Não somos inimigos

Ilustração: Dmítri Dívin

Ilustração: Dmítri Dívin

Coalizão internacional proposta por Moscou ensaia reaproximação com EUA e UE, mas ainda enfrenta resistência da outra parte.

Em declarações nos últimos meses, o presidente Vladímir Pútin tem proposto uma nova agenda para as relações entre a Rússia e os EUA. Em Nova Iorque, Moscou e mais recentemente em Sôtchi, durante a reunião do Clube Valdai, composto por observadores selecionados, Pútin convocou a comunidade mundial a se concentrar em dois objetivos: a criação de uma ampla coalizão internacional contra o Estado Islâmico (EI) e o restabelecimento da governabilidade na Líbia, no Iraque e na Síria. Os EUA, entretanto, rejeitaram a proposta e agora se estão em uma nova posição – em vez de tomar a iniciativa, Washington precisa reagir às ações de Moscou.

Nos discursos do presidente russo, nota-se menos indignação em relação a arbitrariedades dos Estados Unidos e da União Europeia em assuntos internacionais. Parece que a Rússia deixou de lado as tentativas de dar ressonância aos apelos contra revisionistas e oportunistas – o país age agora no sentido de restaurar o statu quo em regiões que lhe parecem importantes.

A “atuação prática” de Moscou na questão síria coloca os russos em uma posição favorável, pois podem agir, sem depender da opinião dos outros  países, na luta contra o EI. A Rússia criou uma coalizão internacional, da qual participam apenas os parceiros interessados na vitória. Diferentemente da oposição síria, na qual os EUA e a UE depositam suas esperanças, os aliados ao Kremlin – Síria, Iraque, Irã e voluntários curdos – lutam de verdade contra o grupo fundamentalista. Durante quatro anos, sustentaram essa luta sem apoio externo; agora, com a ajuda russa, as suas chances de vitória aumentam visivelmente.

No encontro entre Pútin e Obama durante a Assembleia Geral da ONU, no final de setembro, foi discutido, acima de tudo, justamente o conflito na Síria. Os dois lados concordaram em “continuar a ação conjunta”, seja lá o que isso queira dizer. O mais importante é que o comando militar de ambos os países receberam ordem de discutir detalhes de uma operação conjunta.

Embora o entendimento mútuo ainda não tenha resultado em qualquer ação concreta, a Rússia não pretende interrompê-lo. Isso porque, por um lado, Moscou confia na ação conjunta de países que realmente lutam de modo positivo contra o EI e, por outro, os norte-americanos não têm condições de encontrar parceiros na região do conflito com quem possam agir conjuntamente. Nessa etapa das negociações, surgiu, porém, um tema polêmico entre as partes.

A segunda meta exposta nas últimas declarações de Pútin é a necessidade de restaurar a governabilidade nos territórios da Líbia, da Síria e do Iraque onde reinam atualmente o caos e a anarquia. A Rússia foi a primeira a propor uma solução para o problema dos refugiados do Oriente Médio, e isso deve se refletir nas capitais europeias que sofrem com a crise dos imigrantes. A receita, na verdade, não é nada simples: não será fácil recuperar a governabilidade nas regiões em que ela foi destruída, às vezes por causa de ativa intervenção externa. 

Em meio a tantas dificuldades, um resultado parcial da colaboração entre a Rússia e os EUA foi o memorando, no meio de outubro, que define uma distância segura entre os aviões de ataque no espaço aéreo da Síria. O acordo propõe ainda o estabelecimento de uma operação conjunta entre os comandos militares dos dois países e ajuda mútua em possíveis situações de crise. 

No entanto, essa coordenação não pressupõe colaboração integral e tem caráter extremamente limitado. Ela não implica em troca de informações entre os serviços de espionagem nem em apoio dos EUA à política russa na Síria. Washington se recusa a colaborar massivamente com  Moscou no país árabe por receio de despertar a insatisfação de seus parceiros no Golfo Pérsico, além de não querer fortalecer as posições russas na região. Se não bastasse, os EUA enfrentam problemas na definição de estratégias regionais complexas, e isso atrasa as suas decisões.

A Rússia, por sua vez, aceita como inevitável a existência de discordâncias insuperáveis com os EUA e a Otan e não considera que elas sejam um obstáculo às ações em defesa dos interesses nacionais. Ao que tudo indica, Moscou, pela primeira vez, concorda com o tipo de relação proposta por George W. Bush a Pútin: “Não somos inimigos, façam o que querem e nós faremos o que queremos”. O Kremlin está realmente fazendo o que considera necessário, ainda que os EUA e a UE recebam isso com desaprovação. Antes, Moscou vinha tentando convocar os parceiros a construir “um espaço de segurança igualitária e indivisível” a partir das posições mais fracas. Vejamos o que vai acontecer agora. Afinal, realmente não somos inimigos.

Andrei Suchentsov é professor no Instituto Estatal de Relações Internacionais de Moscou e diretor do Clube Valdai

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