O sonho brasileiro dos Mistral

Ilustração: Dmítri Dívin

Ilustração: Dmítri Dívin

País poderia ser receptor de navios que França não quer entregar à Rússia. Operação seria vantajosa para todas as partes, já que a França não ficaria com embarcações "encalhadas", Rússia teria certeza de que essas não cairiam nas mãos da Otan e Brasil estaria equipado à altura de suas ambições de liderança regional.

A história da relutância francesa em entregar os navios de assalto Mistral encomendados pela Rússia já dura quase um ano, mas parece ter evoluído um pouco.

No final das contas, o país não receberá os navios e será indenizado - o valor foi finalmente acertado.

Resta apenas definir a quem vender as embarcações, que foram construídas com  participação russa e levando em conta as exigências e necessidades da marinha do país.

Entre os possíveis compradores, a imprensa já citou China, Canadá e até Estados Unidos.

Na semana passada, no entanto, durante uma apresentação do analista militar Robert Farley, professor da Escola de Diplomacia Patterson, o Brasil também passou a integrar a lista de pretendentes.

Todos ganhariam com a ideia: o Brasil aumentaria substancialmente a capacidade de sua Marinha, a França poderia se livrar dos Mistral "encalhados" e a Rússia poderia assim equipar as embarcações brasileiras com armamentos e helicópteros.

Utopia benéfica

Atualmente, a frota militar de transporte brasileira não corresponde às ambições do país de liderança regional.

Após a retirada de uso, em 2012, do navio de desembarque de doca "NDD Rio de Janeiro", a Marinha do país ficou apenas com quatro navios de transporte, construídos nas décadas de 1950 e 1960.

O Mistral pode transportar, além de 16 helicópteros, cerca de 13 tanques, 50 veículos blindados e 450 fuzileiros navais. Um navio desses na Marinha brasileira aumentaria substancialmente sua capacidade não só para conduzir operações no Atlântico Sul, mais especificamente na proteção da plataforma continental e de seu setor na Antártica, mas também para desembarcar forças em qualquer lugar do mundo.

Brasil experimentado

Além das dimensões quase idênticas do Eurocopter Tiger (helicóptero que vem originalmente com o Mistral francês) e do Ka-52K, a embarcação russa tem o dobro de massa de deslocamento máxima, o que lhe permite transportar mísseis antinavio X-35. O Brasil já tem experiência com a operação dos helicópteros SH-3 Sea King, que transportavam os mísseis franceses antinavio Exocet.

A exploração da moderna embarcação, com a instauração de um sistema de base portuária para ela e a possível transferência de tecnologia para sua manutenção, poderia ser útil ao Brasil concretizar os planos de construção de seu próprio porta-aviões, anunciados no ano passado pelo então ministro da Defesa, Celso Amorim.

O rumo dado às embarcações Mistral “russas” - que representaria um desafio significativo caso incorporados pela Marinha dos países da Otan - seria benéfica, caso essas fossem direcionadas ao Brasil.

Com o casco reforçado até a classe de embarcação quebra-gelo, os navios podem ser usados na Antártica, e as armas suplementares que transportam permitem reduzir o número de navios de escolta.

Dados os antecedentes do navio, a França, provavelmente, concordaria em reduzir o preço a um novo comprador e lhe propor um vantajoso sistema de financiamento para a concretização do negócio.

Caso o Brasil comprasse os navios da classe Mistral, precisaria equipá-los com helicópteros que pudessem dar apoio às tropas e impedir submarinos ou navios inimigos.

Nesse caso, o país poderia adquirir ainda o helicóptero coaxial russo Ka-52K, projetado justamente para uso em navios. E as embarcações Mistral “russas” foram modificadas serem usadas em conjunto com esses helicópteros.

Esquema coaxial

O uso do esquema coaxial é tradicional para a aviação russa com base no mar. Isso se deve à limitação de espaço no navio e aos ventos e balanço do mar, sempre presentes nos voos marítimos. Devido à viga traseira curta utilizada no esquema coaxial e à inexistência de hélice na cauda, esse tipo de helicóptero requer menos área para decolagem. A par com isso, o esquema coaxial permite realizar voos em qualquer direção, inclusive com vento soprando angularmente. Essa última característica é particularmente importante no momento em que o aparelho pousa no convés do navio.

Para tanto, aumentou-se a altura do ‘twin deck’, o espaço entre os conveses, e foram feitas alterações na abertura dos elevadores que conduzem os helicópteros para o convés superior.

Os helicópteros russos são menos compridos, porém mais altos. A altura dos helicópteros tradicionais é contabilizada pelas pás da hélice traseira - que podem ser montadas ou desmontadas na variante adaptada ao navio. Já a altura dos helicópteros coaxiais depende da estrutura que fixa as pás das hélices principais aos pratos oscilantes, os quais não podem ser reduzidos na sua "variante dobrada".

O Brasil já negocia com a Rússia a compra de helicópteros de ataque Mi-28NE ou Ka-52. Caso a escolha seja pelo último, o Brasil poderia obter o mesmo tipo de helicóptero para o Exército e a Marinha. A Rússia, por sua vez, ganharia um comprador e um parceiro tecnológico para o desenvolvimento do programa do Ka-52.

Resumindo, a transação seria vantajosa não apenas para França e Brasil, mas também para a Rússia.

Dura realidade

Seguindo o discurso Robert Farley, pode-se ficar com a impressão de que o obstáculo do preço é transponível.

Mas vale lembrar que o contrato para fornecimento dos navios Mistral à Rússia era da ordem de 1,2 bilhão de euros.

Além desse valor, seria necessário capital para a criação de infraestrutura (base portuária e oficina), para a aquisição de helicópteros, para a manutenção obrigatória etc.

Apenas os Ka-52K custam pelo menos US$ 20 milhões cada, e só o orçamento para aquisação de helicópteros significaria um acréscimo de mais de US$ 320 milhões.

A Rússia tem um orçamento militar quase três vezes maior que o do Brasil, e mesma para essa a compra dos navios Mistral era um fardo muito pesado.

Além disso, não é segredo que o orçamento militar do Brasil sofreu cortes que chegaram a levar a um atraso na assinatura do contrato para o fornecimento dos caças suecos Gripen.

Já os russos também não veem com grande otimismo a possibilidade dessa transação se efetuar, com a histórica dificuldade na questão da transferência de tecnologia e das operações de financiamento.

Como resultado, até o momento, o sucesso dos negociantes de armamento russo no Brasil resume-se à venda dos sistemas portáteis de lançamento de mísseis terra-ar Igla e um contrato de fornecimento de 12 helicópteros Mi-35M, que se mostra tortuoso devido ao longo período de execução.

As perspectivas do Pantsir-1S e de helicópteros de ataque são agora mais que vagas - isso sem contar os hipotéticos Ka-52K.

Assim, pode-se constatar que a venda dos navios Mistral ao Brasil não é nada mais que uma ideia - atraente, sim, porém utópica.

 

Aleksandr Korolkov é doutor em História.

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