Partitura clássica para consertar nações

Ilustração: Konstantin Maler

Ilustração: Konstantin Maler

A discussão sobre os princípios da ordem mundial entrou em uma nova fase com a crise na Ucrânia. O secretário de Estado dos Estados Unidos, John Kerry, acusou a Rússia de agir “com espírito de século 19”. Mas o que isso quer realmente dizer?

No contexto do direito internacional, o século 19 começou com o Congresso de Viena, em 1814 e 1815. Essa maratona de negociações com participação de monarcas e diplomatas mais proeminentes da época deu fim às guerras napoleônicas. O século 19, em termos políticos, durou quase cem anos. 

O sistema de Viena desabou em agosto de 1914, quando as contradições dos gigantes europeus, seus apetites coloniais e a explosão do chauvinismo provocaram a Primeira Guerra Mundial. A época da “boa velha Europa” e a era de ouro da diplomacia clássica acabaram.

O século 20 foi marcado por desastres: duas guerras mundiais, colapso de impérios, ascensão e queda de ideologias totalitárias, casos de genocídio.  A época da Guerra Fria parecia relativamente calma, apesar do confronto militar-ideológico global. A instalação de mísseis nucleares da URSS e dos EUA e a ameaça de destruição mútua resultaram em uma estabilidade inédita.

Nesse contexto, o “espírito de século 19” soa como sinônimo de paz. É verdade que, entre 1815 e 1910, a Europa não sofreu com confrontos internos de grande proporções. Mas isso não significava o fim da competição aguda ou ausência de conflitos militares - basta lembrar as guerras da Crimeia e Franco-Prussiana. Embalados pelas decisões do Congresso de Viena, as grandes potências eram capazes, contudo, de reestabelecer o equilíbrio por meios diplomáticos. 

Nos últimos tempos, esse modelo foi enfraquecendo por razões objetivas: a política mundial deixou de ser sinônimo de política europeia. O rápido desenvolvimento do capitalismo, a primeira onda de globalização e a expansão colonial aumentaram a proporção do jogo e impuseram novos objetivos. Tensões entre as potências continentais cresceram, complicando a possibilidade de manutenção do equilíbrio.

Duzentos anos depois do Congresso de Viena e cem anos após a Primeira Guerra Mundial, descobrimos que agora nos falta exatamente aquilo que fez o século 19 diferente. Após os desastres da primeira metade do século passado e a estabilidade congelada de sua segunda metade, chegou o momento da liberdade - em todos o sentido dessa palavra. 

Liberdade como conceito ideológico, central na visão norte-americana. E a liberdade das regras internacionais e das limitações do passado. No início, parecia que esse segundo tipo de liberdade só havia sido disseminado pelo Ocidente. Mas está claro que a liberdade é universal. O monopólio econômico do Ocidente no início do século 21 não parece tão impressionante como anos antes.  Washington e seus aliados já não podem insistir em que os outros sigam suas determinações.

A crise ucraniana é uma manifestação particular do caos conceitual e jurídico que reina na arena internacional. Mas também é uma mostra brilhante e sintomática da necessidade de uma diplomacia com espírito de século 19 , aquela que conhecemos a partir dos livros e quase esquecemos como funciona na prática. 

Depois da Guerra Fria, a necessidade de compromisso e harmonização de interesses aparentemente desapareceu, a parte vencedora passou a determinar o grau de responsabilidade dos membros dos conflitos locais e o que é necessário para o “reestabelecimento da justiça”. No entanto, esse modelo está esgotado: força e habilidade não são suficientes nem para as mais poderosas potências mundiais.

O  vício  do mundo moderno é o desequilíbrio total de oportunidades, interesses e percepções de um em relação a outro. O “espírito de século 19” é útil para encontrar soluções diplomáticas sem a exaltação ideológica herdada do século 20. Devemos embalar as nações em uma espécie de concerto global, mas, para isso, os maestros, mesmo com arranjo moderno, vão precisar de uma partitura clássica.

 

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