Por que Moscou não irá mais intervir na crise ucraniana

Ilustração: Aleksêi Iórch

Ilustração: Aleksêi Iórch

Benefícios, desvantagens e consequências da provável ‘vista grossa’ do Kremlin perante os fatos.

Está claro que os dirigentes russos adotaram a firme decisão de não realizar uma intervenção militar aberta no sudeste da Ucrânia. Prova disso são os dados divulgados sobre a conversa entre os ministros da Defesa da Rússia e dos EUA e as subsequentes ações de militares russos visando à retirada das tropas da fronteira. Esses passos, por sua vez, serviram como ponto de partida para uma fase nova, mais ativa, da operação militar do governo ucraniano.

No que diz respeito ao envolvimento velado de militares russos nos eventos que se desenrolaram na região, se é que existiu, ele foi insignificante. Considerando os desdobramentos nos últimos dias, fica evidente que os rebeldes de língua russa possuem apenas um pequeno núcleo composto por pessoas treinadas para combate. Aparentemente, os nacionalistas russos com experiência de combate desempenham um importante papel nesse núcleo, mas as suas relações com o Estado russo são, no mínimo, ambíguas.

A julgar pelos dados conhecidos até o momento e por suas próprias declarações em fóruns, o líder rebelde de Sloviansk, Igor Girkin-Strelkov, carrega convicções nacionalistas bastante radicais. O seu apreço pelo atual regime russo não é maior do que o dos manifestantes moscovitas da praça Bolotnaia, em maio de 2012. A abundância de dados biográficos publicados por ele mesmo, a ausência de simples medidas de sigilo e a participação no movimento militar de reconstrução complementam a imagem.

O mais provável é que Strelkov seja um reformado, de baixa patente, das forças especiais do Serviço Federal de Segurança (FSB, na sigla em russo), com ideias férteis sobre “como melhorar a Rússia”. Esse não é um tipo raro entre os ex-integrantes das estruturas das forças russas, no qual está incluído, por exemplo, o coronel Vladímir Kvatchkov, condenado recentemente por tentar organizar uma rebelião armada. Com frequência, pessoas desse tipo se encontram no centro da ação por vontade própria, mas não se dão bem com o trabalho burocrático oficial.

"Nós não afastamos a ameaça das sanções com a decisão de não intervenção no sudeste, mas apenas ganhamos algum tempo a fim de nos prepararmos para elas, reorientando laços econômicos, científicos e tecnológicos para a Ásia e implementando programas de substituição das importações".

No sudeste ucraniano, não existe nada parecido com as perfeitamente treinadas e equipadas unidades de “pessoas gentis” – expressão que se difundiu na internet russa e refere-se a homens armados, de origem desconhecida e sem identificação, que se parecem com o Exército russo, e que em fevereiro passado apareceram na Crimeia. O pequeno núcleo de combate rebelde possui equipamentos bastante modestos, e não existem quaisquer indícios sólidos que apontem com origem a Rússia pós-soviética.

O sistema de mísseis antiaéreos portáteis (Manpads, na sigla em inglês) utilizado no primeiro dia de combates foi tomado pelos rebeldes durante o desarmamento de uma unidade da 25ª Brigada das Tropas Aerotransportadas ucranianas. De acordo com os quadros de pessoal soviéticos, em cada companhia aerotransportada havia quatro Manpads e é pouco provável que os atuais quadros ucranianos sejam radicalmente diferentes. O fato de que o sistema não havia sido utilizado depois do primeiro dia de combates ativos confirma que esse troféu é, provavelmente, único e com pouca munição.

O papel das forças especiais russas e dos serviços de inteligência no drama que se desenrolou no sudeste do país consiste, no máximo, no acompanhamento da situação e na manutenção dos canais de comunicação com alguns líderes insurgentes. A Rússia pretende observar de fora a repressão das manifestações do sudeste por Kiev. Aparentemente, há duas razões para tal.

Em primeiro lugar, é o temor diante das sanções econômicas, cuja perspectiva, em caso de qualquer intervenção militar, foi definida pelos EUA e pela Alemanha. Além disso, Moscou não quer se envolver em um conflito potencialmente devastador para a sua economia por causa de grandes territórios com problemas econômicos, com uma população predominantemente ucraniana e de aspirações ambíguas, em relação aos quais a Rússia nunca sentiu grande interesse.

No momento, parece que as forças do governo ucraniano, apesar de toda a sua deficiência quanto à organização, à moral e ao treinamento vai, lentamente, com insucessos e perdas, fechando um anel ao redor dos insurgentes. O mais provável é que o controle sobre os territórios seja restaurado a tempo para a realização da eleição presidencial, em 25 de maio, com a manutenção da aparente legitimidade.

Seria errado, entretanto, concluir que estamos diante de uma solução para a crise ucraniana. A operação militar realizada por tropas mal treinadas e com o apoio de milícias nacionalistas irregulares não pode deixar de ser acompanhada pela exacerbação de ânimos da população. Os trágicos acontecimentos em Odessa irão apenas reforçar essa excitação. Uma potente mina foi colocada sob o Estado ucraniano para as próximas gerações.

Mesmo sem isso, as perspectivas de soberania eram nebulosas. Após a deposição do presidente Viktor Ianukovitch, a Ucrânia enfrentou todos os possíveis males da revolução, mas permaneceu destituída de seu principal benefício: a mudança da elite política. Todos os candidatos conhecidos para os cargos de presidente, incluindo Iúlia Timochenko, possuem uma longa história no governo ucraniano. Em momentos diferentes, todos eles já foram vistos como a personificação da corrupção local. A Ucrânia está condenada a uma prolongada crise política, com futura radicalização da política, trazendo para o primeiro plano, fatores relacionados à nacionalidade, idioma e religião.

A Rússia, a UE e os EUA estarão inevitavelmente se envolvendo cada vez mais em novas convulsões internas da Ucrânia. Considerando a desconfiança mútua demonstrada por seus líderes, o confronto entre eles será mantido. Além disso, após a anexação da Crimeia pela Rússia, um objetivo independente e importante para os EUA é o restabelecimento de sua bastante abalada autoridade, por meio de punições à Rússia. Ao longo de muitos anos, sanções implícitas e explícitas serão impostas ao país à medida que a economia europeia e a americana forem se preparando para adotá-las.

Nós não afastamos a ameaça das sanções com a decisão de não intervenção no sudeste, mas apenas ganhamos algum tempo a fim de nos prepararmos para elas, reorientando laços econômicos, científicos e tecnológicos para a Ásia e implementando programas de substituição das importações.

É justamente por isso que, nas próximas semanas, vamos acompanhar pela TV como os “estranhos” – referência aos mercenários estrangeiros que estão combatendo ao lado das forças de Kiev – vão gradualmente matando os “nossos”, no leste da Ucrânia, sob a aprovação claramente expressa do presidente dos EUA e da chanceler alemã. E esse espetáculo irá transformar a sociedade russa, determinando a história política do país por décadas a fio.

 

Vassíli Káchin é especialista do Centro de Análise de Estratégias e Tecnologias


Publicado originalmente pelo Vedomosti

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