Voos espaciais não tripulados: por que seguir com eles?

Fonte: Konstantin Maler

Fonte: Konstantin Maler

Milhares de objetos resultantes de progresso tecnológico, de estações espaciais internacionais a minúsculos satélites de comunicação, circulam no espaço à procura das respostas a questões fundamentais da existência. E a presença do homem, será mesmo necessária na órbita? Dois cosmonautas expõem pontos de vistas opostos sobre essa questão.

Para o escritor Aleksandr Serebrov, meios automáticos já dão conta do recado:

Atualmente, se desenvolve uma discussão sobre a utilidade dos voos espaciais tripulados. Não concordo com aqueles que os acham desnecessários por serem excessivamente caros, nem com a possibilidade de o homem ser substituído por meios técnicos e tampouco com quem diz que os problemas terrestres deviam ser resolvidos na Terra. O homem precisa ir ao espaço por várias razões.

Primeiro, é muito interessante e proveitoso ver como estão funcionando na prática equações escritas da Terra, a quilômetros de distância. No espaço atuam forças que aqui embaixo parecem pequenas. Estudos na órbita são muito importante para cientistas, engenheiros e sobretudo para os que se ocupam de projetos relacionados com meios técnicos espaciais.

Todavia, os voos espaciais não se limitam a fornecer ao homem conhecimentos técnico-científicos. Mais do que isso, importa o fato de o espaço mudar a visão do mundo. O cientista russo Tsiolkovski proferiu que o universo nos daria muito pão, poder infinito e uma nova filosofia. Pessoas que estiveram no espaço nunca voltam a ser as mesmas. Dali se vê como é pequeno o nosso planeta, com seus continentes diminutos em relação ao oceano e o meio ambiente agressivo, e se percebe como o nosso progresso técnico está contribuindo para esta agressividade. 

A energia, proporcionada à Terra pelo Sol, é responsável por erupções vulcânicas, terremotos, tempestades e tudo que acontece na atmosfera. Entretanto, hoje em dia, há cada vez mais energia produzida no nosso planeta. A média da eficácia energética de uma turbina térmica moderna é de 37%, ou seja, quase dois terços da energia de combustível vão por água abaixo. Isso sem falar de carvão, gás e energia nuclear. 

O aquecimento global causa o aumento de cataclismos naturais, o nível do oceano mundial sobe, sendo as diferenças medidas já em centímetros nos últimos 50 a 70 anos. Todas estas alterações em escala planetária são visíveis do espaço.

Soluções

Os voos espaciais tripulados não só permitem observar as mudanças para o pior, mas também ajudam a encontrar soluções. A título de exemplo: graças aos estudos espaciais, é possível produzir energia na órbita, dissipando o calor no espaço e enviando a energia para a Terra através de micro-ondas.

É preciso governarmos os recursos planetários em comum. O planeta não pode ser repartido. Voos espaciais tripulados ajudam a entendê-lo e a arranjar soluções. Para termos resultados, necessitamos de projetos conjuntos a longo prazo, em vez de estudos elaborados por certos países em separado. Tenho a certeza de que, apesar de todas dificuldades financeiras, políticas e outras, a prática espacial tripulada tem futuro. 

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Aleksandr Níkonov, escritor:

 

A Agência Espacial Federal Russa anunciou seus planos de levar o homem novamente à Lua até o ano 2030. Se fala também sobre Marte, o que suscita o interesse público.

A exploração espacial é um tema muito importante e ao mesmo tempo doloroso para a Rússia. O país, que foi o primeiro no mundo a lançar ao espaço o satélite artificial e, a seguir, o homem, leva muito a sério qualquer lançamento fracassado, qualquer catástrofe. Quer voltar a ser o primeiro. Assim, surgiu a ideia de precisarmos ir à Lua. Ou ao Marte, sobre o qual escreveram tantos escritores de ficção científica russa e mundial.

Sei muito bem que os satélites de comunicação e navegação são imprescindíveis, bem como a exploração espacial por si. Contudo, é uma área em que os meios automáticos estão operando bem com maior autonomia, pois não precisam de banheiros, água ou alimentação, não adoecem, nem erram. O que vai fazer o homem no espaço? Satisfazer suas necessidades fisiológicas, ficar nervoso e cometer erros?

