Parece, mas não é

Ilustração: Konstantin Maler

Ilustração: Konstantin Maler

Depois de um longo silêncio, o presidente russo Vladímir Pútin fez um discurso sobre a questão ucraniana esta semana. Embora vários opositores tenham considerado a declaração como a confirmação da desistência russa sobre a região sudeste da Ucrânia, a iniciativa de Pútin teve como intuito minimizar danos e, assim, dar mais um passo para a concretização dos interesses russos na região.

Após o encontro em Moscou com o representante da OSCE e presidente da Suíça, Didier Burkhalter, Pútin fez uma série de declarações inesperadas sobre a Ucrânia. Ele começou pedindo aos moradores do sudeste ucraniano para não realizar o referendo previsto neste domingo (11), bem como declarou seu apoio às eleições presidenciais ucranianas do próximo 25 e anunciou a retirada das tropas da fronteira.

Os opositores do presidente interpretaram essas declarações como uma prova da desistência da Rússia sobre o sudeste ucraniano, além de um sinal de fraqueza de Pútin e de todo o Estado russo, que anda receoso em relação às recentes sanções. No entanto, as palavras do presidente anunciam, na realidade, dois objetivos distintos.

Em primeiro lugar, Pútin mostrou ao mundo a disposição de Moscou em honrar seus compromissos assumidos em Genebra para acalmar a situação na Ucrânia. Isso diminui consideravelmente o risco de novas de sanções econômicas contra a Rússia, tendo em vista que, depois dos EUA, a Rússia enfrenta grandes dificuldades em convencer os políticos europeus de seus planos. E o mercado reagiu positivamente à declaração do presidente russo: o euro abaixou para menos de 49 rublos, o dólar está abaixo de 35, e os índices nas bolsas de valores aumentaram em 5%.

Em segundo lugar, o Kremlin entrega agora mais responsabilidades às autoridades ucranianas, para que tomem uma posição mais ativa nessa situação. Até agora a estratégia de Kiev era muito simples: diante da escalada dos acontecimentos, acusava a Rússia e apresentava constantemente suas queixas a Washington e Bruxelas. Agora, Pútin colocou o governo ucraniano em uma posição desconfortável com a responsabilidade de dar uma resposta às propostas apresentadas por Moscou. Se o plano do presidente russo tiver sucesso, ou Kiev enterra por completo as propostas russas ou promove a desescalada da situação e a federalização da Ucrânia – ambas as variantes são satisfatórias para a Rússia. 

Referendo

Pútin argumentou contra o referendo deste domingo, mas essa linha de ação não deve ser considerada como uma renúncia à defesa de Donbass, e sim uma tentativa de encerrar a chamada “operação antiterrorista”. Segundo ele, “o pré-requisito essencial para o estabelecimento do diálogo é a cessação incondicional de toda a violência – principalmente através das Forças Armadas ou grupos armados ilegais – o que é absolutamente inaceitável no mundo moderno”. Com isso, Pútin colocou em xeque as autoridades ucranianas.

No último dia 6, o Verkhovna Rada (Parlamento ucraniano) votou contra o estabelecimento do diálogo com a Rússia, recusando-se a realizar um referendo sobre a federalização da Ucrânia. A partir de agora, ou os deputados mudarão de opinião e irão superar suas próprias fobias antirrussas ou terão de assumir publicamente a responsabilidade pelo fracasso da proposta de Pútin em querer resolver as questões de modo pacífico.

As declarações do presidente russo receberam apoio de uma série de grandes atores internacionais, entre eles o Secretário-Geral da ONU, Ban Ki-Moon e o chefe da OSCE. Diante disso, qualquer decisão do Vekhovna Rada será aceitável para a Rússia.

Por outro lado, a obrigação de apresentar qualquer resposta à declaração de Pútin recai somente sobre as autoridades de Kiev. Os federalistas não são obrigados a ouvir o presidente russo, mas, com a permanência do referendo, depois não será fácil acusar o lado russo pelo agravamento da situação. De qualquer modo, os representantes dos federalistas interpretaram corretamente o discurso do presidente e apresentaram às autoridades de Kiev algumas condições para abandonar a ideia do referendo – plano este que não foi adiante.

“Esse é o fim imediato das ‘operações antiterroristas’ e a retirada de todas as unidades das Forças Armadas e do Ministério do Interior de sua implementação permanente. É também o início do desmantelamento e desarmamento de todos os grupos armados ilegais e liberação de todos os presos políticos, incluindo os detidos sob processos criminais falsos”, afirmou o deputado Oleg Tsarev.

Eleições presidenciais

Ao afirmar que “a eleição presidencial já significa uma posição correta”, o presidente russo demonstrou a Kiev e ao Ocidente que Moscou não irá interferir no pleito e está pronta a reconhecer seus resultados. Mas também acrescentou que “as eleições não resolverão nada se os todos os cidadãos ucranianos tiverem a certeza de que seus direitos serão garantidos após ela. Acreditamos que o diálogo direto entre as autoridades de Kiev e do sudeste da Ucrânia é o elemento chave da normalização da situação”.

Alguns analistas políticos consideram esses discurso como um pedido à adoção de uma nova Constituição antes das eleições e não descartam a ideia de que Moscou já concordou com o Ocidente sobre o adiamento do processo eleitoral.

Tropas na fronteira

Moscou não considerava – e não deve considerar – viável a opção da invasão militar da Ucrânia. Acontece que esse empreitada enfrentaria sanções e consequências políticas extremamente duras, para não falar sobre a terrível inconveniência de se entrar em uma guerra. Na verdade, a invasão militar era considerada o último recursos em defesa de somente um objetivo – manter o sudeste sob o controle dos federalistas.

Aparentemente, surgiram agora outras ferramentas para atingir este mesmo objetivo – da região de Donbass chegaram grupos armados de russos “voluntários”. Ou seja, a manutenção de tropas na fronteira ucraniana tornou-se politico e economicamente inviável.

As autoridades ucranianas compreenderam o jogo de Pútin e estão tentando por todos os meios nivelar suas declarações. “Pútin comercializa até o ar de uma forma pessoal e não como um presidente de uma grande nação”, rebateu o primeiro-ministro interino da Ucrânia, Arseni Iatseniuk.

 

Publicado originalmente pela Expert

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