A Europa que perdemos

Ilustração: Aleksêi Iórch

Ilustração: Aleksêi Iórch

Na celebração de 25 anos da queda do Muro de Berlim, o mundo assiste não à união do Velho Mundo, mas a sua desintegração. Por que os devaneios de uma Casa Pan-Europeia não vingaram?

Na manhã de 8 de novembro, pulo da cama feito gato escaldado: perdi a hora! Claro, tinha ficado até tarde elaborando uma apresentação para a conferência do 25º aniversário da queda do Muro de Berlim na “Casa Pan-Europeia”, recém-inaugurada na Potsdamer Platz. Há muito que a “Casa” já se tornara pan-euroasiática, mas resolveram assim chamá-la em homenagem à ideia inicial de Gorbatchov. 

Tenho que correr para a estação, não posso perder o expresso Berlim-Moscou. Desde que colocaram o itinerário em operação, há seis anos, aboli os voos para a Europa. Afinal, é melhor fazer a viagem de seis horas em um trem confortável e... Oh, mas que som é esse?

E foi então que acordei de verdade com o despertador. A soturna manhã de novembro combinava perfeitamente com as notícias transmitidas em torrentes pelo rádio. 

Novamente, houve disparos de artilharia em Donetsk e civis foram mortos. David Cameron ameaça a Rússia com novas sanções. Começam os treinamentos militares da Otan nos Bálticos... 

A “Casa” ficou no sonho e a comemoração do 25º aniversário da queda do Muro de Berlim não está sublinhando a unidade do Velho Mundo, mas sua nova cisão.

Mas o que deu errado? A desagregação da União Soviética, que deveria ter gerado uma gradual e equilibrada convergência, transformou-se em uma rápida partilha da “herança soviética”. A criação de uma “Casa Pan-Europeia” baseada em padrões ocidentais poderia ser coroada com êxito somente em um caso: se o mesmo destino da União Soviética tivesse tido, em seguida, a Rússia, cujas partes provavelmente teriam sido digeridas pelo projeto de integração europeia.

Mas isso não aconteceu, e o país passou a ser um obstáculo para a marcha vitoriosa do projeto ocidental. O Ocidente não podia reconhecer a Rússia como cocriadora, igualitária, da nova Europa. E a Rússia não aceitava o papel de subordinada.

Como resultado, começou o “cerco”, a expansão daquelas instalações que os europeus ocidentais erigiram em seus territórios durante a Guerra Fria, com a ativa colaboração dos EUA, e que em seguida começaram a complementar com estruturas auxiliares. 

Mais cedo ou mais tarde, essas obras iriam dar de encontro com o “terreno” do vizinho, ou seja, a parede de outro edifício que a Rússia começou a restaurar e reconstruir, recuperando-se gradualmente de seu desmoronamento do início dos anos 1990. 

Existiu realmente a chance de se construir uma casa pan-europeia? Se a URSS tivesse sido preservada não como um império comunista, e sim como uma comunidade racional, interligada por vantagens mútuas, a Europa poderia ter se unificado com base em princípios verdadeiramente igualitários. 

A integração iria se firmar sobre dois pilares: Bruxelas e Moscou. E o fruto dessa convergência seria uma estrutura qualitativamente diferente, na qual o fornecimento de energia jamais iria gerar crises, a democracia não seria acompanhada da completa desindustrialização, tal como ocorreu nos países Bálticos, e os habitantes do leste desse enorme espaço geográfico não iriam preencher o mercado de trabalho barato e ilegal da sua parte ocidental. E, é claro, após 25 anos, não estaria em pauta a questão sobre uma nova militarização da Europa Central e sobre o retorno da ameaça à segurança europeia.

 
Fi
ódor Lukianov é editor-chefe da revista Russia in Global Affairs.


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