O impacto das sanções hoje e no longo prazo

Ilustração: Konstantin Maler

Ilustração: Konstantin Maler

Sacudida inicial provocada pelas sanções é positiva, diz Iákov Mírkin, da Academia Russa de Ciências, mas é preciso aproveitá-la para reformas.

É necessário saber distinguir entre o impacto das sanções a curto e longo prazo. O efeito imediato não é muito grande. As sanções foram planejadas de modo a não afetarem, em nenhuma hipótese, o atual fluxo de petróleo e gás para a Europa e os respectivos pagamentos. Isso significa que se manterá totalmente preservada a entrada de divisas que mantém a saúde das finanças russas.

Segundo o Rosstat (Serviço Federal de Estatística do Estado), entre janeiro e maio de 2014, o saldo positivo da balança comercial era de quase US$ 100 bilhões. Isso significa que as empresas possuem meios para pagar as suas dívidas em moeda estrangeira. Conseguiremos até mesmo corrigir alguma coisa no jeito como estão organizadas as finanças russas.

O grande empresariado se dedicou muito seriamente a obter dinheiro estrangeiro. A nossa máquina financeira foi artificialmente mantida em níveis baixos. Mas agora existe um motivo para nos ocuparmos dela: o melhor a fazer é inundar a economia com dinheiro e crédito, reduzir as taxas de juro, reabilitar cuidadosamente o rublo (atualmente ele está sobrevalorizado), fortalecer os mercados financeiros e lançar um pacote de incentivos fiscais para aqueles que estejam prontos a aumentar a produção. Mais à frente está a diminuição das importações e, se formos inteligentes, o crescimento econômico e as etapas para a substituição das importações.

Obrigado pelas sanções! Há muito tempo que fazia falta uma sacudida forte. Mas tudo isso só acontecerá se aqueles que tomam decisões "no topo" no país  responderem às sanções com o máximo de incentivos ao crescimento da procura e oferta internas.

Longo prazo

Mais pesadas são as consequências das sanções em uma perspectiva a longo prazo. A política oficial da União Europeia e dos Estados Unidos é a de excluir a Rússia do mercado de combustíveis da Europa, a de lhe fazer "boicote tecnológico" e, além disso, de lhe fechar os canais de financiamento externo –e não momentaneamente, mas por muito tempo. Se trata de um desafio pesado, com o qual será difícil de lidar. Há uma série de setores importantes da economia que dependem de 50% a 80% de importações.

Assim sendo, estamos em uma encruzilhada. Uma boa resposta será modernizar, liberar a energia da classe média e das médias empresas, reforçar ao máximo os estímulos ao crescimento e aumentar a poupança. Tentar criar o próprio milagre econômico em condições de alargamento das liberdades empresariais e de redução de riscos dentro do país. Fazer de tudo para atrair investimento estrangeiro direto que traga com ele novas tecnologias. De qualquer país do mundo, caminhos sempre se encontrarão.

Mas existem também respostas ruins. Como se fechar. Esse caminho não leva a lugar nenhum, leva apenas a enormes perdas para a população. Uma outra escolha ruim será a de permanecer onde nos encontramos agora: a convergência de tudo para as mãos do Estado, a pressão fiscal e muitas ordens e proibições. Esta é a melhor maneira de, com o tempo, ficar para trás, de ficar mais fraco.

Tempos difíceis

Em qualquer um dos casos temos pela frente tempos difíceis. Não será em três meses, nem em um ou dois anos que nos veremos livres da ruptura. Poderão vir tempos de reconciliação temporária com o Ocidente. Poderá acontecer de darmos dois ou três passos para trás em relação ao grau de conflito atual, mas as feridas surgidas com os recentes desenvolvimentos e sanções são profundas.

O restabelecimento do nível anterior de integração da Rússia na comunidade internacional pode levar entre 10 e 15 anos. Claro que se ficarmos economicamente mais fortes iremos eliminar o atraso no nível da modernização, permaneceremos abertos, uma economia de mercado, seremos capazes de melhorar a qualidade de vida. Iremos nos tornar mais honestos, eliminaremos a corrupção.  

Esta realidade pode não agradar. Ela pode ser avaliada do ponto de vista de quem está certo e de quem está errado. Mas ela é a realidade.

O processo de aplicação das sanções será estendido no tempo, irá afetar pequenos pedaços da economia mundial e não afetará o mais importante, que dá estabilidade à UE: os fluxos de matérias-primas da Rússia. Aquelas empresas ocidentais às quais as sanções sairão caras terão tido tempo e possibilidade de se adaptar, de reduzir os limites para a Rússia, de transferir as operações para outras partes. O mundo pretende crescer depois da crise, ignorando turbulências isoladas.

As sanções e os eventos da Ucrânia são parte daquilo a que se chama de geopolítica. A ordem mundial é sempre uma luta de alguém contra alguém. É um tabuleiro de xadrez. Alguns impérios desaparecem, outros ficam mais fortes, terceiros irão pressionar os quartos. Hoje assistimos ao surgimento de um mundo multipolar, no qual a concorrência dos países por esferas de influência é feroz. Ainda ninguém sabe qual será o alinhamento final de forças. Permanecerão os Estados Unidos e, com eles, o G7 no centro de tudo, ou surgirá uma arquitetura mais complexa do mundo? Saberemos a resposta daqui a dez anos.

Seja como for, ganhará aquele que tiver mais ideias e energia, mais criatividade e liberdade, maior qualidade de vida. Por isso, a Rússia terá que atender ao chamado e se tornar mais criativa, mais inovadora, mais leve na subida. Com uma força inteligente, mas não de ferro. Encontrando suas próprias receitas de "milagre econômico". Tornar-se aquela que atrai e não aquela de quem fogem para escolherem a Europa, a Ásia ou qualquer outra variante. Se, e quando, a Rússia produzir de 6% a 8% em vez de 2,8% do PIB mundial, então aí conversa será diferente.

 

Iákov Mírkin é responsável pela Seção dos Mercados Internacionais de Capital do Instituto de Economia Mundial e Relações Internacionais da Academia Russa de Ciências.

 

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