europeia deixava muito a desejar.

Por um lado, Ancara demonstra insatisfação diante das relações de Washington com os movimentos curdos no Oriente Médio. Por outro, a persistência da Turquia para uma possível integração à União Europeia não é recebida com particular entusiasmo por parte de Bruxelas. Além de as partes não saírem de um impasse quanto à questão do Chipre, o “mapa curdo” no território da Turquia também desperta dúvida na UE sobre aceitar Ancara em suas fileiras.

Além disso, Turquia é o único país-membro da Otan que recebeu estatuto de parceiro de diálogo no âmbito da Organização de Cooperação de Xangai (SCO, na sigla em inglês).

Em suma, a Rússia e a Turquia concordavam em discordar em alguns pontos, mas não cruzavam as “linhas vermelhas” nem punham sob questão a necessidade de maior cooperação econômica. Prova disso foram as negociações para a implementação do projeto Turkish Stream, cujo objetivo é reduzir a dependência russa em relação à Ucrânia como país de trânsito de gás rumo à Europa.

Embora a lógica do “concordar em discordar” tenha começado a ruir este ano, as origens devem ser buscadas nos acontecimentos de 2011, quando o Oriente Médio entrou na chamada Primavera Árabe. Se em Moscou esse acontecimento foi visto como um desafio perigoso associado ao colapso do Estado secular e ao fortalecimento do fundamentalismo islâmico, associado ao receio de sua exportação para os Estados pós-soviéticos e para a própria Rússia, a Turquia acompanhou os fatos como uma oportunidade de se voltar para a região, fato que Ancara há muitos anos não apresentava como prioridade.

Veio então o apoio turco ao líder da Irmandade Muçulmana egípcia, Mohamed Morsi, uma guinada acentuada de críticas a Israel e a palestinofilia política, assim como a luta contra o regime do presidente sírio Bashar al-Assad. Em outras palavras, Ancara passou a imagem de “vizinho próximo” aos países do Oriente Médio.

Como resultado, as duas forças eurasiáticas – Rússia e Turquia – seguem diferentes óticas políticas. Para Moscou, a principal ameaça na Síria é o Estado Islâmico e o colapso do Estado laico, enquanto Ancara teme que curdos e alauítas reforcem suas posições e seus “clientes” sejam derrotados, diminuindo a influência turca na região.

Não há dúvidas de que, a princípio, o abate do avião compromete as relações entre os dois países. Para cada um deles está em jogo prestígio e compreensão das perspectivas para sair da situação atual. A situação mudará – e ficará mais evidente. Tanto em Ancara como em Moscou os ânimos estão em alta. Mas o cenário não é tão obscuro.

Em primeiro lugar, as partes já têm alguma experiência em sair de situações complexas e nenhum dos lados quer ajudar terceiros por meio do enfraquecimento mútuo. Além disso, a própria Turquia entende que, apesar da antipatia por Assad, a desestabilização no país vizinho pode se virar com efeito bumerangue contra a própria sociedade turca: no interior do país existe um sentimento islâmico radical em ascensão, e seus seguidores estão prontos para pegar em armas contra Erdogan, independentemente de suas relações com a Rússia. Inclusive, se essas se romperem, Erdogan não tem garantidos o perdão e o apoio dos radicais. Isso nos dá uma esperança tímida de que ambos os lados encontrarão algum tipo de modus vivendi sob novas e difíceis condições.

Serguêi Markedonov é professor do departamento de Estudos Regionais Estrangeiros e Política Externa da Universidade Estadual Russa de Humanidade

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