Iúri Gagárin, o primeiro homem no espaço, foi e continua sendo o orgulho da Rússia. Ora, o que lucrou a ciência com o voo dele? Nada. Só a propaganda comunista tirou proveito: foi na URSS que tiveram a ideia de meter um homem vivo num projétil metálico, enroscar as porcas nos parafusos e disparar numa trajetória balística com o fim de o foguete com o cidadão soviético dentro voltar à Terra após uma volta na órbita. Agora, é de conhecimento público que o 1º cosmonauta tinha apenas 50% de chances de voltar.

Gagárin nada dirigiu. Com o mesmo êxito podiam ter arriscado a vida de um cão. E arriscaram a de Gagarin. Ele próprio estava a par disso, dizendo: “Até agora, não sei se sou o primeiro homem que esteve no espaço ou o último dos cães.”

Corrida espacial

Mais tarde começou a corrida espacial entre a URSS e os EUA. Quais foram os interesses dos norte-americanos na Lua? Ver sua outra face era bem possível com ajuda de aparelhos. Aliás, foram meios automáticos que trouxeram para a Terra amostras do solo lunar para a investigação, enquanto Armstrong se limitou a dar alguns pulos.

Na URSS de Khruschóv, depois do voo de Gagárin, quase toda a sequência de lançamentos espaciais era apenas uma maneira de iludir da opinião pública global. O secretário-geral precisava da exploração espacial mais para fazer propaganda do que para outros fins.

Khruschóv exigia mais recordes, dando socos na mesa. Quando soube que os norte-americanos estavam preparando um voo espacial com dois tripulantes, exigiu logo que Serguêi Korolióv, construtor-geral de foguetões espaciais, mandasse ao espaço uma tripulação composta por três pessoas.

Korolióv sabia que isso não era possível, pois a URSS não possuía, nem possuiria a curto prazo, naves espaciais de vários lugares, nem os respectivos veículos lançadores. Ora, a solução foi arranjada por um funcionário seu, o engenheiro Feoktistov, que propôs a variante enganosa: lançar a tripulação de três elementos num foguetão de um lugar para o mundo pensar que o pais ultrapassava os EUA mais uma vez. Para que a mentira não viesse à tona, foi decidido mudar o nome do foguete: Vostók acabou sendo Voskhód, como se fossem naves espaciais diferentes.

Como dispor três pessoas num aparelho de um lugar? Não foi fácil. Minimizaram o equipamento e o oxigênio, escolheram elementos magros, de estatura baixa, os quais submeteram a uma dieta rigorosa, e os privaram dos escafandros. Conseguiram.

Até a catapulta de segurança foi abolida, o que privou a tripulação da possibilidade de ser salva caso algo corresse mal na aterrissagem. A falta de escafandros diminuiu ainda mais as hipótesis de sobrevivência.

Feoktistov tinha a noção de que sua ideia poderia ter consequências mortais e até propôs sua candidatura para a tripulação. Korolióv aceitou. Os cosmonautas foram metidos na cabine de um lugar como sardinhas em lata. A tripulação estava tão apertada que não conseguia ligar nada além da comunicação via rádio. Nem isso foi preciso, porque as tripulações desempenhavam os papeis de manequins vivos.

Para a sorte do trio, o voo aventureiro acabou bem. O mundo foi espantado, mais uma vez, com o êxito dos rusos, que criaram uma nave espacial de “três” lugares.

Hoje em dia, a concorrência entre dois sistemas já não existe. Talvez seja melhor deixar de pôr em risco as vidas humanas.

Colonizar Marte

E será mesmo séria a nossa intenção de colonizar a Lua ou Marte? Para quê? Será que já não temos onde morar na Terra? Na história da humanidade, colonizadores costumavam procurar terras novas por causa da alta taxa de natalidade. Habitantes em demasia eram expelidos da Europa como uma pasta de dentes da bisnaga. Hoje em dia, no mundo desenvolvido, este problema já não existe, há lugar para todos.

Se, porém, houver uma ansiedade de colonizar algo, se pode ocupar o deserto Gobi. Ali, as condições também são difíceis: escassez de água, oscilação de temperaturas diárias. Mas, ao menos, ar para respirar não falta. Se diz que ali não há nada para fazer. E em Marte?

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