Em busca de uma cooperação pacífica

Ilustração: Aleksêi Iórch

Ilustração: Aleksêi Iórch

Kremlin reage a ameaças na Ucrânia, mas ainda conta com solução política para resolver a crise.

Nos últimos dias, a situação na Ucrânia se deteriorou rapidamente. Os acordos alcançados entre o então presidente Viktor Ianukovitch e a oposição em 21 de fevereiro foram ignorados por líderes da oposição. Como resultado, o chefe de Estado legítimo foi efetivamente expulso do país, um presidente interino foi nomeado e novas eleições presidenciais foram marcadas para 25 de maio - mas não foram tomadas medidas para promover uma reforma constitucional ou investigação conjunta dos fatos. Que os líderes do protesto lidam com suas palavras e assinaturas de forma leviana não é nenhuma surpresa. Mas é de se admirar a facilidade com que os mediadores externos que selaram o acordo, nomeadamente os ministros do Exterior da Alemanha, França e Polônia, declararam que o acordo havia sido “ultrapassado pelos acontecimentos”.

Em vez de levar em conta os diversos apelos à unidade e reconciliação nacional, o poder político em Kiev tem se concentrado nas mãos de representantes extremistas de direita que não escondem as suas posturas xenófobas, antissemitas e neofascistas. Exemplo disso é o fato de uma das primeiras decisões dos novos governantes ter sido abolir a lei sobre as línguas regionais, uma medida que causou preocupação não só entre os falantes de russo, mas também na Bulgária, Romênia e Grécia. Isso coincidiu com uma ampla campanha de intimidação da população de etnia russa e profanação de monumentos que celebram conquistas históricas comuns da Ucrânia e Rússia, como a derrota do nazismo na Segunda Guerra Mundial. Os padres ortodoxos russos se tornaram alvo de ameaças, e foram feitas tentativas de tomar alguns santuários ortodoxos no país, como a Monastério de Kiev-Petchers.

A situação da comunidade russa na Crimeia se tornou particularmente precária. Assim que eclodiram os protestos para expressar o descontentamento com a forma como os eventos se desenrolaram em Kiev, os moradores locais foram acusados de separatismo e ameaçados com força. Há muita especulação sobre os movimentos de tropas russas da Frota do Mar Negro, embora seja uma medida de precaução em plena conformidade com os acordos bilaterais estabelecidos com a Ucrânia. Na noite de sábado passado (1), homens armados enviados de Kiev tentaram se apoderar do edifício do Ministério do Interior da Crimeia. Somente ações decisivas por parte de grupos de autodefesa foram capazes de brecar essa provocação que deixou muitas pessoas feridas.

Mais recentemente, Dmítri Iaroch, líder do grupo extremista Setor de Direita, que foi fundamental para a “vitória na Maidan”, pediu abertamente uma aliança com Doku Umarov, o mais procurado dos terroristas tchetchenos que possui ligações estreitas com a Al Qaeda. 

Nesse contexto, não é de estranhar que cerca de 143 mil cidadãos da Ucrânia solicitaram asilo na Rússia ao longo das últimas duas semanas. Diante da situação, até mesmo o primeiro-ministro da Crimeia, Serguêi Aksenov, apelou às autoridades russas para ajudar na manutenção da paz na península.

Os inúmeros apelos por parte das autoridades russas para evitar a escalada da situação tem sido inúteis. Em vez de resolver a situação por meio de estruturas como a OSCE (Organização para a Segurança e Cooperação na Europa) e o Conselho da Europa, que têm sólida experiência na área de direitos humanos, incluindo direitos das minorias e constitucional, temos visto a situação Ucrânia sendo discutida pela Otan, o que certamente envia uma mensagem errada. O presidente norte-americano Barack Obama, ao invés de pedir às “autoridades” pró-ocidentais em Kiev para acalmar as tensões, acusou a Rússia de preparar uma intervenção, afirmando que o país poderia “pagar caro” por isso.

Em virtude da situação extraordinária na Ucrânia e da ameaça apresentada para os cidadãos russos e nossos compatriotas, assim como para o pessoal da Frota do Mar Negro, o presidente Vladímir Pútin foi obrigado a usar seus poderes constitucionais e buscar a aprovação do Conselho da Federação [senado russo] para o uso de Forças Armadas da Rússia no território ucraniano até a normalização da ordem pública e situação política no país vizinho. Esse pedido foi atendido, embora isso não signifique que o presidente fará uso desses poderes de imediato.

A Rússia continua aberta à cooperação com todos os parceiros a fim de buscar uma solução política para a crise. É necessário agora um claro entendimento de que tal cooperação deve ser sincera e baseada não apenas na capacidade de manter negociações frutíferas, mas também na capacidade de cumprir com os acordos que levem em consideração os interesses de todo o povo ucraniano e dos parceiros da Ucrânia.

 

Aleksandr Iakovenko é embaixador da Rússia no Reino Unido e Irlanda do Norte

 

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