Aniversário da tragédia (e de mentiras)

Um ano depois, acidente com voo MH17 ainda é ofuscado por guerra de palavras Ilustração: Mikhailenko

Um ano depois, acidente com voo MH17 ainda é ofuscado por guerra de palavras Ilustração: Mikhailenko

O debate em torno da criação de um tribunal internacional para lidar com o caso do Boeing malaio, abatido enquanto sobrevoava a Ucrânia há um ano, é confrontado com a falta de informações precisas sobre as circunstâncias do acidente.

Em 17 de julho do ano passado, há exatamente um ano, aconteceu uma das mais terríveis tragédias do conflito – ainda em curso – na Ucrânia. Uma aeronave da Malaysia Airlines, que fazia o voo MH17, entre Amsterdam e Kuala Lumpur, foi abatida da cidade de Torez, na região de Donetsk. Todas as 298 pessoas a bordo morreram.

Nos países ocidentais, assim como na Ucrânia, a opinião pública se convenceu desde o início de que os culpados da tragédia eram ‘combatentes pró-Kremlin’, isto é, a milícia de Donbass, ou a própria Rússia. Não está excluída a hipótese de a investigação oficial confirmar tal versão, mas, por enquanto, não se pode afirmar o que, de fato, aconteceu.

Enquanto o inquérito não chegar ao fim, tudo o que temos são declarações fragmentadas, muitas vezes com grade carga política e emocional, das várias partes envolvidas na investigação.

O primeiro-ministro da Malásia, Najib Razak, declarou que a investigação está próxima de indicar os responsáveis pela tragédia, mas evitou citar nomes. Por enquanto, apenas alguns especialistas de diferentes países receberam uma versão preliminar do relatório.

Dessa versão, o público só as informações liberadas pela emissora CNN, que cita fontes não identificadas. Em sua reportagem, o canal norte-americano coloca os ‘combatentes’ como acusados, mas o documento em si não é apresentado.

Percebe-se, então, que a opinião pública internacional teve que se contentar com comunicados oficiais, nem sempre fundamentados, de governos com objetivos concretos em relação à guerra na Ucrânia.

A segunda fonte de informação mais importante são as “anônimas”, não raras vezes falsas ou baseadas em material parcialmente editado de redes sociais e opiniões de especialistas que tiram conclusões com base em “dados disponíveis”.

Em todas as guerras, todas as partes mentem. No conflito ucraniano mentem não só os participantes diretos, como o governo ucraniano e a milícia de Donbass, mas também os países ocidentais que os apoiam e a própria Rússia.

Mas nunca antes a opinião pública ocidental, tradicionalmente livre e criteriosa, perdeu tanto do seu senso crítico na avaliação de um caso. Isso é surpreendente até para nós, russos, que (muitas vezes com razão) somos criticados pela falta de liberdade de expressão em nosso país.

Sim, os canais televisivos oficiais emitem regularmente versões oficiais e antiucranianas, mas existe também uma oposição maciça na imprensa escrita que apresenta pontos de vista ucranianos e ocidentais.

Nós, pelo menos, podemos comparar.

O nível de senso crítico da opinião pública ocidental é um fator que pode parar a guerra – ou empurrá-la para mais derramamento de sangue.

Depois da tragédia, a comunidade internacional deveria ter feito tudo para que, pelo menos temporariamente, as investigações parassem a guerra. Em vez disso, o Ocidente preferiu acusar a milícia e a Rússia com base em dados da inteligência dos EUA recebidos por satélite (que nunca foram publicados) e declarações em redes sociais.

Como as mentiras nas redes sociais parecem mais plausíveis do que as mentiras oficiais, o mundo, mesmo sem a conclusão do inquérito, decidiu que a culpa era da Rússia e das milícias. Ao obterem apoio moral, as tropas ucranianas reiniciaram com nova força a luta contra os seus cidadãos rebeldes.

De acordo com os dados da ONU, a guerra em Donbass já matou pelo menos 6.000 pessoas, das quais a maioria são civis. Bombas ucranianas caíram, inclusive, perto de locais onde estavam sendo conduzidos os trabalhos de perícia para a investigação.

E essas informações não são boatos espalhados nas redes sociais; eu mesmo estive regularmente em Donbass, estive lá naquela época e naqueles locais. O agravamento da guerra após a tragédia pode ser comprovado pela OSCE (Organização para a Segurança e Cooperação na Europa) e por muitos colegas ocidentais.

O que exatamente sabemos até agora? 

Desde 26 de maio, quando Petrô Porochenko foi eleito presidente da Ucrânia, o conflito entrou em nova fase: o Exército ucraniano começou a usar armas aéreas contra as suas próprias cidades. Isso porque, durante a campanha política, Porochenko prometeu justamente o rápido retorno da paz.

Primeiro, a cidade de Donetsk, com mais de um milhão de habitantes, se viu sob fogo. Depois foi a vez de Lugansk, onde diversos civis morreram na praça central, após bombardeio.

Na época, o governo ucraniano mentiu abertamente, dizendo que as vítimas tinham sido mortas por combatentes, que estariam através do aparelho de ar condicionado no edifício da administração regional.

Paralelamente, os arredores de Slaviánsk foram praticamente varridos da face da Terra por aviões ucranianos. Estive lá recentemente e posso garantir: a área, hoje considerada pela Ucrânia como “libertada”, não estará livre de escombros nem daqui um ano.  

Até a tragédia de 17 de julho, a guerra pelo ar era feita sem cerimônia, mas a milícia de Donbass começou a ter (provavelmente não sem a ajuda da Rússia) armas antiaéreas eficazes para deter os ataques de aviões de Kiev. Em um desses episódios, chegaram até a destruir um cargueiro ucraniano a 6.500 metros de altitude.

É fácil supor que a milícia tenha confundido o Boeing com uma aeronave de transporte militar, considerando a falta de monitoramento ou a fraca qualificação militar. Ainda mais porque, naquele mesmo dia, um dos então líderes da milícia, chamado Igor Strelkov, declarou que um avião militar ucraniano havia sido abatido na área de Torez.

Teoricamente, o Boeing também poderia ter sido derrubado pelas forças armadas da Ucrânia, que na época estavam com medo que a milícia conseguisse promover ataques com aviões.

Pode ser que a investigação formal determine com algum grau de precisão de onde e com que arma foi feito o disparo fatal. Mas, naqueles dias, a guerra não tinha uma linha de frente definida e existiam muitos lugares onde poderiam estar tanto o Exército ucraniano, como os homens das milícias.

Seja qual for a resposta, a principal causa da tragédia foi a própria guerra na Ucrânia. Para chegar à verdade e evitar uma nova rodada sangrenta sob qualquer pretexto, é muito importante a atitude crítica da opinião pública ocidental.

A verdade é que a vida humana não tem preço.

A matança de civis em Donetsk ou Gorlovka é simplesmente inaceitável, tal como é inaceitável a matança de passageiros do Boeing malaio.

 

Vitáli Leibin é editor-chefe da revista “Ruski Reportiôr”

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