Os (nem tão) novos amigos de Pútin

Ilustração: Aleksêi Iórch

Ilustração: Aleksêi Iórch

Após a imposição de sanções econômicas e políticas pelo Ocidente, a Rússia perdeu as relações com os EUA e os países europeus conquistadas ao longo das duas décadas anteriores. Perante tal situação, o governo russo teve que rever as prioridades de política externa e encontrar novos aliados.

Ao que tudo indica, o destino de Moscou não é tão limitado como anunciavam os defensores do isolamento internacional da Rússia. Desde que os EUA e países da União Europeia impuseram sanções contra Moscou, surgiram potenciais aliados até mesmo entre os “eurocéticos”.

Em meados de fevereiro, o presidente russo Vladímir Pútin viajou à Hungria, onde discutiu com o primeiro-ministro local Viktor Orban sobre as novas condições para a exportação de gás. O encontro também resultou em uma série de acordos de menor importância entre os dois Estados. Não parece muito, mas, nas condições da crise atual, essa visita ganha um significado altamente simbólico.

Para o Kremlin é importante mostrar que a Europa não está unida para massacrar Moscou, que lá há também líderes que estão prontos para cooperar com os russos. A Hungria, por sua vez, precisa de gás a um preço acessível e pode, simultaneamente, incomodar a UE, ao obter certas regalias.

Além disso, o partido de esquerda Syriza, que venceu as eleições parlamentares gregas, também revelou disposição para se aproximar de Moscou. Desde 2008, o país acumulou uma dívida imensa, e os gregos precisam agora fazer pressão sobre a UE para negociar condições mais favoráveis de pagamento – motivo de sobra para flertar com a Rússia.

Diante desses acontecimentos, a parede de rejeição no lado da Europa foi aparentemente derrubada, aumentando a esperança de que a relação com os parceiros europeus – pelo menos na esfera econômica – pode ser gradualmente restaurada.

Expansão pelo Oriente

Na tentativa de diversificar seus aliados em outros continentes, o Kremlin vem intensificando sua esfera de influência sobre alguns países da Ásia e do Oriente Médio.

O primeiro avanço nesse sentido foi a aproximação com o Egito. No passado, o maior país do mundo árabe e principal aliado árabe dos Estados Unidos expressou o desejo de voltar a comprar um grande lote de armas russas, bem como desenvolver relações com Moscou.

A recente visita de Pútin ao Cairo lembrou o gesto do líder soviético Nikita Khruschov no início dos anos 1960. E o que mais evoca a sensação de déjà vu são os resultados do encontro: naquela época, Khruschov obteve um empréstimo para construir a represa de Aswan; agora é a vez de Pútin, também por meio de empréstimo, construir a primeira usina nuclear do Egito.

Paralelamente, observa-se progresso nas relações da Rússia com Irã e Turquia. No caso do primeiro, a venda de petróleo iraniano para a Rússia não foi concretizada, mas Teerã ainda precisa de tecnologia moderna, armas e energia nuclear. Quanto à Turquia, em vez de assumir as sanções da UE por tabela, Ankara uniu-se ao projeto de construção de um gasoduto que funcionará como alternativa ao abandonado “South Stream”.

Refúgio no Brics

A escalada de tensões com o Ocidente também fez com que a Rússia reforçasse os laços com seus aliados no Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul).

Embora esses países não tenham diretamente apoiado Moscou nem condenado a anexação da Crimeia, em abril de 2014, tem-se a impressão de que os Brics estão, em diferentes níveis, fartos ​​da política americana ao longo das últimas décadas.

Prova disso é que, no ano passado, a China celebrou uma série de acordos energéticos importantes com a Rússia, e a Índia intensificou a compra de armas russas.

 

Nikolai Surkov é professor do departamento de Estudos Orientais do Instituto Estatal de Moscou de Relações Internacionais

 

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