Doping, esportes e sanções

Ilustração: Dmítri Dívin

Ilustração: Dmítri Dívin

Comentarista relembra precedentes políticos nos esportes em um mundo polarizado.

O escândalo do doping de medalhistas russos já resultou na punição dos atletas que fizeram uso de substâncias ilegais, mas também pode culminar com a proibição de que a Rússia participe das Olimpíadas do Rio 2016.

A IAAF (da sigla em inglês, Associação Internacional de Federações de Atletismo) votou pela suspensão temporária da equipe russa de atletismo em todos os eventos esportivos por 22 votos contra um. A punição é sem precedentes na história do doping no atletismo.

Assim, após a decisão do conselho do IAAF, tomada no último dia 13, atletas que nunca fizeram uso de substâncias proibidas e que são, obviamente, a maioria, estão privados de competir no Campeonato Mundial de Atletismo em Pista Coberta, decepcionando uma multidão de fãs.

Sua participação nas Olimpíadas ainda poderá ocorrer, caso a suspensão seja levantada a tempo. Mas a questão também está ligada ao orgulho nacional russo. Uma superpotência esportiva, o país recentemente hospedou as Olimpíadas de Inverno de Sôtchi, em fevereiro de 2014, que custaram US$ 50 bilhões.

“Em três meses iremos nos apresentar novamente à federação internacional em conformidade com suas práticas. Esperamos que nosso time seja reintegrado”, disse o Ministro dos Esportes da Rússia, Vitáli Mutko, mostrando determinação para reforçar o controle antidoping e se adequar às regras do IAAF para sua equipe de atletismo poder estar no Rio em 2016.

O recado foi reiterado por Alexander Jukov, diretor do Comitê Olímpico Russo. “O Comitê Olímpico Russo está convencido de que os atletas que não tenham usado tais substâncias devem participar dos Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro. Enquanto isso, todos os que estiveram envolvidos com o uso de substâncias ilícitas, e também aqueles que facilitaram o acesso a essas, deverão ser plenamente responsabilizados”, disse.

Seletividade x generalização

Embora os esforços para defender a integridade no esporte sejam louváveis, há quem levante questões sobre a condenação generalizada da Rússia.

É preciso notar que as revelações divulgadas em 2014 no documentário de TV "Das Erste", transmitido pelo canal alemão ZDF/ARD, e pelo jornal "The Times", de Londres, sobre os “resultados de exames de sangue altamente suspeitos” faziam menção aos atletas de “todo o mundo”, sem qualquer foco específico nos russos.

Levando-se em conta a indignação da mídia ocidental, a Rússia, como nação, deve ser repreendida pelas supostas trapaças cometidas - com a conivência do governo, em um laboratório cujos funcionários foram subornados para acobertar testes com os resultados desejados.

O novo escândalo do doping russo chega para acrescentar mais um capítulo a um debate que já dura décadas sobre os limites entre esportes e política.

No auge da Guerra Fria, houve tentativas de sabotar o esporte e relacioná-lo a uma agenda política de rivalidade entre superpotências.

Um dos casos mais emblemáticos foi o boicote dos Estados Unidos às Olimpíadas de Moscou de 1980. A justificativa foi a incursão soviética no Afeganistão um ano antes.

Três anos depois, o presidente norte-americano Ronald Reagan ainda batizaria a União Soviética de “Império do Mal”, coroando um dos períodos mais tensos da Guerra Fria.

A réplica de Moscou foi sua retirada dos Jogos Olímpicos de Verão de 1984, em Los Angeles, com 16 aliados soviéticos aderindo ao boicote.

Esporte x política

Alguma das partes ganhou algo com essa estratégia? Não se sabe. O que é evidente é que o esporte foi prejudicado.

“O boicote soviético foi uma decepção enorme, pois significou que os atletas estavam sendo duplamente punidos. Foi como o boicote dos EUA nos Jogos Olímpicos de 1980: os atletas foram os únicos penalizados”, disse, então, a vice-presidente do Comitê Organizador das Olimpíadas de Los Angeles, Anita DeFrantz.

No caso de 1980, a Associação Olímpica Britânica ignorou a carta da premiê Margaret Thatcher pedindo a adesão ao boicote liderado pelos EUA. A associação votou pelo envio dos atletas britânicos a Moscou, inclusive nas modalidades em que esses mais se destacam, como a natação, o iatismo, a equitação e a esgrima.

Passados 35 anos, a mensagem proferida pelo então presidente da associação, Denis Follows (1908-1983), ainda é poderosa: “Acreditamos que o esporte deva ser conciliador, e não segregador".

Vladímir Mikheev é um jornalista moscovita. Foi repórter do jornal Izvêstia e colaborador da BBC.

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