Ilustração: Aleksêi Iórch
Não tenho dúvida de que os historiadores do futuro irão destacar a reunião dos chefes dos Estados membros do grupo Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) realizada nos dias 16 e 17 de julho na cidade brasileira de Fortaleza, como um dos pontos de transformação da história, comparável à derrota de Napoleão em Waterloo em 1815 e à ascensão do domínio imperialista britânico, seguido do norte-americano, em todo o mundo. É evidente que o presidente russo, Vladímir Pútin, está desempenhando um papel de liderança na criação de uma alternativa histórica para o sistema monetário e financeiro anglo-americano, no âmbito do Brics. Presumo que os próximos meses serão decisivos a esse respeito.
Com certeza, o acordo mais importante alcançado nessa reunião foi o que se refere à criação do chamado Novo Banco de Desenvolvimento, com um capital inicial de US$ 50 bilhões e que mais tarde poderá ser aumentado para US$ 100 bilhões. Além disso, os países do Brics concordaram em criar uma nova reserva em moeda estrangeira no valor de US$100 bilhões.
Em uma extensa entrevista com a agência de notícias ITAR-TASS, o presidente Vladímir Pútin falou sobre os aspectos básicos da estratégia dos países do Brics: "O mundo moderno é realmente multipolar, complexo e dinâmico, isso é uma realidade objetiva. E as tentativas de construir um modelo de relações internacionais em que todas as decisões seriam tomadas no âmbito de um único polo são ineficazes, volta e meia apresentam falhas e, de modo geral, estão condenadas ao fracasso", declarou o líder russo.
Em suas avaliações e reflexões, Pútin, que sem dúvida é a força motriz por trás do crescente papel internacional do Brics, também destaca o seguinte fato: todos os cinco países, entre os quais há dois membros do Conselho de Segurança da ONU com poder de veto e cuja população total chega a quase 3 bilhões de pessoas, são unânimes em suas declarações sobre questões-chave das relações internacionais e sobre a Carta da ONU, documento que, ao que parece, foi esquecido por Washington e Bruxelas. Além disso, o Banco Mundial e o FMI recusaram-se a financiar alguns projetos porque eles não satisfazem os interesses de corporações internacionais dos EUA ou da UE, como por exemplo, a ExxonMobil ou a Monsanto.
Apesar de não ter sido expressa de forma explícita, essa observação é um ataque ao papel neocolonial do FMI e do Banco Mundial, que com o seu "Consenso de Washington" (conjunto de medidas de ajuste macroeconômico formulado por economistas dessas instituições financeiras em 1989) defendem medidas de austeridade, vendem ativamente as empresas estatais e desvalorizam as moedas nacionais - política que é confortável e propícia para os interesses financeiros e industriais dos países desenvolvidos.
Realmente, criando o Novo Banco de Desenvolvimento, com capital de US$ 50 bilhões, com a sua própria gestão, suas próprias regras, totalmente independente dos ditames do FMI, os países do Brics, pela primeira vez no período pós-guerra, fizeram uma revolução referente ao sistema do dólar, que até hoje estava detendo o desenvolvimento mundial e o guiava por um caminho unilateral, de acordo com os interesses dos assim chamados países ricos. Segundo uma regra não escrita, o diretor-gerente do FMI sempre foi um representante da Europa e o presidente do Banco Mundial deve ser um cidadão dos EUA, sendo que tanto o banco como o seu presidente estão sediados em Washington, distrito de Colúmbia.
Todos os países membros do Brics, com exceção da China, foram destinatários de empréstimos do FMI, condicionados a obrigações do devedor para com o credor e a exigências cruéis, mas o mais importante é que eles são seus duros adversários.
Após a desagregação da União Soviética, que ocorreu em 1991 e não se pode dizer que os EUA não tiveram a sua participação nisso, Washington conseguiu que todos os investimentos na economia russa fossem aprovados pelo FMI. O FMI é controlado pelo Ministério das Finanças dos EUA. Isso permitiu que as corporações internacionais americanas e Wall Street saqueassem as riquezas da Rússia durante o governo de Boris Iéltsin. Da mesma forma, durante a crise de endividamento dos t países subdesenvolvidos na década de 1980, o Brasil e, em seguida, a África do Sul foram forçados a seguir os ditames do FMI.
Agora, com estas duas novas instituições na qualidade de “embrião” de um novo sistema econômico mundial justo, os Brics têm a oportunidade de formular um "consenso popular" ou, como alguns já o estão chamando, "consenso do Rio”, que possa contribuir para o desenvolvimento racional das economias nacionais, melhoria das condições de vida de toda a população e redução do poder dos oligarcas corruptos. Tudo indica que o projeto "consenso do Rio" já está em operação.
A Indonésia, a Turquia e uma série de outros países que estão se desenvolvendo rapidamente já estão na fila para se associar ao grupo Brics, apesar de Vladímir Pútin ter insinuado que a admissão de novos membros no grupo deve esperar a consolidação dessas novas instituições. Esse fato, por sua vez, cria um contrapeso significativo para o mundo de Washington – o mundo de uma superpotência única. Além disso, a Rússia também propõe a criação de uma universidade em rede, ou seja, um conglomerado das principais universidades da Rússia, China, Brasil, Índia e a África do Sul, em primeiro lugar nas áreas de economia e especialidades técnicas, relatou a agência TASS.
Hoje, a Rússia, o Brasil, a China, a Índia e a África do Sul estão criando uma nova família, na qual há prudência e pelo menos um pouco de empatia em relação às dificuldades enfrentadas pelos outros. O grupo dos “Sete Grandes” é hoje um clube das economias que fracassaram: EUA, Reino Unido, Itália, França, Canadá e Japão. O único país cuja economia está funcionando pelo menos pela metade é a Alemanha.
Vladímir Pútin e os seus colegas no Brics agora podem passar para a criação da alternativa que levará em conta os interesses de toda a comunidade internacional. Eu espero e sonho com isso há décadas.
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