A vida de Nemtsov como espelho do liberalismo russo

Ilustração: Grigóri Avoian

Ilustração: Grigóri Avoian

Política influente durante os anos 1990, opositora Irina Khakamada escreve sobre percurso profissional de colega morto a tiros no final de fevereiro.

Boris Nemtsov surpreendeu a classe política da Rússia desde sua primeira aparição. Jovem, bem apessoado, inteligente, audaz, de um encanto fascinante que a União Soviética ainda não conhecia.

O ano era 1991. Ele era um governador em início de carreira - assim como eu também era uma política em início de carreira.  Ambos éramos novatos no espectro pós-soviético e, claro, isso nos aproximou. Mas, até 1997, eu apenas observava, à parte e com interesse, suas atividades.

Se Lev Nikolaievitch Tolstói pode ser chamado de "espelho da revolução russa", então Boris Efimovitch Nemtsov "espelhou" todos os traços desses tempos de transição. O aventureirismo de Sôtchi, o servilismo soviético, a crença romântica na vitória da democracia e o entusiasmo do Komsomol (do russo, "União Comunista Juvenil").

Quando ele me convidou a fazer parte do governo,  em 1997, já se tratava de outra pessoa: o encanto e a energia criadora se mantiveram, mas o entusiasmo do Komsomol foi substituído pela responsabilidade de um reformador de proporção federal. Boris ganhou peso político. Mas, diferente de muitos, não perdeu a vontade de mudar o mundo para melhor.

A batalha com Berezóvski, a greve dos mineiros na Casa Branca (até 1994, edifício que abrigou o Parlamento em Moscou), o fracasso e, no final das contas, a demissão do governo, em 1998, tornaram-se para todos nós uma grande provação. Esses eventos não destruíram ninguém, mas sim aumentaram o arroubo e energia, apesar de nos considerarem defuntos políticos.

E Bória foi o primeiro a começar a reunir o time novamente. Com toda sua ambição, para ele o resultado era absolutamente prioritário. O partido Soiuz Pravikh Sil (do russo, "União das Forças Direitas"), iniciado por ele, venceu as eleições para a Duma (câmara dos deputados na Rússia) sob a liderança de Serguêi Kirienko. 

Nemtsov manteve-se uma das figuras mais brilhantes no Parlamento, onde a maioria já não era composta por comunistas, mas pelo partido no poder, e o país era governado não por Boris Iéltsin, mas por Vladímir Pútin.

Diferentemente de Serguêi Kirienko, que partiu bastante rápido para o poder Executivo,  Nemtsov deleitou-se com a liberdade e a concorrência política ao se manter no Parlamento.

Mas, depois, muitas águas rolaram: a crise dos reféns na peça Nord-Ost, o caso Khodorkóvski, a derrota de dois partidos liberais nas eleições para a Duma em 2003. Nemtsov estava novamente fora do sistema.

E mais uma vez ele aguenta o golpe. E converte o peso de sua experiência na criação de uma oposição "fora do sistema".

À medida que se estreitava o campo de possibilidades para a realização de suas ideias, suas declarações e métodos de trabalho se tornaram cada vez mais radicais.

Pelo exemplo de Boris Nemtsov, pode-se observar como o projeto liberal deslocou-se de dentro do sistema (representado nos órgãos do governo), para algo "não sistemático", que tomou as ruas e os protestos. E seu líder foi morto de maneira dura e exemplar. No meio da ponte que liga tanto à catedral como ao Kremlin, dois símbolos da Rússia atual.

Mataram o liberalismo da Rússia com esses tiros? A marcha em memória a Boris Nemtsov, que reuniu dezenas de milhares de pessoas livres em todo o país, traz esperanças de que não.

Foto: RIA Nóvosti

Irina Khakamada é política. Compôs o governo junto a Boris Nemtsov como presidente do Comitê Estatal da Federação Russa para Apoio e Desenvolvimento de Pequenos Negócios.

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