Os limites de um jornalista de guerra

Ilustração: Natália Mikhailenko

Ilustração: Natália Mikhailenko

Há cerca de um mês, o fotógrafo russo da agência estatal de notícias "Russia Today" Andrêi Sténin desapareceu na Ucrânia, palco de conflitos entre Kiev e separatistas do leste do país. A Gazeta Russa convidou o fotógrafo freelancer Denis Siniakov para falar sobre o trabalho de correspondente de guerra e de suas dificuldades.

A falta de Andrêi Sténin é uma grande tragédia para sua família e seus colegas. Eu sinceramente desejo que ele esteja vivo e volte para casa e que caso oficiais ucranianos tenham o detido, que o libertem.

Centenas de fotógrafos estão trabalhando agora  na frente de batalha em algum lugar na Síria, querendo virar fotógrafos do “The New York Times” e todos acreditam que eles próprios são jornalistas e não apenas fotógrafos em condições extremas. Mas não é assim. Eu geralmente recomendo que antes de ir para a guerra, o jornalista se faça a pergunta “para quê?" O que o fotógrafo quer dizer sobre essa guerra? Pensa que suas imagens vão mudar o mundo? Isso é um absurdo em que nem o próprio fotógrafo acredita. É uma escolha do próprio jornalista.

Lembro-me de várias ocasiões em que colegas muito jovens foram mortos simplesmente porque não tinham experiência em se comunicar com as pessoas na guerra.

Ética jornalística 

Uma das questões mais comuns sobre a ética do correspondente de guerra é se ele pode ser considerado um participante ou não. E muitas vezes não há uma resposta clara. Entre os correspondentes há muitas pessoas com baixos princípios morais. Se no vagão do metrô batessem em alguém, quantas pessoas se levantariam para ajudar a vítima? Eu considero que não mais do que 10%. A mesma coisa vale para os jornalistas –eles não vão nem proteger a vítima nem bater nela. Infelizmente, a câmera ou o bloco de notas não aumentam a coragem, a honestidade ou a moral. 

Nos cursos para jornalistas que trabalham em zonas de conflito, somos ensinados a ajudar os feridos. Se eu vou aplicar esses conhecimentos e se terei coragem de mandar uma multidão armada parar, eu não sei. Gostaria de ter essa coragem. Mas ninguém sabe como se comportar no mundo real.

Meu colega, o fotógrafo Serguêi Maksimichin, gosta de dizer: "A guerra começa quando vem a CNN e termina quando a CNN sai.” Infelizmente é assim. Muitos fotos ícones do fotojornalismo não teriam ocorrido sem o fotógrafo, porque a situação sem ele simplesmente não aconteceria. Eu quero acreditar que também existe o oposto, que a presença da câmera tem impedido que crimes sejam cometidos, mas acho que ainda é uma raridade. 

Solidariedade corporativa 

Não me lembro de nenhum caso em que a comunidade jornalística da Rússia em uníssono tenha protegido alguém. Simplesmente não há esse tipo de comunidade e não haverá por muito tempo. Tal tipo de comunidade não pode existir, pois é considerado normal que um jornalista espalhe boatos sobre outro e os canais estatais de televisão transmitam uma reportagem sobre a história do jornalista com as palavras: "um jornalista com dupla cidadania virou informante do ‘Setor de Direita’ [organização nacionalista ucraniana].”

Portanto, agora há grupos de jornalistas, formados nos princípios de moralidade e ética, que apoiam alguns de seus colegas. E isso já  é bom. Às vezes é mais importante ter o apoio de um grupo de colegas próximos do que de qualquer outro. Infelizmente, acontece que o outro grupo fará de tudo para prejudicar. Assim aconteceu no meu caso, depois de ser preso no Mar de Barents [Siniakov foi preso com um grupo de ativistas do Greenpeace, desembarcados na plataforma de petróleo Prirazlómnaia, e o mantiveram em prisão preventiva por quase dois meses]. Isso está acontecendo agora com Andrêi. 

É difícil dizer o que exatamente diferencia o jornalista dos outros, inclusive na guerra. Com certeza não é a credencial nem a tarefa atribuída pela redação, apesar de juridicamente ele pode precisar disso. Provavelmente é a autoridade criada pelo trabalho e pelo seu próprio desenvolvimento. 

Eu não sei que tipo de perguntas Andrêi fez a si mesmo na hora de sair para a guerra e que ele expressava com trabalho, pois eu não estou familiarizado com suas fotografias. Mas o fato de ele ser um jornalista é indiscutível. É por isso, mais uma vez, que eu  apelo às autoridades ucranianas para que investiguem seu desaparecimento e se ele estiver preso, para que façam tudo por sua libertação.

 

Denis Siniakov é fotógrafo freelancer. Trabalhou com a Reuters, Lenta.ru e Greenpeace. Suas fotos são publicadas na imprensa russa e estrangeira.

 

Confira outros destaques da Gazeta Russa na nossa página no Facebook

Todos os direitos reservados por Rossiyskaya Gazeta.