Estado Islâmico representa ameaça para o Cáucaso

Ilustração: Iorsh

Ilustração: Iorsh

Próxima a reduto do EI, região pode enfrentar invasão de ex-combatentes.

Criado para evitar a formação de um cinturão xiita na região do Irã, Iraque, Síria e Líbano, o Estado Islâmico (EI) pode enfrentar dois cenários possíveis no futuro: ou se torna um Estado de pleno direito, ou – o mais provável – entra em colapso após o fim do financiamento externo. Ambos os casos representam uma ameaça para a Rússia.  

No primeiro, há a ameaça da formação de uma organização agressiva, capaz de exportar o extremismo a outras regiões, incluindo a Ásia central, os Balcãs e o Cáucaso do Norte. No segundo cenário prevê-se o aparecimento de uma legião de “insurgentes abandonados” que vagarão mundo afora, inclusive retornando ao Cáucaso, em uma situação semelhante à ocorrida no início dos anos 1990, após a guerra no Afeganistão.

O surgimento e crescimento do Estado Islâmico (EI) deve ser avaliado em um contexto geopolítico. A organização surgiu como um instrumento de contenção do Irã e hoje disputa recursos humanos e financeiros na região do Oriente Médio.

Ideologia perigosa

No entanto, devemos admitir que ainda não há uma ameaça imediata ao Cáucaso. Mesmo diante de declarações belicosas de alguns “senhores da guerra”, não se pode dizer que a região hoje enquadra-se na expansão direta do EI. Os principais esforços dos jihadistas estão concentrados na Síria e Iraque, e as chamadas células do EI em outros países são apenas subprodutos de algum grupo local que deciciu usar uma “marca” popular.

O que é realmente perigoso para o Cáucaso não é o EI propriamente dito, mas a sua ideologia, capaz de inspirar a juventude muçulmana local. Alguns grupos no Cáucaso do Norte juraram lealdade ao EI e tentam conduzir ataques armados para atrair a atenção de patrocinadores estrangeiros.

É necessário tomar as devidas precauções contra o influxo de militantes vindos do Oriente Médio. Atualmente, as fileiras do EI contém, segundo algumas fontes, cerca de 3.000 jihadistas de língua russa. Um dos colaboradores mais próximos do califa Abu Bakr al-Baghdadi al-Omar Shishani é nativo da Geórgia. Outras fontes afirmam que os chechenos compõe o núcleo principal do EI. Com ajuda de financiamento externo, isso pode levar à criação de uma perigosa rede subversiva jihadista armada. Na Rússia o assunto vem sendo tratado com a maior seriedade, e o presidente da Chechênia, Ramzan Kadyrov, propôs a revogação da cidadania de quem se juntar ao EI.

Ao que parece, as repúblicas russas da Inguchétia e do Daguestão, juntamente com a vizinha Geórgia, particularmente a região do desfiladeiro de Pankisi, são os locais mais suscetíveis ao retorno de extremistas. Todavia, é improvável que militantes do EI consigam assumir permanentemente o controle de alguma parte da Federação Russa, já que Moscou possui uma força militar capaz de se opor a eles. A questão é saber se outros países da região conseguirão combatê-los.

Como combater

A princípio, o EI existe somente em condições bastante específicas: regime impopular, conflitos étnicos ou comunais, presença de uma grande massa de jovens descontentes, excesso de armamentos, financiamento externo (no contexto de algum conflito regional) e atividades subversivas conduzidas por serviços especiais estrangeiros.

Há motivos suficientes para temer a presença de emissários e a divulgação da ideologia do EI no Cáucaso. A região é vulnerável  por conta de alguns dos fatores mencionados acima, além de estar geograficamente próxima do principal reduto do EI. O vice-secretário da Rússia no Conselho de Segurança, Ievguêni Lukianov, afirmou à imprensa que mais de 2.000 cidadãos russos, provenientes do Cáucaso do Norte e de outras regiões, há muito tempo combatem no Oriente Médio. E grande parte já voltou, atravessando a fronteira turca sob o disfarce de turistas que perderam seus passaportes.

As autoridades russas estão de modo geral cientes do fato de que, para combater os extremistas, deve-se acabar com os fatores que proporcionam o surgimento de um ambiente favorável a eles. Dessa forma, a Rússia está tentando atuar em duas frentes: na melhoria das condições dos jovens, apresentando-lhes outras perspectivas, e na intensificação de missões especiais de segurança, incluindo o intercâmbio de informações entre os países da região e um maior controle das fronteiras.

Nikolai Surkov é professor associado do Instituto Estatal de Moscou para Estudos Orientais.

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