Ucrânia cruzou linha sem volta

Ilustração: Aleksêi Iórch

Ilustração: Aleksêi Iórch

Ausência de instituições estatais fortes e despreparo da oposição deixam o país sem escolha nem futuro.

Pouco mais de 20 anos atrás, autoridades e oposição se enfrentavam com violência em massa nas ruas de Moscou. Até há pouco tempo, parecia impossível acontecer tal coisa na Ucrânia – uma cultura política diferente, outros costumes e capacidade de negociar. Mas o pior de tudo nem é isso.

Na Rússia, o mês de outubro de 1993 representou o fim trágico da luta pelo poder e pôs um ponto final nas disputas internas. Na Ucrânia atual, contudo, nenhum ponto foi posto. Pelo contrário, agora não apenas se discute a orientação do desenvolvimento, mas também o destino do Estado.

Desde a eclosão da “euromaidan”, muitos observadores traçaram paralelos entre os atuais confrontos e a chamada Revolução Laranja. Mas a essência do que está acontecendo hoje é bastante diferente. Há dez anos, mesmo com todo o caos e dramatismo das eleições presidenciais, falava-se em uma atualização da política, da estrutura econômica, do modelo de Estado. Ou seja, estava se discutindo o futuro. Hoje, esse “futuro” não está presente no fluxo dos acontecimentos.

Os lados do confronto que se desenvolveu em Kiev não possuem um objetivo estratégico bem definido. De um lado, o presidente Viktor Ianukovitch e sua equipe estão preocupados apenas em manter o poder. Do outro, os opositores comandam as massas para conquistar o poder, e a sensação que fica é que nem por um segundo pararam para pensar no que é que vão fazer no caso de atingirem esse objetivo.

Se não fosse o bastante, surgiram então os atores internacionais. Para Ianukovitch, o apoio da Rússia é fundamental, pois é a única fonte capaz de tapar os buracos do orçamento e ajudar na sobrevivência econômica. A oposição, por sua vez, espera pelo Ocidente para formular as táticas e estratégias. Sozinha, ela não é capaz de fazer isso.

E, assim, a Ucrânia se tornou vítima de uma contradição fatal. Em mais de 20 anos de independência, o país não conseguiu encontrar respostas para os objetivos e formas de desenvolvimento nacional. Trata-se de uma tarefa difícil, sobretudo por causa da heterogeneidade socioeconômica e mental da população.

O fracasso da construção de instituições estatais viáveis ​​fez com que a Ucrânia se tornasse um conjunto de diferentes comunidades mais ou menos informais, grupos de interesses e práticas de interação. Os tópicos discutidos na política ucraniana em 2014 são os mesmos daqueles discutidos lá em 1992. Esse é o grau de progresso de mais de duas décadas.

A Revolução Laranja mostrou que o Ocidente acertou na mosca simplesmente seguindo as atitudes ideológicas da Ucrânia e colocando ênfase na sociedade civil. No entanto, o apelo direto à sociedade ajuda a catalisar os processos necessários, mas não garante o resultado desejado, como demonstrou essa mesma revolução. Para formalizar esses processos na realidade política é necessário um Estado forte.

A situação atual é muito perigosa, já que o colapso institucional da Ucrânia representa um alto risco de envolvimento direto de agentes externos. O desejo da Alemanha em exibir o seu recém-descoberto gosto pela liderança europeia, o instinto “solidário” norte-americano, que exige potenciais reforços da Rússia, e a tendência própria de Moscou de provar o seu direito de preferência no espaço pós-soviético. Tudo isso leva ao agravamento dos confrontos, que, na verdade, ninguém queria.

O cenário ideal seria que Rússia e UE concordassem em assinar um contrato informal a fim de garantir a preservação da Ucrânia dentro de suas fronteiras atuais e assumir a responsabilidade das coisas com as quais a elite nacional falhou. No entanto, outro cenário é mais provável: a Rússia e o Ocidente se acusam mutuamente pela escalada da violência e começarão uma “batalha por procuração”, apoiando lados opostos e aprofundando ainda mais a divisão já existente.

Em 2008, quando, por iniciativa da administração George W. Bush, levantou-se a questão da concessão à Ucrânia e à Geórgia do plano de ação dos membros da Otan, a conversa de Vladímir Pútin com seus interlocutores na cúpula Rússia-Otan acabou vazando e teve grande ressonância. O presidente russo apontou para a artificialidade das fronteiras da Ucrânia e pediu para não cutucarem a oposição interna.

Na época, o Ocidente interpretou isso como uma ameaça, e Pútin teve que fazer uma espécie de aula de alfabetização para os colegas norte-americanos. Para Bush, a breve história do aparecimento da Ucrânia e das suas fronteiras atuais foi uma clara revelação. Mas a coalizão de 2013 e 2014 mostra que, no Ocidente, ninguém entendeu de verdade a gravidade da situação em torno da Ucrânia.

Agora, os reflexos geopolíticos combinados com padrões ideológicos levaram a uma grande crise, cujos círculos de ressonância podem se espalhar a grandes distâncias.

 

Fiôdor Lukianov é presidente do Conselho de Política Externa e de Defesa

 

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