Perigos da revolução ucraniana

Ilustração: Aleksêi Iórch

Ilustração: Aleksêi Iórch

Estabilidade política da Ucrânia dependerá de esforços conjuntos da Rússia com a União Europeia.

A Ucrânia fez mais uma tentativa. Primeiro foi a mudança de poder depois da queda do sistema soviético. Anos depois veio a chama “Revolução Laranja”. Agora, 10 anos depois, foi a vez de uma nova reviravolta na cena política do país. Mas as consequências atuais foram ainda mais terríveis e trágicas do que no passado. Vil esperança e romantismo dos vencedores, que prometeram não repetir os erros, e ceticismo dos observadores, que não excluem a repetição dos fatos na Ucrânia.

Vários fatores provocaram o embate sangrento em Kiev. Em primeiro lugar, o fracasso da classe política ucraniana, que ao longo dos 20 anos de independência não se deu conta de sua responsabilidade pelo Estado. A tragédia deveria ser também uma lição para os Estados vizinhos – seja Rússia ou União Europeia, para quem muitas vezes a Ucrânia fora mero objeto de competição por influência geopolítica.

A principal conclusão a ser tomada depois dos tumultos é que a Ucrânia não pode ser obrigada a fazer uma escolha difícil entre a Rússia ou o Ocidente. A heterogeneidade do país, as características da sua história e sua mentalidade diferente criam uma situação na qual a tentativa de se juntar com um ou outro polo leva apenas ao aumento da tensão interna. A verdade é que os problemas só podem ser resolvidos com a cooperação dos seus maiores parceiros externos. 

O choque das últimos semanas mostrou o nível de polarização da sociedade ucraniana. A visão dualista e os símbolos ideológicos, notados claramente na interpretação dos acontecimentos ao redor do mundo, podem ser perigosos. Eles beneficiam as forças extremistas dos dois lados: os nacionalistas radicais do oeste da Ucrânia e os revanchistas do leste.

Haverá um período de estabilização junto com a necessidade de reduzir os riscos. Uma pergunta que vai aparecer na agenda em breve é a revisão da herança do presidente deposto Viktor Ianukovitch em matéria de política externa. Isto é, o estatuto independente da Ucrânia e o acordo sobre a instalação da Frota Russa do Mar Negro em Sebastopol até 2042. A intenção do governo de se livrar da frota e a ambição de se tornar membro da Otan provocará uma reação negativa de Moscou e trará de volta o ambiente de disputa geopolítica. Em contrapartida, a Rússia ficará motivada a procurar todas as possibilidades de benefício próprio, inclusive a intensificação dos contatos com diferentes regiões para promover o separatismo.  

Agora, os políticos em Kiev imediatamente voltaram à questão em torno da associação com a União Europeia, o que provocou a revolução. Os políticos em Bruxelas, Varsóvia e Berlim se vingaram pelo fracasso da Cúpula em Vilnius. Mas os problemas que levaram ao fracasso em novembro ainda existem, apesar da mudança de poder em Kiev. O sucesso econômico da Ucrânia só será possível só se o país for capaz de manter oportunidades nos mercados russo e europeu. Isso indica a necessidade de consultas envolvendo as três partes, bem como a coordenação de interesses. Pútin chegou a propor no ano passado um esquema parecido, que, na época, não provocou nenhum interesse da União Europeia. Se o modelo do ano passado for repetido, o novo governo da Ucrânia, ao tentar salvar o país do colapso econômico, enfrentará problemas mais sérios por causa do bloqueio russo.

As tentativas prováveis dos vencedores mais ativos de punir seus oponentes, especialmente no leste e sul, representam  mais uma ameaça. O Ocidente está ignorando os ultranacionalistas de Maidan. A revolução nacional proclamada na Maidan tem sua agenda: a identificação dos “antinacionalistas”, a proibição de ideologias associadas ao “passado amaldiçoado” e lustração. O início desse movimento já foi anunciado em algumas regiões do oeste do país, e a prática na Ucrânia pode piorar dramaticamente as relações entre as diferentes regiões do país e provocar uma reação russa, que irá apelar para as cidades do leste.

Uma situação semelhante ao Báltico de caráter de “apartheid brando”, em forma de não cidadãos e outras espécies de minorias, pode ser reproduzida em uma escala maior e com consequências mais perigosas. Uma nova página na história da Ucrânia pode ser semelhante ao que aconteceu no Leste Europeu após o colapso do bloco soviético. No entanto, devido ao tamanho, complexidade e especificidade do país, todos os problemas enfrentados pelos Estados pós-comunistas serão expressados de uma forma mais vívida e distorcida. Além disso, se no início dos anos 1990 não houve competição por influência, desta vez a disputa será inevitável.

A partir de 1989, o fim da Guerra Fria foi anunciado várias vezes. Mas cada vez mais, os acontecimentos mostraram que a inércia do confronto não desapareceu e os instintos permaneceram vivos. A Ucrânia simboliza um momento de mudanças, com duas possibilidades: a Rússia, os Estados Unidos e a comunidade europeia reconhecem a importância de trabalho em conjunto para desembaraçar os nós da história europeia; ou a Europa vai começar de novo uma guerra fria em grande escala, símbolo este que vai culminar em um Estado dividido.

 

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