Ameaça comum, objetivos distintos

Ilustração: Niiaz Karim

Ilustração: Niiaz Karim

Apesar do convite de participação no projeto internacional de combate ao Estado Islâmico, governo russo não está pronto para aceitá-lo devido às condições e agenda de colaboração com os Estados Unidos previstas pela campanha.

A possível cooperação entre os dois líderes mundiais está travada sobretudo pela desconfiança mútua. Além de cada um suspeitar que o outro utiliza os grupos de terroristas para alcançar os próprios objetivos, as interpretações diferentes do termo “terrorismo” desestimulam a parceria.

“A maioria dos atos terroristas perpetrados em solo russo não foram incluídos na lista das principais ações do gênero, como os atentados de 11 de setembro nos Estados Unidos, de 7 de julho em Londres e de 11 de março em Madri, assim como pelas tragédias em Mumbai e em Bali”,  explica Dmítri Trenin, diretor do Centro Carnegie de Moscou.

Segundo o especialista, a comunidade internacional igualou as fatalidades na Rússia aos episódios registrados em Israel, onde o terrorismo é considerado uma resposta às repressões do governo, e não como um ataque contra a humanidade.

Apesar de os Estados Unidos continuarem considerando os terroristas que servem os seus interesses como “lutadores pela liberdade” – a exemplo dos militantes do Exército Livre da Síria –, a presente posição nem sempre foi a mesma. O planejamento da campanha de intervenção armada no Afeganistão contou com a colaboração dos serviços secretos russos e iranianos, que forneceram ao seu então parceiro americano informações importantes sobre a localização dos objetos do Talibã.

Além disso, os agentes russos entregaram aos americanos todos os seus contatos dentro da Aliança do Norte, uma união dos comandantes militares do Tadjiquistão e Uzbequistão que, durante um período prolongado, contaram com a ajuda do governo russo para manutenção do seu controle na região norte do Afeganistão. Na época, a Rússia autorizou a criação de bases militares americanas na antiga Ásia Central soviética e permitiu a abertura da rota de abastecimento das tropas dos Estados Unidos baseadas no Afeganistão através do seu território.

Sem dúvida, o governo russo estava ciente das possíveis consequências negativas da radicalização do Talibã para a realização das suas políticas nos Estados centro-asiáticos. Portanto, a colaboração com os Estados Unidos parecia uma escolha certa. “Apesar de nós falarmos sobre as ações conjuntas nas primeiras páginas do ‘The Wall Street Journal’, elas aumentam o nível de segurança e o bem-estar do povo americano”, comentou certa vez Michael McFaul, ex-embaixador dos Estados Unidos na Rússia.

Mikhail Marguelov, presidente do Comitê de Relações Exteriores da Assembleia Federal da Rússia, também concorda que, após os eventos de 11 de setembro de 2001, “as autoridades russas e americanas descobriram a existência dos assuntos em comum”. Porém, essa colaboração durou pouco.

O Kremlin logo chegou à conclusão de que os dirigentes dos Estados Unidos se recusavam a considerar os interesses do parceiro. Além da forte reação às objeções dos líderes russos em relação à invasão do Iraque, as autoridades americanas não cumpriram a única condição imposta pelo país em troca da autorização de permanência das bases militares dos Estados Unidos na região centro-asiática. Assim que os russos perceberam que os comandantes americanos não tinham intenção de retirar suas tropas do território do Quirguistão no futuro próximo, eles iniciaram as negociações para expulsar os antigos parceiros.

Tal decisão, somada aos conflitos posteriores, incluindo o caso Snowden e as posições contrárias em relação à Síria e Irã, eliminaram tanto a confiança mútua, assim como qualquer premissa para o seu surgimento. E apesar da série de episódios de colaboração bem-sucedida que permitiram Serguêi Lavrov, ministro de Relações Exteriores russo, a sugerir a existência de um “mecanismo bilateral eficiente que reúne os órgãos diferentes envolvidos no combate ao terrorismo”, a cooperação russo-americana teve caráter apenas pontual.

Os recentes eventos na península de Crimeia e no sudeste ucraniano precipitaram a saída demonstrativa dos Estados Unidos dos últimos projetos antiterrorismo conjuntos, gerando uma reação negativa por parte dos russos.

O término da colaboração nesta área não significa, contudo, que o Kremlin deixou de compartilhar os interesses dos ex-aliados – ele apenas perdeu o seu apoio. Ao contrário dos EU, a Rússia facilitou o abastecimento das tropas iraquianas com o armamento nacional destinado ao combate dos grupos de militantes do Estado Islâmico prestes a invadir Bagdá.

Embora a Rússia esteja pronta para prestar apoio nas missões contra o grupo terrorista em questão, o país não pretende participar das operações ilegítimas no território sírio sem uma negociação prévia com as suas autoridades. Infelizmente, as autoridades americanas não conseguem garantir a transparência completa das suas operações militares em solo sírio nem o cumprimento do procedimento jurídico antes de uma possível invasão.

“O Secretário Geral dos Estados Unidos falou mais de uma vez sobre a apresentação do novo formato de negociação que permitiria os Estados Unidos, a Rússia e outros Estados na região a avaliar os últimos acontecimentos e tentar equilibrar os seus interesses para obter mais eficiência na eliminação da ameaça terrorista”, explicou recentemente Lavrov. “Apesar da minha disposição em trabalhar nessa direção, não houve nenhum passo concreto do lado americano.”

 

Guevorg Mirzaian é correspondente da revista “Expert” e pesquisador do Instituto de Análise dos Estados Unidos e Canadá da Academia de Ciências da Rússia.

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