Russos continuam fiéis aos seus antigos ídolos do rock

Por que estrelas estrangeiras há muito tempo esquecidas em seus países de origem ainda fazem tanto sucesso na Rússia?

Ao longo de muitos anos, o público russo continua lotando estádios inteiros nos dias de apresentação dos seus ídolos que fizeram sucesso no passado, mas já acabaram esquecidos pela maioria dos seus fãs nos seus respectivos países de origem.

Quase todos os dias recebo mensagens oferecendo personalidades musicais estrangeiras, como Boney M e Bad Boys Blue, Modern Talking e Didier Marouani, Al Bano e Bonnie Tyler para tocar em festas russas. Uma vez ao ano, o estádio Olimpiiski, construído em 1980 para os Jogos Olímpicos de Moscou, vira palco de um festival com astros da década de 1980, incluindo alguns dos nomes citados acima.

No ano passado, resolvi satisfazer a minha curiosidade e assisti às apresentações de Slade, Bonnie Tyler, Deep Purple e outros clássicos da música rock das décadas de 1970 e 80. Não é fácil de acreditar, mas todos os shows estavam lotados, apesar de a voz do Noddy Holder e os sons incríveis do Ritchie Blackmore e Jon Lord não fazerem mais parte das bandas Slade e Deep Purple. Os espectadores até gostaram da apresentação da Bonnie Tyler, que não perdeu a sua ótima capacidade vocal, mas mais conversava com o público do que cantava.

Todos esses antigos astros musicais convidados para se apresentar na Rússia possuem alguma ligação com o país, sejam imóveis na capital ou um afiliado, como no caso de Bonnie Tyler. O primeiro-ministro russo Dmítri Medvedev, grande fã da banda inglesa Deep Purple, é responsável pelo ressurgimento do grupo no mercado musical russo. 

A quantidade dos seus fãs no Brasil e na Rússia permite preencher os estádios inteiros, enquanto no Reino Unido a banda consegue se apresentar apenas nas boates de pequeno porte. “Dos estádios migramos para as boates, depois nos apresentamos em teatros e, em seguida, nos estádios novamente. Essa diversificação sempre me agrada”, disse-me Ian Gillan, líder da banda, em uma entrevista há dois anos.

Plateia soviética

Moscou recebe grande quantidade de músicos contemporâneos, mas, por motivos sociais, econômicos e políticos, a procura por seus shows nunca supera a dos antigos ídolos dos anos 1980. Na época da União Soviética, apopulação da atual Rússia não tinha acesso a nenhuma informação do exterior. O hábito de escutar as gravações das bandas de rock americanas ou europeias era considerado traição grave. 

Nasci em Moscou, no ano de 1975, e me lembro dos meus colegas sendo punidos nas reuniões dos pioneiros soviéticos pela leitura das revistas estrangeiras, pela preferência por gravações de bandas americanas e inglesas, e até mesmo por mascar chiclete. Ao longo de quase meio século, o rock era proibido para os cidadãos soviéticos, mas as tentativas do governo de transformar todos em verdadeiros patriotas fracassaram. 

)

Fonte: YouTube

O resultado de todos os esforços das autoridades foi justamente o contrário - o grande interesse do povo soviético por tudo desconhecido. As pessoas escutavam cópias clandestinas dos hits de rock e pop estrangeiro contrabandeadas por marinheiros, diplomatas e artistas.

Desde então, a população do país permaneceu fiel aos seus artistas preferidos, apesar da ausência de bons lançamentos desde a década de 1980, e da queda da popularidade dos astros em seus países de origem. Ao ver uma apresentação da banda austríaca Joy ou da alemã Modern Talking, fica a impressão de que elas foram criadas especialmente para o público soviético.

 

Aleksandr Beliáev é crítico musical e comentarista da revista Vach Dosug

Todos os direitos reservados por Rossiyskaya Gazeta.